Um gandarês no Ministério

Júlio Domingos Pedrosa da Luz de Jesus nasceu a 7 de Setembro de 1945 na localidade de Cadima (concelho de Cantanhede). Com formação superior em Ciências Físico-Químicas, foi aprofundando conhecimentos na área da educação, tendo passado por cargos tão importantes como Reitor da Universidade de Aveiro, Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), Presidente do Conselho Nacional de Educação e Ministro da Educação. Actualmente aposentado, continua, ainda assim, envolvido em inúmeros projectos, entre os quais uma marca de vinhos.

O ar é compenetrado e sério, mas, após dois dedos de conversa, facilmente se deslinda um homem simpático e acima de tudo dono de uma grande humildade e simplicidade. Júlio Pedrosa nasceu em Cadima, em pleno coração da Gândara, onde nos recebeu para esta longa conversa, mas ainda cedo voou para outros destinos, que o levaram bem longe, tendo chegado a cargos de grande importância, como quando abraçou o desafio de ser Ministro da Educação.

Criado num meio rural, foi em casa que nasceu o pequeno Júlio.

“Nesse tempo era normal nascer-se em casa e eu não fui excepção. Foi ali na casa da Estação de Lemede – Cadima, onde passei a minha infância. O meu pai era revisor de bilhetes da CP e por isso vivíamos ali perto da estação, para ser mais fácil aceder ao comboio. A minha mãe era regente escolar na Taboeira, quando eu nasci”.

As raízes gandaresas, conta-nos, vêm da parte do pai. Já os avós maternos eram naturais de Vila Nova de Ourém e vieram parar ao concelho de Cantanhede por motivos de trabalho, uma vez que o avô era Funcionário das Finanças. Por cá ficaram, inicialmente em Ponte de Vagos e depois em Guímera, ali pertinho de Cadima e onde os pais de Júlio Pedrosa acabaram por se conhecer, apaixonar e criar família.

Pedrosa fez o ensino primário na aldeia, mas depois de passar nos exames da 4.ª classe e de admissão ao liceu, foi estudar para Coimbra, para o Liceu Normal D. João III. “Todos os dias lá ia eu de comboio, o que me era facilitado por o meu pai ser revisor. Era cansativo, saía às 6h30 e voltava às 19h30, todos os dias”. Os tempos livres eram passados em brincadeiras: “Ao contrário do meu irmão mais novo, que estava muito por casa, eu gostava era de andar na rua, nas brincadeiras da altura”.

Enquanto petiz, a sua ideia era vir a ser professor, profissão da mãe “com quem passava muito tempo. Por vezes acompanhava-a à escola e por isso tinha uma grande admiração pela carreira de docente”. Foi só mais tarde, quase na altura de fazer uma escolha, que decidiu mudar de rumo. E com o apoio de uma bolsa da Gulbenkian atribuída no sexto ano liceal, decide continuar os estudos e escolhe o Curso de Engenharia Química, na Universidade de Coimbra, que ainda veio a frequentar durante dois anos.

Mesmo nesse período continuava com uma forte ligação à sua terra. “Vinha sempre que conseguia aos fins-de-semana e participava nas coisas daqui. Lembro-me de fazer um pequeno teatro, por exemplo, e fui eu, juntamente com amigos, que construi a primeira rede de volley daqui. Também colaborei muitos anos com a União Recreativa de Cadima”.

Quando ia para o terceiro ano de Engenharia Química, decide trocar para Ciências Físico-Químicas na Universidade de Coimbra, licenciando-se em 1967 e passando, desde logo, a assumir funções de assistente. Enquanto estudante de Coimbra, a vida académica sempre foi acompanhada de um grande envolvimento com a MOJAF – Movimento Juvenil de Ajuda Fraterna, que ajudava na construção de casas para pobres em Santa Clara.

Com a chegada da idade obrigatória para cumprir o serviço militar, Júlio Pedrosa toma a iniciativa e oferece-se para cumprir os três anos na Reserva Naval da Marinha, e enviam-no para Angola comandar uma lancha de fiscalização do Rio Zaire e da costa próxima de Luanda.

“Foi um período diferente, mas foi muito bom ser responsável por um navio. Ainda por cima o Rio Zaire é um local magnífico e Luanda também era uma cidade muito interessante”, diz-nos, acrescentando que por lá ficou dois anos, um sozinho e outro já com a companhia da esposa Helena (que conhecera nos tempos de faculdade).

