Um caminho feito de opções

Nuno Miguel Pessoa Caldeira nasceu em Cantanhede, mas foi na Pocariça que viveu grande parte da sua vida. Tímido e reservado por natureza, acedeu ao convite do AuriNegra e contou-nos o seu percurso pessoal e profissional, feito de difíceis opções, como a saída do Seminário ou a decisão de ficar pela sua terra Natal, onde, durante 12 anos, foi Presidente da Junta de Freguesia.

Dos tempos de criança, o pocaricense refere que as memórias que prevalecem são aquelas que envolvem a relação com os outros.

“A minha infância foi um excelente ponto de partida para aquilo que me julgo ter tornado. Foram momentos muito gratificantes. Podíamos e brincávamos todos os dias na rua… As ruas eram o espaço predileto para o convívio. Com os meus amigos fiz algumas tropelias e vivi grandes aventuras”, recorda com um sorriso aberto, ainda que acanhado.

Nessas mesmas ruas, lembra, faziam-se brincadeiras comuns, como jogar à bola e ao berlinde. “Outro dos divertimentos que relembro com mais nostalgia é o jogo das caricas [as tampinhas metálicas das garrafas de cerveja e de refrigerantes], que entretanto caiu totalmente em desuso. No terreno da antiga escola primária da Pocariça construíamos as nossas próprias pistas e percursos e competíamos para ver quais as caricas mais rápidas”, conta-nos, enquanto mentalmente viaja até aos anos 80.

Quando o tempo permitia, “íamos ainda para a zona do Outeiro escorregar enfiados em caixas do peixe”, acrescenta, recordando que, nessa altura, a Pocariça era uma localidade bem diferente daquela que anos mais tarde veio a “conduzir”.

Embora o 5.º e o 6.º ano tenham sido feitos na actual E.B. 2, 3 de Cantanhede, no 7.º ano Nuno Caldeira tomou a decisão de ir para o Seminário Menor da Figueira da Foz.

“Os meus pais sempre me deram uma educação católica e, nessa época, erámos muitos os jovens envolvidos na religião. Para além de ter sido acólito durante vários anos, lembro-me principalmente dos domingos em que íamos todos a correr para a igreja, para ver quem chegava primeiro e tinha a oportunidade de dar o sinal, com o sino, da missa das 12h00”, lembra.

Nessa altura, o Padre Manuel Marques, que durante décadas esteve à frente da paróquia da Pocariça, acabou por ser o grande impulsionador da decisão de Nuno Caldeira em ir para o Seminário. “Todos tínhamos uma grande admiração pelo Padre Manel. Ele era um homem exemplar, com um coração gigante. Um, dia durante a missa, ele anunciou a abertura de um estágio no Seminário da Figueira da Foz e eu, como achei que seria interessante, concorri e acabei por entrar”.

Apesar de esclarecer que nessa altura ainda não tinha bem a noção do que significava estar num Seminário, terminado o estágio, Nuno Caldeira decidiu ingressar no ano lectivo seguinte.

Primeiro ficou no Seminário da Imaculada Conceição, na Figueira da Foz, durante quatro anos. Depois, passou para o Seminário Médio de Aveiro – Santa Joana Princesa – e, três anos mais tarde, para o Seminário Maior de Coimbra, onde esteve dois dos seis anos necessários para se tornar padre.

“Inicialmente ia pelo desafio da mudança e pela vontade de experimentar”; refere, acrescentando, no entanto, que, algum tempo depois, tomou consciência do caminho que estava a seguir: “Quando entrei no Seminário Maior já sabia aquilo que queria. Os meus pais apoiavam-me e percebiam a minha opção, assim como me apoiaram quando decidi sair”.

A saída do Seminário, refere, não foi, no entanto, por não ter gostado da experiência ou por sentir que não tinha vocação. “Na verdade, eu gostava muito da vivência de seminário e da ideia de ser padre”, refere, recordando alguns serviços que fez com grupos vicentinos na Diocese de Aveiro, em Ílhavo, e explicando-nos melhor as razões da importante decisão.

“Deixei o seminário porque a dado momento confrontei-me com a vontade de construir família”, partilha, acrescentando que a ajudar esteve também a atração que já sentia por aquela que viria a ser a sua esposa.

Confrontado com dois desejos que nunca se compatibilizariam, o jovem pocaricense viu-se “obrigado”, pela primeira vez, a tomar uma decisão que iria mudar o rumo da sua vida: “São opções que têm que se tomar. Por vezes temos que deixar algumas coisas para trás para concretizar outras que realmente queremos”.

Escolhas de vida

Com 21 anos, Nuno Caldeira principiava um novo caminho, fora das paredes do Seminário. “Nessa altura foi complicado. Tive que refazer o meu rumo pessoal e também académico”, partilha.

