Um padre de todos e para todos

Tem como apelido o nome do filho de Deus – Jesus – e, curiosamente, é a este que tem dedicado a sua vida, ao longo das últimas seis décadas. Jerónimo de Jesus Correia nasceu em Fontainhas, na Lousã, no seio de uma família católica que desde cedo aceitou com entusiasmo a sua entrega total à igreja.

Os pais, agricultores, sempre criaram os sete filhos (quatro rapazes e três raparigas) dentro do catolicismo e por isso não estranharam quando o jovem Jerónimo de Jesus lhes disse que iria para o seminário, “dar alma” à sua vocação: ser padre.

Tímido e reservado por natureza, o actual pároco de Mira e do Seixo, explica-nos que a infância foi sempre pacata e passada na vila da Lousã. “Eram tempos difíceis mas como vivíamos da agricultura nunca passámos fome. Em tempos de guerra era ainda mais complicado mas tínhamos sempre aquilo que cultivávamos”, refere.

O trabalho, acrescenta, era cansativo e começava desde bem pequeno: “Mal entrei para a escola comecei a ajudar os meus pais na lavoura. Nessa época não tínhamos tempo para brincar nem para ir para ao café. Vínhamos da escola e íamos logo para o campo. Era muito duro”.

Prosseguir com os estudos era uma realidade que não era acessível a grande parte da população. “Lembro-me que lá na minha terra só dois rapazes, de famílias mais abastadas, é que continuaram a estudar. Não havia nem dinheiro nem disponibilidade”.

Com efeito, na família do padre Jerónimo, foi ele o único a abraçar o ensino, ainda que pela via da religião. “Na altura era muito normal ir-se para o seminário para estudar”, afirma. Porém, enquanto uns iam desistindo pelo caminho, outros continuavam, até se tornarem sacerdotes. Foi esse o caso do padre Jerónimo.

O chamamento, refere, aconteceu de forma muito natural. “Eu já era muito piedoso, frequentava a missa, a catequese. Uma vez, por volta dos meus 10 anos, a minha catequista falou-me da hipótese de ir para o seminário e a ideia foi crescendo e amadurecendo”, conta-nos alegremente.

Nessa altura, também ajudou o contacto que teve com um padre missionário que o deixou a meditar se seria aquele o seu futuro.

Por volta dos 11 anos, o jovem Jerónimo de Jesus muda-se para o Seminário da Imaculada Conceição, na Figueira da Foz, onde permanece durante cinco anos, dando assim início a uma nova e estimulante fase da sua vida.

“Até então eu nunca tinha ido a Coimbra nem à Figueira da Foz, por isso foi uma grande mudança”, começa por nos contar, recordando principalmente a emoção que foi ver o mar pela primeira vez: “Eu perdia-me a olhar para o mar… No início nem entendia bem o que aquilo era. Para mim era apenas um rio que tinha enchido demais, como acontecia, por vezes, lá na aldeia”, recorda divertido.

No seminário, apesar das saudades que sentia da família, afirma que a adaptação não foi muito difícil. “Gostei muito de estar no seminário, senti-me sempre bem. Fiz muitos amigos e, acima de tudo, aprendi muito”. Para além das aulas e dos períodos dedicados à oração, havia ainda “tempo” para ser criança, algo que a dureza da vida no campo, ajudando os pais, não permitira até então. “Nessa altura já havia momentos para brincar. Fazíamos brincadeiras comuns como jogar à bola, à cabra cega, ao lencinho e ao pião”, lembra.

Da Figueira da Foz, Jerónimo de Jesus seguiu para o Seminário Maior de Coimbra, para dar continuidade à sua formação na área da Filosofia e da Teologia.

Durante sete anos, o lousanense trabalhou no sentido de se tornar um bom sacerdote. Pelo meio, fez parte do grupo de escuteiros do seminário, “jogava muito futebol” e também se envolvia no coro e nas aulas de música. Quando podia, ajudava ainda na Casa do Gaiato de Miranda do Corvo, onde recorda as tardes em que dava catequese “à sombra de uma bela nespereira”.

