Tradições de São Martinho perdidas

Na feira de Portomar, no concelho de Mira, o dia 11 de Novembro é Dia de São Martinho e de castanhas, mas também é dia de “dar” à colher. Ou, pelo menos, assim o era até há alguns anos.

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Arcindo Návega é feirante há mais de 35 anos

A tradição é antiga e, embora hoje esteja cada vez mais em desuso, ainda há quem se recorde de quando, neste dia, o recinto desta feira se enchia de jovens, de colheres de pau em riste, à procura de donzelas indefesas, para lhes pregar uma colherada no traseiro.

Actualmente as coisas mudaram, explica Arcindo Návega, natural do concelho de Cantanhede e feirante há mais de 35 anos: “Há cerca de três décadas esta tradição estava muito viva. Vendiam-se muitas colheres de pau neste dia. Hoje ,vendi meia dúzia delas e a pessoas mais velhas”.

O feirante recorda esses tempos com alguma nostalgia: “Era engraçado ver a feira cheia de jovens, atrás das raparigas para lhes dar uma colherada”. Ainda assim, a coisa nem sempre corria bem, como nos conta: “Alguns batiam com força a mais. A minha mulher, um dia, partiu os óculos, com uma bofetada, a um rapaz que ela nem conhecia e que lhe deu uma valente colherada”, conta-nos, divertido, enquanto a esposa, também feirante, acena com a cabeça, confirmando a história.

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João de Almeida e Maria dos Anjos

Quem também se recorda destes episódios é João de Almeida, que encontrámos pela feira de Portomar na companhia da esposa Maria dos Anjos. Nos dias que correm, o octogenário de Cabeças Verdes (Seixo) já não cumpre a tradição e as colheres de pau já só servem para cozinhar. Mas em tempos, a história foi outra. “Antes de casar vinha todos os anos à feira com a colher. Elas passavam e eu pimba”, diz, alegremente, sob o olhar atento da esposa, que replica: “A mim nunca me deu ele com a colher de pau”.

João de Almeida explica, entre risos, que isso foi nos tempos de solteiro, “em que namorava sete raparigas por domingo” e em que “escolhia as mais ‘jeitosinhas’ para lhes bater com a colher”. Uma brincadeira comum para a altura mas que não convencia Maria dos Anjos. “Eu tinha medo e até evitava vir à feira neste dia. Ou se vinha nunca saía do lado da minha mãe. É que alguns batiam com muita força e magoavam a sério”.

Ao lado, o marido diz “que havia muitas que achavam divertido e que vinham à feira só para levar uma colherada. “Eram coisas engraçadas que, com muita pena minha, entretanto deixaram de acontecer”, frisa.

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Carlos Cunha todos os anos cumpre a tradição

Com efeito, durante a manhã foram dezenas as pessoas que vimos de volta dos vendedores de castanhas mas nenhuma na procura das colheres de pau. A tradição foi-se perdendo, como nos dizem os feirantes. Mas já a sair do recinto encontrámos Carlos Cunha, literalmente a meio de uma “colherada”.

Natural de Mira, Carlos Cunha, de 59 anos, diz que desde os tempos de menino que todos os anos vem à feira de Portomar no dia de São Martinho para cumprir a tradição. Por casa já tem várias dezenas de colheres de pau, algumas personalizadas e outras especiais, como a “de dia 11 do mês 11 de 2011”.

“Não falho um ano, porque é uma tradição que acho piada e que considero que se deve manter”, defende, enquanto se prepara para continuar na sua missão de dar mais uma quantas “colheradas”.

 

Autora: Carolina Leitão