Uma vida na pesca

João Batista Ribeiro Vieira nasceu em Mira mas é na praia que passa grande parte dos seus dias a pescar. Agora pesca de pés bem assentes na terra (ou na areia, se preferir), mas em tempos foi em alto mar que andou à busca de pescado e de uma vida melhor.

Criado numa família de agricultores, João Vieira sempre sobreviveu daquilo que a terra lhe dava. “Os meus pais tinham alguns terrenos e era disso que viviam”, conta-nos, acrescentando que, nessa altura, as mordomias eram poucas e que, com mais quatro irmãos (dois rapazes e duas raparigas), partilhar e poupar eram duas das palavras que mais ouvia.

Na família Vieira trabalhar desde cedo era normal. Os filhos saíam da escola, alguns ainda antes de aprender a ler e a escrever, e desde logo começavam a pegar na enxada. “Aos 9, 10 anos já eu andava na lavoura com os meus pais”, afirma o gandarês recordando como eram esses tempos: “Matava-se uma galinha pela Páscoa. Também tínhamos o porco e todas as semanas fazia-se uma fornada de broa. Fome nunca passávamos”.

Apesar de não existir fartura, João Vieira refere que “eramos felizes. Éramos essencialmente muito unidos e fomos criados sempre num ambiente de princípios”. A religião era outra das presenças assíduas em casa. “Todos os dias se rezava o terço”, diz, sublinhando ainda que quando chegou à altura de ir para os bacalhoeiros foi o padre da aldeia quem o ajudou.

Antes disso, trabalhou algum tempo numa carpintaria e numa empresa de amónio em Cantanhede.

Quando João Vieira chegou aos 19 anos a tropa era uma obrigação e a Guerra um medo que atormentava muitos portugueses e à qual só havia uma forma de “fugir”: ir para a pesca de bacalhau. “O meu irmão já tinha estado na tropa e, por isso, eu sabia como era e não queria ir… Então escolhi a vida nos bacalhoeiros”.

Para entrar, contou com o apoio do padre Manuel Domingos. O pagamento, lembra, “foi um galo vivo e uma garrafa de vinho do Porto”.

Até então o mar era um perfeito desconhecido para João Vieira. Nem mesmo à Praia de Mira, ali ao lado da sua vila natal, tinha o hábito de ir. Nos mares gelados da Gronelândia e da Terra Nova começou como muitos outros nas tarefas de moço.

“Fazíamos limpezas, preparávamos e costurávamos as redes, entre outras funções”, refere. O trabalho era muito, admite ao AuriNegra. Porém acrescenta: “Como já ia de uma vida de muito esforço não me custou muito”. Para além disso, os tempos eram bem diferentes dos dóris, “e pelo menos não se corria tanto o risco de nos perdermos no mar e sermos levados pelas correntes”. O pior era mesmo o frio. Cortante. Com temperaturas abaixo dos 40º graus negativos. Depois, havia ainda a insensibilidade dos capitães, que João Vieira afirma, sem medos, que, em alguns casos, “eram piores que o Salazar”.

Segundo o mirense, havia por vezes um abuso de poder por parte dos superiores. Já entre pescadores, apesar do companheirismo que existia, também era frequente haver uma competitividade desenfreada. No entanto, são os bons amigos que fez pelos mares do Norte que prefere recordar: “Os pescadores João da Felícia e Manuel Damas ajudaram- me muito e ensinaram-me muito daquilo que sei”.

Com a ajuda dos mais experientes, a verdade é que João Vieira passou rapidamente de moço a escalador (responsável por abrir e amanhar o bacalhau). O ritmo de trabalho era consoante a quantidade de peixe que o mar oferecia. “Cheguei a trabalhar 48 horas seguidas”, diz, acrescentando que, no entanto, “o dinheirito que se fazia valia a pena”.

Quanto à comida no navio, o antigo pescador é franco e categórico: “Aquilo era próprio só para suínos”. Porém, como refere, havia sempre forma de tornar as coisas mais apetitosas, com um bom azeite português, umas batatas colhidas dos terrenos gandareses e algum vinho, “muitas das vezes fabricado por mim”. “Quando apanhávamos nas redes uns búzios e umas vieiras também era um regalo”, acrescenta.

Durante a conversa com o AuriNegra, João Vieira volta muitas vezes à relação que havia entre oficiais e pescadores e que ainda hoje o parece “assombrar”. “Magoava-me a dureza destes”, afirma, em jeito de confissão, e com o olhar vago de quem por instantes viajou mentalmente a um passado doloroso.

“Sou uma pessoa que vem de uma família onde reina o respeito e a compreensão, e nunca me conformei com o trato que ali havia. Parecia que tinha ido para outra guerra”, afirma.

Dos sete anos dedicados à Faina Maior, João Vieira recorda um episódio em especial: “Numa das campanhas enchemos todos os porões do barco em 2 meses e 22 dias e vínhamos com 22 mil quintais de pescado. Já perto de Portugal, ao largo de S. Miguel, apanhámos uma tempestade enorme e tivemos que desligar os motores. Estivemos a andar à deriva para terra três dias e três noites ”. Quando finalmente a tempestade acalmou e conseguiram navegar até Aveiro, depararam-se com os porões desfeitos e grande parte do peixe estragado. “Quando vimos o estado dos porões é que percebemos o perigo que corremos. Aí sim, tive medo”.

 

Dos barcos para a cana

Passados sete anos na pesca, João Vieira regressou a Mira para junto da esposa que conhecera aos 18 anos e com quem casara logo após a primeira campanha. “Ela sempre compreendeu o meu trabalho. Chorava cada vez que eu partia, mas entendia. Porém, custou muito mais andar naquela vida a partir do momento em que a minha mulher teve os meus filhos”, refere.

Na altura em que decidiu sair dos bacalhoeiros, foi pedido a João Vieira que ficasse. Porém este estava decidido: “Disse-lhes mesmo que estava farto de ser mal tratado e que como já tinha feito o tempo obrigatório para livrar à tropa ia deixar aquela vida”.

Durante os dois primeiros anos em terra, como nos conta, andou “sem rumo” e chegou mesmo a ponderar voltar para os navios de pesca. Entretanto surgiu a oportunidade de ir trabalhar para a Câmara Municipal de Mira, como cobrador de consumos, e o seu destino mudou. “Estive na CMM durante 34 anos. A vida aí tornou-se boa. Menos trabalhosa mas mais complicada porque era uma função de muita responsabilidade”, afirma.

De regresso à terra que o viu nascer, descobriu novamente a pesca, desta vez na modalidade desportiva. “Comecei a ver os outros a pescar e comecei a entusiasmar-me”, afirma, acrescentando que, hoje em dia, a pesca já se tornou num vício: “Todos os dias vou pescar. Gosto de estar ali à espera do peixe e, entretanto, também fiz grandes amigos”.

 

Para João Vieira “o areal é o livro, o mar é um poema e a pesca uma paixão”. E, apesar de nem todas as recordações que tem do mar serem boas, é junto deste que se sente feliz. “Há em mim uma grande nostalgia… Quando me recordo daquilo que lá passei chego, por vezes, a sentir alguma saudade. Lembro-me principalmente do navio a arrancar e das pessoas a acenarem. Era uma sensação maravilhosa aquele carinho”.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)