Um caso raríssimo

Uma reportagem da TVI, transmitida há cerca de duas semanas, apontava para graves anomalias na “Raríssimas – Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras”.

E gravíssimas são as acusações dirigidas à Presidente daquela Associação. Embora ela beneficie da presunção de inocência até ser, eventualmente, condenada por um Tribunal, a verdade é que os documentos exibidos, os factos apontados e as declarações da própria – apontam para abusos imperdoáveis e nepotismo condenável.

Como a maior parte do País ficou a saber, a “Raríssimas” é uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), fundada em 2002, em Lisboa, por Paula Brito Costa, mãe de um rapaz que nasceu com uma doença rara e que acabaria por falecer.

Aquela associação define-se a si mesma da seguinte forma: “A Raríssimas é uma instituição sem fins lucrativos. Fundada em Abril de 2002, para apoiar todos os cidadãos portadores de doenças menos comuns e todos aqueles que com eles se correlacionam. Prestamos serviços diferenciados, de excelência técnica e científica, que permitem ao utente a melhoria significativa da sua qualidade de vida”. E a Associação diz ainda sobre si mesma: “Existimos porque existem cerca de 800 mil portugueses que precisam de nós e milhões de cidadãos pelo mundo fora que fazem do nosso know-how a sua bandeira”.

Uma leitura atenta desta última parte da justificação indicia logo alguma megalomania da fundadora da “Raríssimas”. Mas isso seria coisa menor, se não fosse o resto. A confirmarem-se os factos imputados à Presidente daquela Associação, ela deverá ser punida de forma exemplar.

Porque, para além do mais, não é só a “Raríssimas” que fica afectada por este escândalo. Todas as instituições de solidariedade social começaram já a ser olhadas com suspeição, quando a verdade é que a maior parte delas desenvolve um trabalho notável e é dirigida por pessoas que o fazem de forma abnegada e sacrificando a sua vida pessoal e profissional.

Permitam que, excepcionalmente, refira neste espaço o meu caso pessoal. Estou, há muitos anos, intimamente ligado a uma destas IPSS: a APPACDM de Coimbra (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental), de que sou Presidente da Mesa da Assembleia Geral. Uma Associação que apoia cerca de um milhar de cidadãos deficientes em vários Concelhos do Distrito de Coimbra (incluindo o de Cantanhede, através das instalações na Quinta da Fonte Quente, na Tocha). Eu e todos os outros membros dos Corpos Sociais, não recebemos (nunca recebemos!), um cêntimo que fosse pelo trabalho desenvolvido.

Os funcionários ganham apenas o que está tabelado para a função que cada um deles desempenha (e são mais de 200 funcionários). Esta Associação tem como Presidente uma professora universitária, Helena Albuquerque (Professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra), um exemplo de dedicação e de trabalho em prol dos outros.

Outro exemplo é a Giral Sol, a Associação de Desenvolvimento de Febres, proprietária deste jornal e que desenvolve uma intensa acção social – nomeadamente através de um Infantário modelar, da actividade física para seniores (para além de outras actividades, de que avulta o Atletismo e o magnífico Pavilhão Multiusos recentemente inaugurado). Também aqui, todos os elementos dos corpos sociais trabalham exclusivamente por altruísmo, sem qualquer remuneração.

No País existem milhares de IPSS, que desenvolvem um trabalho extraordinário, substituindo-se ao Estado e apoiando os mais desfavorecidos. Um trabalho que só é possível porque há muitas pessoas, muitas empresas, muitas organizações privadas, que apoiam as IPSS com os seus donativos.

A verdade é que esta caso da “Raríssimas” veio lançar um manto de desconfiança sobre todas as IPSS, havendo muitas delas que lhe estão já a sentir os efeitos negativos.

Por isso, importa que este caso seja rapidamente esclarecido e que sejam devidamente responsabilizados todos os que tenham cometido infracções. Estou firmemente convencido de que os abusos na “Raríssimas” são mesmo um caso muito raro. Mas é importante que todo o sector seja urgentemente investigado, para que ninguém fique com dúvidas!…

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *