Um homem de desafios

O dia era frio mas o sorriso quente de António Fernando Rodrigues da Costa anunciava uma história de vida interessante e contada com a eloquência que poucos têm. Em Enxofães, na casa onde vive há 14 anos, o antigo professor recebeu o AuriNegra para uma longa conversa, onde nos falou dos tempos de menino, numa Coimbra diferente da de hoje, até à vinda para o concelho de Cantanhede, onde, de regresso a um ambiente mais rural, como tanto gosta, desfruta da tranquilidade junto da família, do campo e dos seus livros.

Embora tenha nascido em Coimbra, as raízes de António Rodrigues da Costa são minhotas. “Os meus pais eram ambos lavradores e naturais dos arredores de Braga”, começa por afirmar, explicando o que levou à vinda da família para Coimbra: “Na altura o meu pai veio trabalhar para a Santa Casa da Misericórdia e ficou a tomar conta da Cerca do Colégio dos Órfãos [situada na alta da cidade], que era a quinta de recreio do extinto seminário de Santo Agostinho”. Deste modo, e embora vivessem em plena cidade, António Rodrigues da Costa e os irmãos [uma rapariga e um rapaz] acabaram por ter uma vida semelhante à vivida no campo.

“Acabei por ser criado em Coimbra mas num ambiente tradicionalmente minhoto. Mesmo na quinta, como não havia luxos nem fartura, todos tínhamos que ajudar. Lembro-me de regar e de tirar ervas”, afirma. Como o pai não gostava que saísse da cerca – “dizia que havia muito espaço para brincar” – acabava por se entreter com os divertimentos do costume “como o jogo do berlinde, o jogo do botão, com um carrito de madeira ou, claro, a jogar à bola”. 
Enquanto criança, Rodrigues da Costa assume que era “um pouco rebelde”. “Julgo que a minha personalidade se foi moldando desde o princípio, ou seja, sempre disse aquilo que queria e pronto”, diz, divertido. Ainda assim, essa rebeldia não trespassava para os estudos, aos quais desde cedo se dedicou com afinco.

“O meu pai era uma pessoa notável, fora de série mesmo, e desde cedo que me incutiu o hábito de ler. Com pouco mais de dez anos, eu já tinha lido toda a coleção de Emílio Salgari e de Júlio Verne. Ainda que com raízes humildes, o meu pai foi fazendo o seu percurso e, de lavrador, chegou a Encarregado de Obras da Santa Casa, conseguindo cumprir um dos seus principais objectivos: permitir que os filhos estudassem”.

Com efeito, por volta dos 15 anos, António Rodrigues da Costa começa a tirar o Curso de Comercial, na Escola Brotero, mas um esgotamento nervoso impede-o de concluir os exames no último ano. “Perdi ali um ano. Quando retomei as aulas tinha apenas duas disciplinas para fazer, então ia muitas vezes ler para a Biblioteca Municipal de Coimbra, até que me deparo com uma oferta de emprego para dactilógrafo, à qual concorri e com a qual acabei por ficar”, conta-nos, acrescentando a importância desse primeiro emprego: “Através desse trabalho tive a oportunidade de conviver com Dr. José Pinto Loureiro, um grande historiador de Coimbra, que teve um papel preponderante na minha vida. Com este emprego, onde ganhava 500 escudos mensais, aprendi o que eram regras e atingir objectivos mas descobri também o gosto pela investigação, pois sempre que o José Pinto Loureiro não tinha originais para eu dactilografar, mandava-me fazer investigação, através da leitura do jornal do Joaquim Martins de Carvalho, “O Conimbricense”, que era muito interessante”.

Quando chegou a altura de seguir para o Ensino Superior, António Rodrigues Costa tinha na ideia ser engenheiro químico – “porque desde sempre gostei de perceber como funcionam as coisas” – mas como o curso ainda não existia foi para Físico-Química.

Porém, estava ainda no terceiro ano da licenciatura
quando é chamado à tropa. “Foram três anos inúteis, em que parei a minha vida. Na altura, deixei a minha mulher e um dos meus filhos para trás, para ir para a guerra”, explica. Durante um ano esteve em Portugal, tendo passado por Mafra, Vendas Novas (onde se especializou em artilharia), Figueira da Foz e Tancos, depois seguiram-se dois dolorosos anos em Angola.

“A única coisa boa que a Guerra trouxe foram algumas amizades. De resto, apercebi-me que não vale a pena ter medo da morte, porque ela vem à mesma e quando calhar. Aquilo ali era ‘ou matas ou morres’. É um espírito de sobrevivência enorme e uma adrenalina que não se explica mas que deixa marcas”, assegura-nos, confessando que desses tempos há uma memória olfativa que não esquece, “uma mistura de pólvora dos tiros, sangue e mato”.

Outra das dores que os tempos na tropa lhe trouxeram foram as saudades da família e a ausência em momentos importantes. “Num domingo em que a minha mulher estava em trabalho de parto tive que regressar ao quartel em Mafra e recordo-me, perfeitamente, do quanto chorei por não estar presente naquele momento e por só ter visto o meu filho, pela primeira vez, uma semana depois do seu nascimento”, recorda.

