Um Palhaço em Lesbos

Há experiências que nunca se esquecem e que marcam a vida de quem passas por elas eternamente. Jorge Rosado acaba por passar por uma dessas experiências, através da personagem Dr. Risotto.

O palhaço, criador da associação cantanhedense Palhaços d’ Opital, decidiu tirar uma férias diferentes e partir para Lesbos, na Grécia, para ajudar num campo de refugiados.

A aventura surgiu a partir da Plataforma de Apoio a Refugiados (PAR) que durante os meses de Março e Setembro desenvolveu um missão de apoio aos refugiados que foram chegando à Grécia e ficando pelos vários campos de refugiados, na sua maioria em situações muito difíceis e que exigem um apoio específico em termos humanitários.

Na equipa da PAR foram médicos, enfermeiros, psicólogos, educadores sociais, professores, engenheiros e o Dr. Risotto, um palhaço, cujo trabalho no terreno, de acordo com Rui Marques, coordenador da PAR, “foi muito apreciado”.

“Arranquei para Lesbos no dia 10 de Agosto e regressei no dia 31 de Agosto. Foi uma viagem cansativa com três escalas e com muito calor e ansiedade mas fui cheio de curiosidade e de vontade de dar o meu melhor em prol de quem tanto necessita. Apesar de ter tido algum receio, este desapareceu rapidamente mal cheguei ao campo de Kara Tepe”, começa por explicar ao AuriNegra Jorge Rosado, ou “Dr. Risotto”.pag13_lesvos

A experiência em Lesbos surgiu do gosto que o doutor palhaço tem em participar neste género de missões. “Já estive uma vez em Cabo Verde e em 2016 decidi levar o meu trabalho aos refugiados. Inscrevi-me em alguns sites para ir completamente sozinho mas depois tive um convite da PAR e fui para a ‘Linha da Frente’ em Lesbos”, refere.

Na ilha grega, Jorge Rosado esteve em dois campos: Kara Tepe e em Silver Bay (a cargo da Cáritas Grécia) como palhaço e como monitor a apoiar nas acções desenvolvidas pela PAR. “Ajudei em actividades de ocupação, como pintura e desenho, tarefas de integração local, dinamização e acompanhamento de actividades lúdicas e desportivas, reuniões multi-equipa de planificação, animação de locais e eventos…ou seja, tentei levar alegria e humor até àquelas pessoas”.

De volta à realidade, e ao trabalho nos hospitais, onde tem como missão colocar sorrisos na cara dos doentes, Jorge Rosado recorda a experiência por terras gregas como “incrível e muito enriquecedora a vários níveis” mas especialmente “pelas vivências, experiências e novas amizades”.

“Acima de tudo, foi marcante conhecer e conviver com pessoas que estão a viver momentos muito complexos nas suas vidas. Pessoas como todos nós mas a quem foi tirado tudo e que lutam imenso para spag13_lesvos2obreviver e voltar um dia a ‘poder viver’. São pessoas que vivenciaram situações muito traumáticas na viagem até á Europa. Pessoas que continuam a acreditar que a Europa os vai acolher e receber bem…mas cuja esperança começa a perder forças e a frustração está a começar a controlar e a deturpar as ideias, sonhos e pensamentos”, acrescenta.

Jorge Rosado reforça: “Foi muito bom poder viver em comunidade com um grupo extraordinário de dez pessoas com um coração gigante, com competências incríveis, com vasta experiência internacional com refugiados. São pessoas com amor ao próximo que nos fazem acreditar que o mundo pode ser um local bonito e onde todos podem ser bem acolhidos e amados independentemente da cor, país, etc”.

A nível pessoal, diz ao AuriNegra, a experiência foi também importante pela “consciencialização do quão privilegiados somos por termos uma vida óptima e à qual muitas das vezes não damos o devido valor. Aprendi a relativizar as coisas, a valorizar o muito que temos, o país maravilhoso que é o nosso, as pessoas acolhedoras e generosas que somos, aprender a dar ainda mais valor aos amigos, à família, ao próximo e à vida óptima e bonita que temos em Portugal”.