Um homem: duas carreiras

José Carlos Garrucho nasceu no lugar da Ermida, no concelho de Mira, onde nos recebeu para conversar naquela que é a sua casa e, em simultâneo, consultório de terapias e psicologia. Desta vez ninguém se deitou no divã, mas ao invés de escutar foi a vez de o psicólogo falar – desde os tempos de menino até aos dias de hoje.

Filho de Belmiro Garrucho – enfermeiro e analista clínico – e de Noémia – doméstica, costureira e agricultora –, José Garrucho nasceu em casa, ali em pleno coração da Ermida.

“Na altura as mulheres não iam parir às maternidades. Tinham os filhos em casa com a ajuda de alguém. No dia em que nasci o meu pai andou umas horas à procura da parteira, quando chegou já eu tinha nascido”; começa por nos contar, calmamente. Com mais três irmãos – duas raparigas e um rapaz – o professor e psicólogo refere que teve uma infância feliz, “passada na rua, a brincar com os vizinhos. Vivia-se mais pela aldeia do que em casa. Cumpriu-se na minha infância um provérbio oriental muito profundo que diz que é preciso mais que um professor, uma escola e uma família para educar uma criança; é preciso uma aldeia inteira. E eu tive a família, a professora e a aldeia inteira”.

Desse período, as recordações são ainda muitas e, normalmente, marcadas por uma liberdade, que hoje, assume, as novas gerações já não têm. “Era tão bom andar a brincar sem dar pelo tempo passar. Quantas vezes é que aqui o ‘Zézito’ [como era conhecido em miúdo] não acabava por almoçar ou merendar na casa dos vizinhos, porque entretanto se fazia tarde.”.

As brincadeiras consistiam em “jogar à bola, caçar pardais, ir à pesca para as ribeiras e valas, o que acabava por ser uma boa forma de se treinar as destrezas físicas, psicológicas e até relacionais”, partilha.

Enquanto criança, era “esperto e ágil mas, em simultâneo, um pouco tímido, principalmente com as raparigas”: “Socialmente e em grupo não se notava muito essa timidez, porque até tinha algumas características de liderança e era muito activo. A timidez era mais no campo dos namoricos”, diz, entre risos.

Em simultâneo, passava muito tempo em leituras. “Lia muito, até porque desde cedo havia uma grande convivência com os livros cá em casa. O meu pai era, e ainda é, uma pessoa culta e que gostava de promover com os filhos conversas sobre temas variados, como a política, a religião e as questões sociais, daí eu desde miúdo ser muito curioso e atento a propósito de tudo”.

Embora tenha feito o ensino até à 3.ª classe em Mira, a certa altura a família muda-se para a Figueira da Foz, para uma das irmãs mais velhas continuar a estudar. “Como era criança, a adaptação não custou muito. Fiz novos amigos e como vivia num pequeno bairro, já no limite da cidade, conseguia andar à mesma a brincar pelas ruas, pelo que a diferença não foi assim tão drástica a esse nível”. Ainda assim, havia diferenças: “Tinha que ter mais cuidado no vestir e no trato social. Em alguns sítios já havia televisão e as pessoas juntavam-se, mas continuava a ser uma vida semirrural, porque até criávamos galinhas e frangos. Íamos à Ermida nas paragens lectivas do Natal, Carnaval, Páscoa e em Julho, Agosto e Setembro também ‘fugíamos’ da Figueira”.

Pela Figueira da Foz fez a 4.ª classe e o exame de admissão ao liceu e à escola industrial, para a qual entrou com 10 anos. Da cidade à beira-mar, a família Garrucho muda-se entretanto para Coimbra, onde José Garrucho passa a frequentar a Escola Industrial Brotero, para se formar em técnico de electricidade. “Nessa altura aquilo era uma verdadeira fábrica de profissionais. Tinha mais de 3 mil alunos e era apetrechada com toda a maquinaria necessária para a aprendizagem de várias actividades e profissões”, explica.

Nessa época, e uma vez que a escola era dividida em ala feminina e ala masculina, José Garrucho dizia que era quase um desafio falar com as raparigas. “Ainda fazíamos algumas brincadeiras com a polícia, que tentava a todo o custo evitar que nos cruzássemos com elas”.

Como aluno da Brotero, José Garrucho integrou a Mocidade Portuguesa, onde praticou a fotografia, e a fanfarra, onde tocava cornetim e clarim. Com um espírito revolucionário, ainda em jovem começou a demonstrar uma atenção especial para com as injustiças do regime. “Cheguei a distribuir jornais e comunicados anti-regime. Eram principalmente contra a guerra colonial, porque nós, rapazes, estávamos condenados a ela, e posso dizer que foi aí que arrancou a minha actividade política”, recorda.

