Vá à Fava…connosco

Sugiro aos nossos leitores que façam uma visita num destes domingos ao mercado da Tocha e avaliem o movimento que se gera em torno de quem vende e quem compra favas, batatas novas, alhos verdes com caule e folhas, cebolas da época,  alfaces e claro está a imprescindível carne gorda – quanto mais gorda melhor – pois nela vai estar a delícia de um prato que por este tempo é do domingo, da semana e da festa! A corrida aos açougues adjacentes no recinto da feira é surpreendente, onde, como diz o Floriano não tem mãos a medir: “ em cada dez pessoas que aqui entram onze pedem toucinho para as favas, que logo pela manhã se esgota”.

Nestas andanças há gestos e preocupações dignas de assinalar por quem como ele tem as portas abertas e faz questão de corresponder às solicitações dos clientes e dos amigos que lhes entram por ali dentro. E é vê-lo durante a semana à procura das porcas gordas que compra aos lavradores, onde o tal toucinho chega a ter mais de cinco centímetros de altura e que uma vez impregnado de sal faz as maravilhas do tempero! O estabelecimento do tio Amândio Almeida que sempre vem da Caniceira onde tem um fumeiro delicioso é outro que tal, e não lhe faltam encomendas para a semana seguinte, “pois há gentinha assim como eu, que neste tempo é capaz de comer favas todos os dias”.

Da mesa onde em grupo e à volta delas confraternizávamos, iam saindo um pouco para todo o lado mensagens e retratos de quem estava, e das travessas que tínhamos à frente. E o retorno não se fez esperar: era do Luxemburgo, da França, da Suíça, de Angola, do Canadá, da América… do Mundo: uns diziam que também estavam de volta delas, outros que para lá caminhavam e outros ainda que apesar de tão longe lhes sentiam o cheiro.

Era gente da Gândara que assim se queixava! Falo das favas com molho de carne que hoje vão indistintamente à mesa dos pobres, dos remediados e dos ricos, porque as pessoas as assumiram como o manjar que são! E a explicação que encontro para todo este movimento aglutinador prende-se, a meu ver, com o espaço temporal demasiado curto em que elas aparecem e desaparecem, e daí “Maio as dá Maio as leva”, porque o seu consumo está porventura arreigado aos hábitos ancestrais de uma alimentação de sobrevivência que entretanto passou para os anais como fazendo parte da rica cozinha dos pobres, e pela excelência de uma confecção que não se alterou e que toda a gente sabe fazer.

É neste contexto, e dispondo da colaboração do restaurante “A Pedreira” na Pena/Portunhos, que irá ali acontecer o almoço no próximo sábado dia 19, afecto ao movimento cívico “A Gândara no seu melhor”, movimento de plena independência, que se pauta pela defesa da identidade desta região.

Autor: António Castelo Branco

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