Trancas na porta, mas antes do assalto…

Há uns anos registou-se uma vaga de assaltos a casas solarengas em diversos pontos do País.  As investigações policiais revelaram que a generalidade desses assaltos mostrava um modus operandi semelhante, para além de haver características comuns entre a maior parte das casas assaltadas.

Assim, os assaltantes mostravam ter um perfeito conhecimento dos locais e do respectivo recheio: actuavam na ausência dos proprietários e quase sempre retiravam apenas as peças mais valiosas, que pareciam já ter previamente identificadas, pois não deixavam o rasto de confusão habitual quando revolvem os locais em busca de valores.

Mas os investigadores rapidamente chegaram a uma outra conclusão: quase todas as casas assaltadas tinham sido antes tema de detalhadas reportagens em revistas de life style. Estava, pois, esclarecido o mistério: aos assaltantes bastava comprarem as ditas revistas para seleccionarem os alvos e definirem os métodos. Porque estava tudo lá: nos textos, os hábitos dos proprietários; nas fotografias, a localização das mais valiosas obras de arte e até o detalhe das principais divisões e dos respectivos acessos.

Ou seja, as vítimas dos assaltos eram igualmente vítimas de si próprias, de uma vaidade que as levava a franquear ao Mundo a intimidade das suas casas e dos seus hábitos. Esta vaga de assaltos veio-me agora à memória a propósito do recente escândalo protagonizado pelo Facebook.

Para os menos atentos às notícias dos últimos dias, aqui fica a síntese dos factos: um antigo funcionário da empresa Cambridge Analytica veio denunciar que esta tivera acesso aos dados pessoais de 50 milhões de utilizadores do Facebook – dados esses que a rede social obtivera através de uma aplicação, aparentemente inocente, que oferecia aos utilizadores previsões do futuro, mediante as respostas a uma espécie de teste de personalidade. Só que esse teste era, de facto, um verdadeiro questionário onde cada pessoa revelava os mais variados aspectos das suas convicções e até da sua personalidade.

Com base nesse conhecimento ilegítimo, a Cambridge Analytica, a troco de muitos milhões (de dólares, de libras, de euros…) utilizou esses dados para influenciar os cidadãos incautos em coisas tão relevantes como as eleições nos Estados Unidos e o referendo sobre a União Europeia no Reino Unido. Ou seja, parece estar provado que foi essa utilização abusiva que terá conseguido levar à surpreendente eleição de Donald Trump como Presidente norte-americano, bem como à inesperada vitória do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) no referendo.

É evidente que aqui, para além da atitude criminosamente abusiva da Cambridge Analytica, também há um inaceitável deslize do Facebook, ao facultar a terceiros os dados pessoais dos seus utilizadores. Mas a questão essencial está nos próprios utilizadores e na forma como se relacionam com esta e outras redes sociais. As pessoas desnudam-se, no
sentido próprio e no figurado.

Através de fotografias – as de si próprias, das suas casas, dos seus familiares e amigos; mas, sobretudo, através dos seus comentários, em que vão assumindo ou dando a conhecer as suas preferências, as suas convicções ideológicas, políticas, religiosas, os seus amores e os seus ódios. E fazem -no, quase sempre, sem qualquer cuidado, esquecendo que tudo isso fica à disposição de quem pode dar a esses dados uma utilização indesejável.

Nunca, como hoje, a máxima “Informação é Poder” foi tão verdadeira. Por isso, quem não quer ser vítima de si próprio (como os donos das casas assaltadas que acima cito), deverá ser mais recatado nas redes sociais, não partilhando informações que nunca deveriam sair da sua esfera íntima. O alerta aqui fica, uma vez mais.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)