Volta a volta

Chama-se Hugo Matos Sancho, é natural de Mortágua mas há cerca de três anos que vive em Febres, terra onde refere ter sido acolhido de braços abertos, e onde acaba de regressar depois de mais uma participação na Volta a Portugal.

“Como a minha esposa é daqui, decidimos vir para Febres (Chorosa) viver. A minha vida é praticamente toda aqui. Tenho aqui a minha família, as minhas filhas estão a crescer aqui, e já fiz muitos laços e amigos”, começa por partilhar com o AuriNegra, antes de mais um treino de ciclismo.

Para quem acompanha a modalidade, Hugo Sancho é um nome bem conhecido. Aos 35 anos, o ciclista tem já um currículo de mais de uma década sobre duas rodas, embora a sua primeira incursão no desporto tenha sido no atletismo, como nos conta.

“Até aos vinte anos fui fundista. Primeiro por uma equipa da região de Coimbra, o São Pedro de Alva, depois pela Académica, pelo Sombras Negras de Lemede e ainda pelo Maratona Clube de Portugal”, explica, acrescentando ter memórias de competir contra a Gira Sol, a equipa da terra que anos mais tarde o viria acolher.

No entanto, aos 22 anos, decide trocar as sapatilhas pelas bicicletas, “muito por influência do meu irmão, que já praticava ciclismo. Para além disso, lá em casa, desde miúdo que me lembro de ver a Volta a Portugal e de seguir alguns ciclistas lá de Mortágua, que já davam cartas a nível nacional”.

A escolha de deixar o atletismo surgiu pelo facto deste desporto ser muito exigente, mas principalmente porque tinha que treinar sozinho a maioria das vezes, “o que me desmotivava muito”. E foi assim que decidiu experimentar um ano de ciclismo, pelo Veloclub do centro, uma equipa de Mortágua.

“Como o meu irmão e alguns amigos já praticavam, convenceram-me a experimentar. Logo nesse ano participei em algumas provas e comecei a conseguir bons resultados e a demonstrar qualidades”. E foi assim que aquilo que era para ser um ano de experiência, se tornou em mais… E noutro, e assim sucessivamente.

Depois de um ano nos Sub23, e dois como amador, Hugo Sancho teve a oportunidade de entrar para o Sport Lisboa e Benfica como profissional, onde permaneceu durante dois anos.

“Foi uma fase muito boa, porque finalmente conseguia fazer ciclismo de forma profissional, o que rapidamente se tornou o meu objectivo mal comecei a praticar”, refere.

Com a extinção da equipa do Benfica, o ciclista voltou à estaca zero, mas escolheu não desistir e decidiu investir na carreira por conta própria. “Tinha ainda muito para aprender e demonstrar e não quis baixar os braços”. Após dois anos como amador, a sua carreira voltou a dar uma volta, ao ser convocado pela Selecção de Portugal a participar na Volta a Portugal. Estávamos em 2010 e, desde então, Hugo Sancho nunca mais falhou uma Volta.

Este ano não foi excepção, com Hugo Sancho a representar, pelo primeiro ano, a equipa La Alumínios – Metalusa – BlackJack. O atleta, que ficou em 11.º lugar na 79.ª edição da Volta a Portugal, considera que a sua prestação “foi digna e aceitável e a minha melhor prestação de sempre”, embora não tivesse conseguido o objectivo de ficar entre os dez primeiros.

Ainda assim, refere que esteve sempre na prova com motivação. “Não houve um dia em que tivesse maus pensamentos. Mantive sempre pensamento positivo”, refere. A ajudar teve, como sempre, a esposa e as duas filhotas, assim como os muitos familiares e amigos, “que fazem questão de me apoiar e dar muita força. É isso que me dá força. Tive um apoio inimaginável”.

Uma vida de sacrifícios

Desde que deixou o amadorismo que Hugo Sancho vive exclusivamente do ciclismo, mas esta é uma vida que envolve esforços.

Tirando exceções, não há dia em que o ciclista não pegue na sua bicicleta para um treino, que pode ser mais curto, de cerca de duas horas, até treino mais longos, de cinco ou seis horas. Embora tenha vários dias de competição, Hugo Sancho assume que a maior exigência vem antes, na preparação. “É nessa fase que os treinos se intensificam e que tenho que ter mais controlo sobre o que como, para atingir o peso ideal”, reforça.

No entanto, e apesar da exigência, o jovem atleta de 35 anos está rendido ao ciclismo.

“É um desporto que me agrada pelo desafio e competição. É muito bom fazer o que se gosta, ainda por cima quando o faço acompanhado”, frisa.

Entre os melhores momentos que guarda desta profissão, está a primeira vitória como corredor profissional, aos 24 anos. “Nessa noite sonhei que ganhava e a verdade é que ganhei mesmo”. Mas nem só de vitórias se faz a vida de um ciclista. Em 2016 Hugo Sancho viveu um dos momentos mais marcantes da sua carreira quando foi expulso da Volta a Portugal, por se agarrar a uma viatura.

“Foi o meu pior momento no ciclismo. Foi muito complicado. Mas não baixei os braços e na prova que tive a seguir trabalhei tanto mas tanto que acabei por ganhar”, partilha. Ainda que o sacrifício físico seja grande, e as quedas muitas, para Hugo Sancho o mais difícil é o sacrifício psicológico: “É necessário ter uma grande motivação, senão não se consegue”. Nesta motivação, existem três apoios essenciais, a esposa Inês Santos – que conheceu quando acompanhava o irmão numa prova de ciclismo em Febres – e as pequenas gémeas Íris e Beatriz.

“Sem a minha mulher era difícil”, diz, explicando que a vida de ciclista exige muitas ausências de casa, que só são possíveis quando há um grande bem-estar familiar. “Por exemplo, mês e meio antes da Volta fui para a Serra da Estrela treinar. Durante esse tempo estive apenas meia dúzia de dias em casa. Não seria fácil sem o apoio da Inês”.

Com um currículo de quatro vitórias, muitos Top 10 e alguns Top 3, o ciclista pretende continuar a pedalar na estrada nos próximos dois / três anos. “Depois deixo o ciclismo, de cabeça erguida”, refere, confessando-nos que o seu futuro talvez possa passar pelo BTT: “outra vertente de que gosto muito e que era engraçado abraçar, porque se me esforçar pode-me levar a competições em vários países”.