Depois de concluído o Serviço Militar, o professor reassume funções na UC, retomando, em simultâneo, os estudos que conduziram à conclusão da licenciatura em Química (Ramo Científico) em 1973.

No entanto, nesse mesmo ano, estava a ser criada uma nova Universidade em Aveiro e Júlio Pedrosa é desafiado a mudar-se “um pouco mais para Norte” e ingressar a UA. Aceita o desafio – mais um na sua longa carreira – mas com a garantia de poder, antes disso, tirar o doutoramento no University College de Cardiff, em Inglaterra, para onde se muda com a família (mulher e o primeiro filho, Luís Miguel).

“Ficámos dois anos em Cardiff. O nosso segundo filho, o Paulo Jorge, nasceu lá. Foi uma fase engraçada, numa realidade diferente”, conta ao AuriNegra.

De regresso a Aveiro, volta às salas de aula e exerce funções de assistente, professor auxiliar, professor associado e professor catedrático. Nesta fase muda um pouco a sua área de estudos, passando a dedicar-se mais à Química Inorgânica e de Materiais, criando uma semente que gerou o atual CICECO – Centro de Investigação de Materiais de Aveiro.

Em 1986 o professor opta por tirar um ano sabático, em Inglaterra, para onde parte com toda a família. “A minha mulher aproveita para tirar lá o Mestrado e os meus filhos iniciam um novo ciclo de estudos, por isso o choque não foi assim muito grande. Foi literalmente começar um novo ciclo em família”.

Com a esposa Helena

Dono de um currículo invejável, Júlio Pedrosa é convidado em 1987 para ser Vice-reitor da Universidade de Aveiro. “Fiquei hesitante mas aceitei, ainda que apenas por um mandato. Porém, quando era para sair, o meu substituto faleceu e eu acabei por fazer o segundo”. De vice-reitor passou a director do departamento de Química, sendo depois eleito Reitor, cargo que ocupou de 1994 a 2001, altura em que recebe o convite para assumir a missão de Ministro da Educação, com responsabilidades sobre o Ensino Superior.

“Lembro-me que recebi o telefonema antes de embarcar para o Brasil, para onde ia em trabalho, e por isso não dei logo resposta. Ainda no Brasil aceitei o desafio do Primeiro-ministro António Guterres. Embora nunca tenha tido nenhuma ligação formal à política partidária, acabei sempre por fazer um trabalho de interesse político. Era um momento complexo do Ministério da Educação, mas como já conhecia o Engenheiro Guterres e o seu projecto decidi então aceitar”. A família ficou por Aveiro e Pedrosa parte para Lisboa onde fica durante a semana.

A vida citadina nunca o assustou e é com humildade que fala do papel como Ministro. “Calhou-me um Governo que esteve em sintonia com o que quis fazer e por isso foi um desafio agradável, embora só tenha durado um ano, porque depois o Eng. Guterres resignou. Ter nascido na aldeia sempre me ajudou a vida toda. Principalmente educou-me para me dar com pessoas dos mais variados géneros, feitios e classes. Tanto falo com o Presidente da República como com o vizinho do fundo da rua e isso julgo que é uma mais-valia”.

Com o fim desta aventura, regressou a Aveiro às aulas e colaborações com fundações como a Bissaya Barreto e a Ilídio Pinho. Depois foi eleito no Parlamento para presidir ao Conselho Nacional de Educação em Julho de 2005, terminando o mandato em Junho de 2009.

Aposentado desde 2009, manteve, até 1 de Janeiro de 2017, a sua qualidade de investigador no CICECO, no âmbito do qual desenvolveu investigação e vários estudos académicos. Após cerca de 25 anos de investigação sobre Química Bioinorgânica e de Materiais, dos quais resultaram cerca de uma centena de publicações, os seus interesses têm-se centrado, nos últimos 20 anos, sobre Políticas e Governança da Educação, com especial interesse em modelos de governança, plataformas de cooperação Universidade-Sociedade, avaliação e qualidade na Educação.

