Um homem de valores

Álvaro Rosa Dias de Carvalho nasceu em Mira e é por Mira que, actualmente, passa grande parte dos seus dias. Pelas ruas da vila gandaresa são poucos os que não o conhecem. Na verdade, mesmo durante a entrevista que concedeu ao AuriNegra, foram várias as pessoas que o abordaram, sempre com carinho e simpatia.

Juiz jubilado, ex-combatente e músico, o septuagenário já conta com um longo e interessante percurso de vida e, apesar de alguns momentos menos bons, faz questão de manter sempre um sorriso aberto e sincero.

Actualmente com 75 anos, o mirense conserva uma energia e um brilho no olhar que revelam um homem de fortes ideias e valores, como a sua história de vida, que contaremos mais à frente, vêm provar.

Mas comecemos pela infância, passada em tempos de guerra e de grandes adversidades.

Os pais de Álvaro de Carvalho – Américo de Carvalho e Rosa Rosa – sempre puderam fazer com que os que os filhos não passassem dificuldades. Enquanto Rosa ficava em casa, nas lides domésticas e a cuidar dos três filhos [Álvaro e mais duas raparigas], Américo era notário e conservador do registo civil.

“Felizmente, a minha família nunca passou por grandes dificuldades. Os tempos eram outros e não havia luxos, mas, ainda assim, nunca passei por privações”, começa por contar Álvaro de Carvalho. Com uma situação económica mais estável que grande parte da população de Mira, a família tinha como hábito ajudar os mais necessitados: “Mira era uma vila muito pobre. A minha avó ajudava quem precisava. No entanto, uma das recordações de infância mais fortes que tenho, pela carência que então era comum, era de ver o meu pai a distribuir dinheiro aos sábados de manhã no cartório, a grupos que apareciam a pedir. Ele contava as pessoas e depois dava o dinheiro a um deles, para que fosse distribuída uma quantia igual por todos”.

“Na minha escola a maioria dos miúdos andavam descalços. Levavam um pouco de broa e um bocado de peixe para o almoço e era só”, conta-nos, acrescentando que, mesmo assim, recorda os seus tempos de meninice como uma época boa.

Apesar da situação do País, “acabei por ter uma infância feliz. Brincava muito na rua, ao berlinde, às nações, e com a bola de farrapos, e em casa tinha um ambiente saudável e sem conflitos. Erámos uma família unida, e isso era o mais importante. Recordo-me muitas vezes dos verões passados num palheiro na Praia de Mira, onde me divertia no mar e a aprender a fazer redes. Era maravilhoso”, recorda. No entanto, o pequeno Álvaro de Carvalho não era uma criança fácil de aturar. “Ui… Era fome, peste e guerra”, diz, evocando as personagens bíblicas dos Cavaleiros do Apocalipse, para explicar que era “traquina e desobediente, o que normalmente resultava nuns castigos da minha mãe”.

Porém, e embora tivesse uma personalidade “reguila”, na escola Álvaro de Carvalho era bom aluno. “Aí não falhava”, frisa. Assim, terminada a Escola Primária, em Mira, seguiu para o liceu de Aveiro e depois para a Universidade de Coimbra, onde cursou Direito.

“A escolha de tirar Direito aconteceu quando eu tinha uns 17 anos. Podia ter escolhido Medicina ou Engenharia Química, que eram áreas que também me agradavam, mas acabei por escolher Direito”, conta-nos, acrescentando que o pai, também de Direito, nunca influenciou na decisão, embora lhe pedisse para ajudar muitas vezes no cartório “a tirar cópias e a passar documentos à máquina de escrever”.

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Turma de Álvaro de Carvalho

Em Coimbra, Álvaro de Carvalho tinha como objectivo dedicar-se exclusivamente ao curso. “Nessa altura o meu pai adoeceu e eu senti que o ia perder cedo e que tinha que terminar o curso a tempo”, diz-nos, emocionado. O pressentimento estava certo e o pai do juiz não o chegou a ver concluir a licenciatura.

Embora muito empenhado nas aulas, durante os tempos de estudante universitário, Álvaro de Carvalho também abraçou as tradições académicas. “Andava muitas vezes de capa e batina, porque também era uma forma de poupar roupa”, diz, divertido. Apaixonado por música desde cedo, logo no primeiro ano pela cidade dos estudantes acabou por aceitar o convite para entrar para o Orfeon Académico de Coimbra, onde permaneceu durante os cinco anos do curso.

“Inicialmente não queria. Estava 100% dedicado ao curso e não queria distrações, mas como vivia numa casa à frente da do maestro do Orfeon, o Raposo Marques, ele lá acabou por me convencer”, refere.

A decisão veio a revelar-se uma das melhores que tomou em toda a vida. “Foi uma experiência maravilhosa, não só pela oportunidade de praticar música mas também pelo convívio e amizade”, frisa. Com o Orfeon, Álvaro de Carvalho correu todo o País e foi ainda a Espanha e duas vezes aos Estados Unidos da América. “Numa das vezes, a convite de uma companhia discográfica norte-americana, passámos 45 dias nos EUA. Percorremos toda a zona ocidental e conhecemos imensas coisas. Foram momentos únicos, que dificilmente viveria se não tivesse entrado para o Orfeon”, destaca.

Outro momento que Álvaro de Carvalho não esquece foi quando, em plena crise académica, ficou fechado no Palácio dos Grilos. “Era interventivo enquanto estudante e, já nessa altura, de oposição ao regime, por isso juntei-me à causa e fui um dos que ficou fechado no Palácios dos Grilos durante umas nove horas. Entretanto foi feito um acordo e acabámos por sair dali, sem quaisquer consequências”, diz, explicando que o “espírito oposicionista” era de família: “Sempre fomos pessoas que viam para a frente e nunca para trás. O meu avô, por exemplo, foi vogal da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ovar, após a implementação da República… Muitos anos depois eu também integrei uma comissão, mas em Mira”.

A guerra que não escolheu

Aos 24 anos, Álvaro de Carvalho terminava o curso e entrava directamente para a tropa. Passou por Mafra, Vendas Novas – onde fez o curso de atiradores –, Serra do Pilar, pela Escola Prática de Tancos e ainda por Penafiel. Um ano depois, o mesmo regime ao qual se opunha veemente, era aquele que lhe colocava uma arma nas mãos e que o enviava em combate para a Guiné.

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“Nunca percebi porque me meteram nos atiradores, mas não tinha alternativa e lá tive que ir, lutar por algo em que não acreditava e que condenava”, refere, enquanto o sorriso, que pautou praticamente toda a conversa, se vai desvanecendo. As memórias desse período ainda estão bem vivas e é com alguma mágoa que o juiz jubilado rememora essa época. “Ir para a guerra e viver a guerra não foi o pior. Para mim o pior mesmo foi ter havido guerra. Sabia que as coisas haveriam de mudar mas mesmo assim tinha que ir”, começa por afirmar.

Durante os cerca de 20 meses que passou na Guiné – em Tite e em Bissau – Álvaro de Carvalho diz que sentiu por várias vezes medo, muito medo. “Era inevitável e constante. Tinha medo não só de morrer mas também de ficar inutilizado para a vida inteira. Durante os últimos meses estive internado no Hospital Militar com um problema de coluna e vi homens desfeitos, sem mãos, sem pernas, desfigurados…um horror”.

Embora estivesse na frente de combate e tivesse perdido vários camaradas, o mirense diz que nunca lhe calhou matar alguém. Algo que apenas consegue atribuir a “muita sorte”: “No meio disto tudo, tive imensa sorte, porque saí ileso e porque, felizmente, não tirei uma vida sequer”, refere, visivelmente emocionado, e acrescentando que, embora a situação fosse de tensão, acabou por fazer grandes amigos: “O companheirismo era muito. Em tempos de guerra é que se vê o que é a solidariedade, porque todos nos unimos contra um inimigo comum”.

Quando regressou da Guiné – “num dia que não esqueço: 30 de Agosto de 1969” –, a carreira de Álvaro de Carvalho estava totalmente estagnada. “Tive que recomeçar tudo mas finalmente podia viver a minha vida”, frisa. Com efeito, no mesmo ano, ficou como Delegado do Procurador da República em Amares (Braga). Depois disso passou ainda por Baião e Pombal, até que se estabeleceu como advogado em Mira.