“Fui caminhando …”, diz-nos com calma, resumindo em poucas palavras o seu percurso, enquanto fica absorto em pensamentos de há várias décadas. À pergunta sobre se, em algum momento, pairou alguma dúvida sobre o caminho a seguir, o pároco responde: “A fase da adolescência é sempre mais complicada mas, ainda assim, nunca pensei em mudar de direcção. No entanto, escolher a vida de padre não é algo fácil. Por exemplo, quando entrei para o seminário erámos 73. No final, só dez foram ordenados”.

Embora tenha lidado com críticas e até com algum “gozo” por parte de alguns jovens da sua aldeia, que não entendiam a sua escolha, Jerónimo de Jesus partilha que sempre sentiu o apoio dos pais e dos irmãos – o mais importante.

“Seguir o sacerdócio, naquele tempo, era uma das únicas formas de seguir os estudos e, ao mesmo tempo, era um grande prestígio e motivo de orgulho”, frisa.

O padre Tenente

Aos 23 anos, Jerónimo de Jesus estava pronto para ser ordenado. Contudo, a ordenação aconteceu apenas a 15 de Agosto de 1962. “Como fiz tudo certinho, sem falhar nenhum ano ou cadeira, tive que esperar até aos 24 anos, a idade mínima para ser ordenado sacerdote”.

Depois da ordenação, seguiu-se aquela que foi a sua primeira vinda para Mira. “Vim para cá fazer uma espécie de ‘estágio’, como coadjutor do pároco de então: o Padre Miguel. Na verdade, costumo dizer que, como padre, foram aqui que me nasceram os dentes”.

Todavia, a experiência por terras gandaresas durou apenas um ano, pois foi chamado para regressar ao Seminário da Figueira da Foz, desta vez como professor. “Era diferente de ser pároco mas ainda assim foi uma experiência muito motivadora para mim. Adorava ensinar”, diz-nos, acrescentando que, durante esse período, teve ainda a oportunidade de ajudar a criar o escutismo na Figueira da Foz e de auxiliar na paróquia.

Seguiram-se ainda alguns anos, também a dar aulas, no Seminário de Coimbra e ligado ao Secretariado da Juventude, através dos quais organizou vários Convívios Fraternos, cursos de formação intensiva para jovens católicos.

Porém, se há uma fase da vida do padre Jerónimo que realmente o marcou foi aquela em que esteve em Moçambique. “Estive três anos como Tenente/Capelão Militar em Moçambique. Era responsável por um batalhão e foi um período que, apesar de duro, foi muito enriquecedor”, contanos com vagar, enquanto recorda alguns momentos dolorosos, como a morte de um dos militares do seu batalhão.

“Vi coisas horríveis e acompanhei de perto o sofrimento daqueles homens. Na primeira vez chocou-me o facto de eles cantarem em momentos de dureza, mas depois percebi que era a forma de eles lidarem com aquilo que faziam e presenciavam”, conta.

Para além de acompanhar os militares, servindo não só como padre mas também “como mais que um psicólogo”, o lousanense teve ainda a oportunidade de cumprir uma missão: “Fui para uma zona onde os padres missionários haviam sido expulsos e fiquei também a acompanhar a comunidade, principalmente as crianças que andavam na escola”.

Embora, como refere, “não entendesse praticamente nada do que eles diziam”, foi uma “experiência altamente marcante. Senti que fiz a diferença, de algum modo”.

Finda a aventura por África, o padre Jerónimo de Jesus é solicitado novamente em Portugal. É neste período que assume a sua primeira paróquia, em Almalaguês (um ano). Passa ainda por Torres do Mondego (cinco anos) e por Pelariga, em Pombal (dez anos).

Habituado a trocar de paróquia e, concomitantemente, de local, o padre assume, no entanto, que “cada vez que mudava era um pouco doloroso”. Porém, era também “o início de uma nova experiência para mim, principalmente porque fui sempre para locais que já não tinham pároco há algum tempo, o que fazia com que me recebessem com alguma ansiedade”.

Felizmente, assume, “tenho grande facilidade em me relacionar com as pessoas e elas, normalmente, correspondem. Sempre fui muito acarinhado, o que me levava a sair de lágrimas nos olhos”.