Logo após a revolução do 25 de Abril, os estudantes ganharam voz na escola e José Garrucho torna-se membro da primeira mesa da assembleia. No mesmo ano torna-se ainda dirigente da Associação de Estudantes da escola e cria secçoes de rádio, filatelia, jornalismo e fotografia. Começa ainda a praticar judo e faz um curso de fotografia e realização de cinema na Associação Académica de Coimbra. “Eram períodos divertidos. Criámos uma rádio interna e emitiamos em circuito fechado para toda a escola”, conta, assumindo a sua veia de autodidata.

O prazer de ensinar

Quando terminou o curso de Técnico de Electrotecnia, na Brotero, José Garrucho ainda arranjou emprego como técnico de telecomunicações, mas foi logo convidado para dar aulas de Educação Visual na Escola Preparatória Joana Princesa, em Oliveira do Bairro. Estavamos no ano lectivo de 1976/77. No ano lectivo seguinte foi para a Pampilhosa da Serra, leccionar Trabalhos Manuais.

Embora nunca tivesse tido a ideia de vir a ser professor, o mirense assume que começou a gostar da experiência. “Fui ganhando motivação e percebi que podia fazer coisas extraordinárias com os miúdos”. Deste modo, como docente de Trabalhos Manuais, Educação Visual e depois de Educação Visual e Tecnológica passou ainda por escolas de Vila Nova de Poiares, Coruche, Carvalhos/Gaia, Febres e Mira.

A carreira na docência foi só interrompida quando foi chamado à tropa, onde permaneceu, nos comandos, durante ano e meio. “Estive na Amadora e depois no Hospital Militar de Coimbra”.

De regresso ao Ensino, esteve ainda em Leiria, à frente do Departamento de Audiovisuais da Coordenação Distrital da Educação de Adultos, passando depois para o mesmo serviço mas na Coordenação Regional em Coimbra. Em simultâneo, dava formação a outros professores e chegou a ser membro de Conselhos Directivos de Escolas e ainda Director de um Centro de Formação de professores.

“Gostava mesmo de ensinar, a toda a gente…tanto adultos como crianças. Tudo o que sei é para partilhar com alguém, por isso gostava de desafiar os alunos, inovar nos métodos e sempre gostei de seguir e desafiar as tendências”; refere.

Enquanto professor, o mirense frisa que os estudantes e até os colegas gostavam dele, “porque eu envolvia-me bastante na comunidade escolar e, apesar de exigente, era acessível”.

Embora gostasse da profissão, ao fim de 37 anos de serviço, José Garrucho decide abandonar a carreira, “porque já me tinha dedicado muito à profissão e a degradação das condições de trabalho eram, e são, evidentes. Rescindiu com o Ministério da Educação e passou então a dedicar-se em exclusivo à Psicologia, uma paixão que havia surgido entretanto e que nos explica como foi desenvolvendo.

“Chegou uma altura em que meti na cabeça que queria fazer uma formação superior, de raiz, numa área científica diferente da docência. Embora tivesse pensado em Sociologia, à última da hora escolhi Psicologia e não me arrependo. Achei que era um seguimento do meu percurso e também uma boa oportunidade para abraçar outro tipo de carreira. Como tinha mais de 23 anos e saber, candidatei-me ao exame especial de acesso e fui o primeiro a ser aceite no curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.”.

Assim, com 35 anos, voltava aos bancos da escola, desta vez não como professor mas como aluno. “Foi muito fácil a adaptação. Os meus colegas, embora mais novos cerca de 15 anos, respeitavam-me muito e foi criada uma grande cumplicidade, que ainda hoje se mantém”, começa por explicar, acrescentando que mesmo a vida académica foi vivida na plenitude: “Fui no carro, ia aos jantares de cursos, às festas”.

Terminada a licenciatura, em 1997, e não deixando para trás a docência, começou logo a trabalhar como psicólogo clínico no Centro de Saúde de São Martinho do Bispo, onde acompanhava utentes de todas idades, mas com maior enfoque nas crianças. “Era um trabalho que ligava o Serviço Nacional de Saúde às escolas. Desenvolvemos um conjunto de processos para ajudar alunos, famílias e comunidade, na facilitação dos processos de aprendizagem – melhoria do desempenho académico”.