Neste sentido, Júlio Pedrosa esteve envolvido, durante vários anos, nos Conselhos das Fundações Bissaya Barreto, em Coimbra, Ilídio de Pinho, no Porto e Jorge Alvares, em Lisboa, sendo Presidente do Conselho Fiscal da Fundação Bial, no Porto, por indicação do CRUP. De 2009 a 2012, foi membro do Conselho Geral da UTAD, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, sendo actualmente membro do Conselho de Curadores da Fundação Universidade de Aveiro, integrando o Conselho do ITQB, Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa desde 2009. Em 20 de Julho de 2017 foi eleito membro do Conselho Geral do Conselho Geral do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, assumido a Presidência, por eleição realizada em 8 de Setembro do mesmo ano.

Como se pode ver, a vida de aposentado não é propriamente mais calma para Júlio Pedrosa: “De facto, não é um dia-a-dia mais leve, simplesmente agora só aceito fazer aquilo que quero”. O seu tempo divide-se entre a família (a esposa, os dois filhos e os quatro netinhos), as investigações e estudos em que participa e a sua mais recente paixão: os vinhos.

No meio das vinhas da Quinta do Vinhago

“A minha esposa é de Armamar e os meus sogros tinham por lá algumas vinhas que nós decidimos aproveitar, replantando e beneficiando de algum tempo no campo”. Sendo da área da Química, fazer vinho acaba por ser colocar em prática um pouco dos seus conhecimentos e traz também memórias de infância: “O meu pai tinha vinhas aqui por Cadima e eu em pequeno já ajudava na vindima e na pisa da uva”. Agora cabe aos filhos ajudar nesta área, sempre com o precioso apoio do enólogo Paulo Teixeira. Depois, é o gosto que comanda na hora de aprimorar os sabores dos néctares da Quinta do Vinhago, que chegam aos mercados com o nome Vinhago e Poiesis.

“Actualmente já contamos com 10 hectares de vinho e produzimos cerca de 10 mil garrafas. Temos registos de exportações para a Suíça, Dinamarca e China e o objectivo é aumentar ainda mais a produção”, afirma. A juntar a esta ligação ao campo, há ainda uma forte ligação à praia que o viu crescer e que em breve a família Pedrosa quer voltar a frequentar.

“Passei muitos Verões na Praia da Tocha e em breve pretendo voltar, porque estou a recuperar a casa do meu pai. É um sítio que me traz muitas memórias e paz, e onde poderei recordar os muitos amigos que tenho aqui na zona, desde os tempos de miúdo”.

Para o futuro, o objectivo é “consolidar a frente dos vinhos” e manter-se activo no campo da educação, com projectos, conferências, palestras, entre tantas outras coisas. Quanto ao balanço de vida até agora, Júlio Pedrosa não podia ser um homem mais satisfeito e realizado: “Considero que aquilo que tem orientado a minha vida e que define a minha maneira de ser é o respeito que tenho pela dignidade humana e o facto de fazer da solidariedade o alimento da minha vida. Por isso, sou feliz”

 

Reconhecimentos

Ao longo da sua carreira, Júlio Pedrosa teve colaborações com entidades e universidade de vários países. Exemplo disso, foi a sua participação na avaliação da Agência Nacional de Avaliação, ANECA, em Madrid, no ano 2010, ou quando integrou o painel de avaliação externa do Royal College of Surgeons, de Dublin. No ano de 2014 foi convidado pela Agencia de Acreditação da Dinamarca a presidir ao painel de acreditação da Universidade de Tecnologias de Informação de Copenhaga e em 2013, integrou o painel de acreditação da Universidade Mykolas Romeris, na Lituania.  Já de 2009 a 2017 foi membro do Register Committee do EQAR – European Quality Assurance Register, nomeado pelos EUA.

Com uma carreira de sucesso reconhecido, Júlio Pedrosa foi atribuído com várias distinções, entre as quais a Grã-Cruz da Ordem de Instrução Pública, a Honnorary Fellow da Universidade de Cardiff, a Medalha de Mérito Internacional do Lions Clube, o Diploma de Reconhecimento de Mérito Profissional do Rotary Club de Aveiro ou a Medalha de Mérito Municipal do Município de Aveiro. Na 5ª edição da Gala Litoral Awards, que teve lugar a 11 de Novembro último, no Teatro Aveirense, foi-lhe atribuído o prémio “Carreira”.