Antes de regressar a Mira, onde está há 14 anos, o pároco passou ainda, mais uma vez, pelo Seminário Menor da Figueira da Foz, como vigário episcopal e responsável pela região pastoral Beira-Mar.

Sobre o retorno a Mira, Jerónimo de Jesus assume: “Recebi com bons olhos o regresso a esta terra. Na verdade, eu vinha com saudades daquilo que já conhecia”.

Há dez anos, para além da paróquia de Mira, abraçou também a do Seixo. “As aldeias vivem melhor a religião e isso nota-se principalmente no Seixo. As pessoas participam muito nas coisas da igreja”, assegura.

Como pároco, Jerónimo de Jesus refere ser atento e participativo. “Para além da celebração das cerimónias habituais, trabalho muito com casais e com jovens na catequese e nos escuteiros”, afirma, reiterando a sua ligação ao escutismo desde os tempos de seminarista: “Uma vez escuteiro, para sempre escuteiro!”.

A visita aos idosos e aos doentes é outra das tarefas que mais lhe preenchem o coração. “Acompanho os seniores nos centros sociais e duas vezes por ano [Páscoa e Natal] faço questão de visitar os doentes nas suas casas para eles se confessarem, orarem ou simplesmente conversarem”, explica-nos.

Actualmente o padre Jerónimo de Jesus é arcipreste, ou seja, coordena os párocos de Mira e Cantanhede, o que implica um horário de trabalho mais extenso. “Os meus dias são bastante ocupados. Durante os meses de Verão a actividade ainda é mais intensa, com a chegada dos emigrantes”.

Como tal, o pároco considera que a vinda de um novo padre para as paróquias de Mira e do Seixo seria uma maisvalia. “Ter a ajuda de um padre mais novo, com mais ‘genica’, era muito positivo, não só para mim, que já não tenho a mesma energia de outros tempos, mas também para a comunidade, principalmente para os jovens”.

No entanto, o padre lousanense sabe que isso será difícil: “Cada vez há menos padres. A igreja está a passar por uma forte crise de vocações, sem dúvida alguma, mas ainda tenho confiança que a situação vai mudar”.

Enquanto esse momento não chega, é com fé e muita dedicação aos outros que o padre de 78 anos vai desempenhado aquele que escolheu para ser o papel da sua vida. “Não me arrependo da escolha que fiz quando tinha 11 anos. Claro que há momentos menos felizes mas o balanço é muito positivo. De todos os locais que passei guardo boas recordações e bons amigos, e isso é muito bom”.

Apesar de ir, sempre que pode, à Lousã, visitar familiares, é em Mira e no Seixo que acaba por permanecer grande parte do seu tempo. “Aqui também tenho uma grande família. São muitas as famílias que me abrem a porta e nas quais me sinto verdadeiramente em casa e isso sabe muito bem”, frisa, olhando para o relógio que o recorda que está na hora de voltar ao trabalho.

Por Roma

IMG_20160414_163234

Durante dois anos o padre Jerónimo de Jesus rumou a Roma, em Itália, para tirar uma Licenciatura em Espiritualidade. “Decidi que precisava de mais e então fui para o Colégio Português em Roma, pertinho do Vaticano”, diz-nos.

A experiência, “especial e muito enriquecedora”, como refere, permitiu ao pároco “analisar as coisas com outra profundidade. Foi muito importante, principalmente depois da minha passagem pela tropa em Moçambique”.

Em Itália, o pároco teve a oportunidade de conhecer padres de todo o mundo.“Contactar com outras ideias, outras culturas é sempre positivo”. Para além das aulas, Jerónimo de Jesus ainda ajudou a dar catequese de preparação para o crisma numa pequena comunidade.

“Todos os domingos assistia também a várias missas e cerimónias e aproveitava para conhecer a cidade”, refere. No entanto, um dos momentos mais especiais, e que recorda com mais emoção, foi sem dúvida, aquele em que conheceu o Papa João Paulo II. “Era um grande homem, que fez muito pela igreja”, partilha.