Embora o seu sonho fosse cursar Música, o pocaricense acabou por se inscrever no curso de Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de modo a não se afastar demasiado da área de estudos iniciada no seminário –Latim e Grego clássicos.

A viver em Coimbra, criou novos amigos e entrou para o Coral de Letras, onde deu asas à paixão pela música, descoberta ainda em criança na Banda Filarmónica da Pocariça e, mais tarde, também no coral do Seminário.

“A verdade é que sempre tive o bichinho da música, principalmente pela música sacra, cantada em grupo. Para além disso, esse mundo não era novidade para mim, pois desde 1986 que fazia parte da Filarmónica da Pocariça. Tocava fliscorne, um instrumento de sopro que já havia sido tocado na mesma banda pelo meu avô e por um tio: éramos três gerações a tocar o mesmo instrumento”, recorda.

Já no Coral de Letras, o pocaricense refere ter encontrado um verdadeiro clã: “Foi uma experiência muito enriquecedora a nível musical, mas também de convívio. Fiz lá grandes amizades”, afirma. Como estudante, Nuno Caldeira conta que era “muito aplicado. Participava nas festas académicas, até porque o Coral era sempre convidado, mas sempre com responsabilidade. Raramente faltava às aulas”.

Quando chegou a altura de fazer o estágio curricular, escolheu a Escola Secundária de Cantanhede. “Vim leccionar Português e Latim para Cantanhede. Apesar de durante os anos de Seminário e da Faculdade vir sempre que conseguia à Pocariça, esse momento acabou por ser um regresso à minha origem”. No fim do estágio, Nuno Caldeira voltou a tomar outra decisão que alterou a sua vida: “Apesar da vontade de ser professor e de ensinar, escolhi não concorrer aos concursos de colocação de docentes e fiquei por casa, para não me sujeitar a ser colocado bem longe, como acabou por acontecer com os meus companheiros de estágio”.

Algum tempo depois ganhou uma bolsa de investigação para transcrever e traduzir uma obra dos Padres de Coimbra em latim (versão latina da obra de Aristóteles “Acerca da Alma”). E era nisso que estava a trabalhar quando surgiu o convite para se candidatar à Junta de Freguesia da Pocariça.

“Foi o Dr. Jorge Catarino, na altura Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, que veio falar comigo, tentando convencer-me a candidatar-me. E eu decidi assumir o desafio”, refere.

Eleito em 2001, Nuno Caldeira acabou por ficar três mandatos (12 anos) à frente dos destinos da sua freguesia, saindo em 2013. Mas a sua experiência na política não ficou por aqui. “Na altura em que se deu a União das Freguesias, eu achei, num princípio de respeito e de lealdade, que deveria ajudar a fazer a ponte nessa transição e aceitei ficar como secretário do executivo da União das Freguesias de Cantanhede e Pocariça”.

Embora aponte alguns dissabores à vida política, o ex-autarca refere ter sido “sempre com prazer que servi os interesses da comunidade. Aquilo que me fascina na política é esta relação mais próxima, num meio mais popular”.

De adolescente-adulto (tinha 27 anos quando ganhou as primeiras eleições), Nuno Caldeira garante que passou a Homem. “Era muito jovem quando me candidatei e admito que possa ter cometido alguns erros. Com o tempo aprendi muito, nunca deixando de seguir a mesma máxima que sempre me acompanhou: contribuir para ajudar os outros e dar o melhor que tenho para dar. Enquanto presidente da Junta de Freguesia as pessoas sabiam que eu estava sempre disponível para as ouvir e para resolver os problemas que surgissem”.

Ainda assim o pocaricense refere que, tanto na vida pessoal como na política, não há só momentos bons, e é com alguma tristeza que diz “que, em alguns casos, houve feridas a ficarem abertas”. No entanto, é peremptório ao afirmar:

“Felizmente, julgo que posso olhar para trás e dizer que pude contribuir para algumas das mudanças que aconteceram na terra que me viu nascer. Proporcionar bem-estar às pessoas e melhorar, de algum modo, a vida delas é um fruto que quando se colhe e come é muito saboroso”.

Pela cultura

Um ano após ter sido eleito presidente da Junta de Freguesia da Pocariça, Nuno Caldeira candidatou-se a um cargo na Casa Municipal da Cultura de Cantanhede, onde foi aceite e continua até aos dias de hoje.

“Sou técnico superior na Divisão de Cultura e Desporto e trabalho essencialmente na organização e dinamização de eventos culturais, muitas das vezes em parceria com as diversas associações do concelho”, explica-nos. Mais uma vez, a profissão vai ao encontro daquilo que gosta: “Une a cultura, a música, a arte e as pessoas, na forma do associativismo. Mantém-se aquela parte de ‘dar aos outros’ que tanto me cativa”.