“Na altura a decisão prendeu-se com questões familiares. A minha mãe e as minhas irmãs precisavam de mim por perto e por isso decidi voltar para casa e abrir um escritório de advocacia”, refere. Por Mira, ficou 13 anos, embora soubesse “que aquela não era a sua profissão”.

“Convivi com muita gente e conheci pessoas maravilhosas mas o queria mesmo era ser juiz, o que por lei já não me era possível porque só podia integrar na função pública quem tivesse menos de 35 anos”, esclarece. Enquanto trabalhava por Mira, Álvaro de Carvalho passou a tomar mais atenção à vila assim como às necessidades das pessoas e, juntamente com alguns amigos de infância, começou a pensar que algo teria que ser feito.

“Ainda me lembro bem do 25 de Abril de 1974. Estava em casa, em Mira, quando me contaram o que estava a acontecer. Fiquei muito feliz mas ao mesmo tempo ansioso, porque não se sabia no que daria”, começa por contar. No entanto, as boas notícias não tardaram a chegar, e a queda do regime veio impor novas formas de se fazer política.

Dando seguimento às ideias que já vinha a alimentar há vários anos, em Maio de 1974, Álvaro de Carvalho, com o amigo, entretanto falecido, Narciso Patrão, constituem uma Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Mira, da qual o juiz jubilado se torna presidente. “O objectivo era dar um novo rumo ao concelho, mas trabalhando em benefício das pessoas. Nessa altura, as pessoas não tinham muita formação política, e eram pouco críticas, e era preciso trabalhar para mudar as coisas”, refere.

Dois anos depois é criada a Câmara Municipal de Mira e Álvaro de Carvalho decide sair. “Fiz o meu papel. Aí nascera uma lógica de poder que não era a minha. Gosto de pensar pela minha cabeça e sou incapaz de defender uma ideia em que não acredito”.

Quando em 1985 foi revogada a lei de limite de idade para a entrada na magistratura, o mirense não hesitou e inscreveu-se no Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa, para finalmente prosseguir a carreira que sempre quis. Até se tornar juiz passou um pouco por todo o País: Montemor-o-Velho, Santa Comba Dão, Mêda, Torres Novas, Leiria e finalmente Aveiro, onde permaneceu até se aposentar, em 2010.

Porém, a carreira como juiz acabou por não ser exactamente como esperava “A certa altura, o direito tornou-se demasiado funcional e foram sendo esquecidas outras partes importantes”. Sem se alongar muito sobre o seu trabalho, Alvário de Carvalho refere apenas que sempre foi, tanto na vida pessoal como na vida profissional, uma “pessoa conciliadora”. “Tenho por acertado um brocado segundo o qua mais vale um mau acordo que uma boa demanda”, frisa.

Quanto à pior parte de se ser juiz, assume, sem hesitações, que passava pela ânsia da decisão. “Quem tem a preocupação de fazer verdadeira justiça tem sempre essa angústia”. Já a melhor parte era, afirma, quando encontrava forma de conciliar os interesses de ambas as partes; algo que, acrescenta, só se consegue através do “que a vida nos vai ensinando”.

Unidos pela música

Álvaro de Carvalho jubilou-se em 2010, embora refira que preferisse ter continuado a trabalhar.

Ainda que os seus dias sejam menos ocupados desde que deixou a barra dos tribunais, Álvaro de Carvalho mantém-se activo e, entre leituras e visitas a amigos, tem vindo a dedicar-se à sua outra paixão: a música.

“Durante anos fui maestro do Coro de Mira, que criei com a minha esposa, já falecida. Agora já não sou o maestro mas continuo a cantar lá no Coro, que é um dos meus maiores motivos de orgulho. No total, já fizemos uns 400 concertos, por todo o País e também pelo estrangeiro, como França, Holanda, Espanha e Bélgica. É uma experiência que tive a oportunidade de partilhar com a minha mulher e que ainda me é muito gratificante”, conta-nos. Para além disso, Álvaro de Carvalho integra outro coro: o coro João Crisóstomo, de Cantanhede.

“Para além de praticar música, algo de que gosto muito, permite-me conviver com os outros. Sou uma pessoa de valores e de sentimentos e aquilo que levo mais simpático da vida são, sem dúvida, as pessoas”, conclui.