Com o fim do serviço militar, António Rodrigues da Costa regressou a Coimbra, ao seu trabalho como dactilógrafo e arquivista na Biblioteca e para terminar o curso, que entretanto passara a ser de Química, na vertente da educação. No final da licenciatura, tinha três opções: formar-se em bibliotecário arquivista, que lhe permitiria continuar na biblioteca; concorrer para a carreira de docência, o que significava ir para longe da família; ou procurar outro emprego. Quando viu que havia um concurso para ser chefe dos Serviços Municipais de Turismo da Câmara Municipal de Coimbra não hesitou e acabou por ficar com o cargo, durante 12 anos.

“Foram anos apaixonantes, em que tive a sorte de construir uma grande equipa. Julgo que fizemos coisas que marcaram a cidade”, refere, enumerando a restruturação dos grupos etnográficos locais, o programa de recuperação do fado de Coimbra, a realização de diversas exposições, entre outros projectos.

Pelo meio, já num período pós 25 de Abril, António Rodrigues da Costa inicia-se no movimento sindical, chegando inclusive a ser secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local. Pelo trabalho desenvolvido no Sindicato, e pelos conhecimentos até ai adquiridos, o professor acaba por ser convidado por Ramalho Eanes para participar na campanha que levou à sua reeleição e vem depois a ser um dos fundadores do PRD em Coimbra.

Durante dois meses foi ainda deputado na Assembleia, mas, de regresso a Coimbra, decide deixar o trabalho na Câmara Municipal e abraçar um novo projecto, como director de Marketing da ESTA, “uma cadeia gerida pelo grupo Estoril Sol e pela TAP; com hotéis em Guiné, Angola, S. Tomé e Açores“.

Três anos depois é convidado para ser professor na Universidade Internacional. Segue-se a oportunidade de leccionar na Escola Superior de Turismo do Estoril e mais tarde na Lusófona, onde se aposentou em 2014, com 72 anos. Sempre na área da gestão hoteleira.

Em simultâneo, fez ainda trabalhos como consultor da Organização Mundial de Turismo. “Essa experiência permitiu-me participar em projectos muito interessantes, em Angola e Moçambique”. Durante anos, a vida profissional de António Rodrigues da Costa incluiu inúmeras viagens para fora do país, o que significava também estar longe da família.

“Eu adoro viajar, mas viajar em trabalho é mais duro do que aquilo que grande parte das pessoas pensa. Era complicado passar a semana toda em Lisboa ou em viagem, pois acabava por estar com a minha família apenas aos fins-de-semana”, assume.

Apesar de ter muito trabalho, o conimbricense nunca disse não a um desafio, e, como tal, chegou ainda a ser director pedagógico de uma escola profissional em Lisboa, escreveu três livros sobre Gestão Hoteleira, e concluiu, aos 69 anos, o Mestrado em Gestão de Empresas Hoteleiras, na Universidade Lusófona.

“Quis tirar o mestrado por pura teimosia, literalmente. Mas serviu para aprofundar os meus conhecimentos”, conclui.

Há dois anos, Rodrigues da Costa deixou de dar aulas e trocou os dias ocupados na faculdade pela pacatez da vida na aldeia, junto da esposa Maria Celeste, com quem está casado há mais de 50 anos.

“Conhecemo-nos ainda em miúdos, porque ela era minha vizinha em Coimbra, mas só começámos a namorar por volta dos 15 anos”, conta-nos, acrescentando ainda como se deu a sua vinda para Enxofães, onde vive há 14 anos.

“Esta casa era dos avós da minha mulher e ela quis ficar com ela e recuperá-la, mantendo a traça original. Mas a mudança não foi nada repentina, foi sendo gradual. Primeiro vínhamos nas férias, depois aos fins-de-semana, depois comecei a trazer os meus livros e a minha música, até nos instalarmos aqui a tempo inteiro”, explica-nos.

“Mais rural que urbano”, como nos diz, António Rodrigues da Costa sente-se em casa na pequena aldeia do concelho de Cantanhede. E embora não seja um filho da terra, é com muito entusiasmo que abraça os projectos locais, como é o caso da Associação Cultural e Recreativa de Enxofães (ACRE), da qual chegou a ser presidente da assembleia geral.

“A verdade é que gosto muito de Enxofães. Deixei-me conquistar por este local e pelas pessoas”, assume. O interesse pela terra cresceu ainda mais quando se começou a aperceber da riqueza histórica da aldeia.

Quando deixou a docência, Rodrigues da Costa refere que “fechou a janela do turismo” e abriu novamente a da investigação histórica. E foi precisamente durante uma dessas investigações – que está a realizar para fazer uma exposição sobre o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra – que descobriu várias referências a Enxofães.

“Fiquei curioso e decidi iniciar uma investigação histórica que me permitiu descobrir muito sobre a aldeia”. O entusiasmo com que nos vai mostrando, no computador, imagens e informações sobre Enxofães, são prova viva de que Rodrigues da Costa está completamente rendido. “Quanto mais procuro saber sobre esta terra, mais encontro. É fascinante”, refere, acrescentando que o trabalho, que inclui várias horas diárias de pesquisa no arquivo municipal de Coimbra, vai ser apresentando em Março, durante o aniversário da ACRE, “como um presente à associação e à população”.

Pelo meio, e entre leituras e investigações, o septuagenário dedica-se à família – tem dois filhos e quatro netos –, lê livros sobre temas variados, vê filmes, ouve música e espera por um novo desafio: “Acho que só assim faz sentido. A vida tem que ser vivida através de desafios. Temos que encarar a vida de frente e tentar fazer sempre melhor e ir mais além”, conclui de sorriso na cara, assumindo-se como um homem feliz.