Para Nuno Caldeira, “a oportunidade que me foi dada é de excelência, principalmente quando estamos num concelho onde há tanta diversidade a nível do associativismo”.

Para além disso, diz-nos, na altura as estrelas parecem ter-se alinhado para o pocaricense. “A oportunidade que me foi dada de ficar à frente da Junta e o trabalho na Casa da Cultura foram a possibilidade de me fixar na Pocariça. Era um voltar àquilo que, na verdade, nunca deixei”, refere de sorriso rasgado.

Com a permanência a tempo inteiro na sua terra Natal, Nuno Caldeira passou a envolver-se em mais projectos. “Passei a estar à frente do Grupo Coral da Pocariça”, refere, justificando que esta foi a forma de “conciliar vontades e interesses” e “manter viva a minha estreita ligação à vida eclesial, neste caso numa perspectiva laica e relacionada com a música”.

Além disso, o ex-seminarista é ainda vice-presidente da Associação Musical da Pocariça, na qual, inclusive, se inspirou para a escrita da sua tese de Mestrado em Arte e Educação, defendida em 2014 na Universidade Aberta, intitulada “A Formação (Musical) no Movimento Associativo: Um estudo exploratório sobre a Associação Musical da Pocariça”.

Desde 2007, Nuno Caldeira é ainda o ensaiador da Tuna dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Cantanhede, que integra funcionários da Câmara mas também da Inova. “É um projecto que me dá muito gozo, principalmente porque somos voluntários e amadores, na medida em que, apesar de sermos interessados, alguns têm mais apetências que outros, mas dedicamo-nos de corpo e alma”.

Adepto de boa música mas acima de tudo de pessoas e de convívio, o mais recente projecto de Nuno Caldeira é a Meia-Tuna, um grupo de amigos e familiares que começou a tocar e trautear algumas músicas populares em festas de família e que agora pretende “subir” a outros palcos mais altos. “É uma brincadeira que prova como somos uma família unida que, acima de tudo, gosta de conviver em grupo”, reforça.

Para Nuno Caldeira a família é seu “clã” e apesar das mil e uma actividades e projectos em que se envolve, é nela que encontra a paz e a principal fonte de realização pessoal.

Quando há mais de uma década decidiu deixar o seminário, o pocaricense escolheu um caminho que hoje sabe que foi o mais indicado. Casar, em 2002, com Sandra – por quem se começou a apaixonar ainda nos tempos de seminarista – foi a confirmação disso mesmo. O nascimento das duas filhas – Marta, de 7 anos, e Maria, de 11 anos – veio reforçar ainda mais essa certeza.

“Claro que olhamos para trás e colocamos alguns ‘ses’. Ainda assim, não houve um momento sequer em que me arrependesse de sair do seminário, de abraçar este trabalho, e não ter seguido a docência, e de abraçar a causa pública como Presidente da Junta”, diz-nos.

Embora tenha passado por muitos papéis de responsabilidade na sua vida, aquele que continua a ser o mais importante, garante, é o de pai: “Ser pai é uma tarefa hercúlea, é algo que nos desinstala. Temos de abdicar de muito, mas é um papel tão exigente quanto gratificante. Um sorriso que as minhas filhas me dêem é algo enorme e faz-me ganhar logo o dia. É isso que é ser pai”.

Quanto aos valores que pretende passar, Nuno Caldeira mantém-se fiel à verdade – “É ela que nos rege” – e à generosidade. A educação católica é também algo que pretende que acompanhe as filhas, não só agora mas também no futuro.

“Julgo que são valores que elas têm vindo a assumir. Apesar de ainda serem pequenas noto que se preocupam com os outros”, refere. Quanto às ausências – exigidas pelas várias actividades e projectos que integra – o pocaricense refere que tanto a esposa como as filhas são compreensivas: “Envolver-me nas coisas e com a comunidade faz parte daquilo que sou e elas entendem e apoiam-me”.

Para Nuno Caldeira, “cada vez mais, as pessoas vão perdendo aquele desejo de ir para a rua e isso traz desvantagens. Fechamo-nos muito em casa e lidamos cada vez menos com os outros, resultando numa falta de diálogo e de entendimento”.

“Eu tento combater isso mesmo. Tenho a sorte de ter uma família que pensa da mesma forma, o que é uma grande ajuda, claro”, afiança, confessando-nos qual o seu sonho:

“Um dia gostava de ver uma comunidade sem grandes quezílias e onde reinasse a amizade, a confiança, a harmonia… É um sonho ingénuo, admito, mas acho que a concretização começa numa comunidade mais pequena: a família”.

Enquanto o sonho não se concretiza, Nuno Caldeira vai fazendo a sua parte, através da cultura, da música, da política e da própria forma de estar no dia-a-dia: “Para mim, estar bem, passa por estar bem com os outros”.