Em 1998 abre o seu consultório na Ermida e decide especializar-se em terapia familiar e de casal. “Tirei uma pós graduação, e comecei a dar consultas, em vários locais”, conta-nos. Logo de seguida, com outros colegas, cria uma clínica em Coimbra, a Processo T, entretanto encerrada, e em 2002 abre outro consultório, também na cidade dos estudantes, onde ainda hoje se mantém em actividade. Desde 2004, é também formador na Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, da qual se tonou supervisor em 2013

De 97 a 2014 manteve as duas carreiras – de psicólogo e de professor – em paralelo. E embora pareçam áreas diferentes, o mirense refere que eram até semelhantes. “Inclui ajudar as pessoas, levá-las a aprender, a tornarem-se melhores… Acabava até por descansar de cada uma delas através da outra”. Agora que se dedica, profissionalmente, apenas à psicologia, José Garrucho refere que o maior desafio “é continuar ajudar as pessoas em dificuldades e em crise. Ensiná-las a activar os seus próprios recursos de resolução e construção de soluções de vida. É isso que me motiva”

Consciência política e social

Desde cedo detentor de uma forte consciência política, José Garrucho sempre primou pela liberdade de expressão e também pela luta pelos direitos sociais e políticos.

Enquanto professor passou pelo Sindicato de Professores da Região Centro. Mais tarde, já por Mira, fez parte da campanha de João Reigota, pelo PS.

Em 2009 candidatou-se à Assembleia Municipal e em 2012 à Câmara Municipal, em ambas as vezes pelo grupo de cidadãos independentes MAR – Movimento Autárquico de Renovação, pelo qual dá a cara. Actualmente é vereador e assume que o seu papel é ajudar a promover o desenvolvimento da sua terra e “essencialmente desempatar as posições do PS e PSD [cada um com três vereadores]. Estou ali numa posição de charneira, como que a supervisionar a política que se pratica em Mira”, refere veemente.

Defensor de uma participação activa da cidadania na política, “porque, para mim, é uma obrigação dos cidadãos”, José Garrucho refere estar na política porque acredita que o concelho pode “e deve ir mais longe. As potencialidades são imensas, pese embora a bipolarização partidária tenha bloqueado muito o desenvolvimento local”.

Como nos diz, orgulhoso da sua terra mãe,“Mira é uma terra gandaresa plena de recursos: um concelho marítimo, de veraneio e turismo tradicional, mas que ao mesmo tempo encerra as melhores e mais profundas tradições de ser português. Uma terra de diáspora (existem mirenses por todo o mundo e muitos com grande sucesso), que sempre soube receber e acolher e que, misturando os saberes ancestrais que resultaram do processo de transformação das terras salubres, pantanosas e ‘medonhas’ num jardim e horta, a todos alegra, alimenta e dá saúde. Daqui resultaram tradições múltiplas, desde marítimas (arte xávega, pesca de costa e longínqua), de crenças e saberes que incluem rituais pré-cristãos e cristãos intensos, dos processos de transformação e fabrico, da gastronomia plena de iguarias, sabores e saberes, ao domínio do território com culturas típicas, valas, ribeiros e lagoas, floresta. Tudo em grande tempero, mistura e diversidade inclusiva!”

O seu envolvimento na política vai ainda mais longe, uma vez que em 2009 o seu Movimento Independe, MAR, foi fundador da AMAI – Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes, da qual é vice-presidente desde 2013.

Embora tenha uma vida profissional bastante preenchida, o mirense tem vindo a envolver-se em outras actividades e projectos, como é exemplo a fundação do Clube de Canoagem de Coimbra (em 1980) e do Clube Independente de Coimbra (1981). Tem ainda ligações a associações e entidades do concelho de Mira, como os Bombeiros Voluntários de Mira, o lar de idosos de Mira, a Cerci, de que é cooperante, a Junta de Agricultores e a Cooperativa Agrícola de Mira.

“O associativismo é algo que me cativa. Sou defensor da dinâmica e da coesão social e é através dessas associações que se mostra a importância e a necessidade de as pessoas se unirem”, partilha.

Para manter o corpo (e a mente) em forma, José Garrucho gosta ainda de praticar natação e fazer corridas e caminhadas. Para trás ficou o parapente, um desporto que praticou durante vários anos e que foi o mote para a criação de um clube em 2000, o Clube de Voo Garça-Real, entretanto extinto. “Adorava fazer parapente. Claro que como se diz: ‘o medo guarda a vinha’, mas neste tipo de desporto até convém ter medo”, refere, demonstrando uma veia mais radical.

Com 60 anos, energia é algo que não falta a José Carlos Garrucho. Entre consultas, formações, colaborações com jornais locais, reuniões e eventos a que faz questão de comparecer “com vista à promoção do concelho”, o mirense aproveita para ter momentos com a família – é casado e tem três filhos.

“Trabalho muito, tenho as consultas, a formação que dou, a política, estas instituições todas. Depois ainda colaboro com grupos informais de Coimbra, tanto sociais como culturais. Sou ainda sócio e membro dos corpos socias da Associação Cristã da Mocidade e da Aldeia Graça de São Filipe, ambas em Coimbra. Como vê, tenho muito com que me ocupar”, conclui.