Trabalho e humildade numa história de Reis

Esta é uma história de Reis. Uma história verídica e variada. Onde se fala das gentes da Gândara, das más condições de vida nas aldeias, das mortes prematuras por falta de condições sanitárias, da deficiente escolaridade, do trabalho infantil. Mas também da vinda dos galegos para comerciar em Portugal e da emigração clandestina de portugueses para França. Até se aborda a capacidade do Sporting para conquistar miúdos! E ainda se trata da Guerra Colonial, dos empréstimos (os bancários e os outros) susceptíveis de mudar rumos de vida. E do espírito de iniciativa, da honestidade, da capacidade de trabalho, da humildade, da simpatia e da confiança. Para além das coincidências e dos acasos que podem ditar o futuro…

O mais famoso restaurante de Coimbra chama-se “O Cantinho dos Reis”. Uma designação que tem um duplo sentido: a qualidade da cozinha é digna da realeza e o dono da casa chama-se Reis.

Zé Reis com um macaquito

José Reis – ou, para ser rigoroso, Zé Reis –, uma das mais conhecidas figuras de Coimbra, é um homem da Gândara e afirma ter muito orgulho nisso.

Nasceu em Portunhos (Cantanhede), terra da sua Mãe, em 1944. O registo diz que foi em 23 de Setembro, mas na realidade deve ter sido em 23 de Junho e só veio a ser registado três meses mais tarde. E isto porque a Mãe sofreu graves complicações no pós-parto, decorrentes das más condições sanitárias da época, vindo a falecer 2 meses depois.

O Pai (camponês, barbeiro e pedreiro) era de uma terra vizinha, Vale de Água, e foi para aí, para casa de uma irmã, que levou o bebé. Assim, foi a tia Madalena que o criou, fazendo jus a que ele a tratasse por Mãe.

Porém, uma vez mais o infortúnio espreitava o pequenote: quando ele tinha apenas 6 anos, também esta tia morreu, vitimada por uma pneumonia.

O Zé foi então acolhido pelos Avós (o Avô Reis e a Avó Antónia), com os quais viveu algum tempo. Entretanto, o Pai volta a casar com uma senhora chamada Belmira (que tem actualmente 93 anos e vive em Portunhos) que o acolhe como a um filho e que ele passa a tratar por Madrinha. Desse casamento nascem quatro irmãs, de quem Zé Reis muito gosta.

O pai emigra, “a salto”, para França, para a construção civil e é a Madrinha que obriga Zé a fazer a 4.ª classe.

Quando concluiu essa etapa, Zé Reis tinha 12 anos e o Pai decide comprar um rebanho de cabras e ovelhas para ele guardar. Mas o gaiato não quer passar o resto da vida como pastor e começa a pensar no futuro.

A Vale de Água costumava ir comprar vinho um espanhol, o sr. Perez, para vender na tasca que tinha em Coimbra. O pequeno Zé viu nele a porta de saída para o Mundo e pediu-lhe que o levasse para Coimbra – ao que ele acedeu, se o pai autorizasse. Mas o Pai não estava para aí virado, pelo que o pequeno foi ter com o tio e padrinho, sarreiro (que retirava o sarro das pipas), com o nome igual ao seu, que disse ao miúdo para ir com o sr. Perez, pois ele ia interceder para a autorização paterna. Assim, o Zézito lá se meteu entre as pipas, na caixa aberta da camioneta do galego, rumo a Coimbra. A viagem ia sendo curta e definitiva, pois numa subida as pipas desandaram, entalando o corpo franzino. Valeu que logo depois a estrada descia e as pipas o libertaram, quando ele já temia que a morte o esmagasse logo ali, à saída da aldeia, a castigar a demanda de vida nova.

Com algumas fotos de Cabinda

Uma vida que começou na tasca do Perez, no Terreiro da Erva (local que lhe iria ditar o futuro) a servir copos de vinho, a aprender uns petiscos com a cozinheira e a ajudar a trazer as compras do mercado. Ali esteve 2 anos e ainda se lembra de alguns dos clientes da época – como o sr. António Teixeira, Presidente da Fapricela, que então era empregado das Construções Ciferro.

Na época, havia mais espanhóis da Galiza estabelecidos em Coimbra – como magistralmente retrata Fernando Assis Pacheco, neto de um deles, no seu livro “Trabalhos e Paixões de Benito Prada”. Pois Benito era também o nome de um primo galego do Peres, que tinha um restaurante montado ali mesmo ao lado: a “Cova Funda”, com acesso pelo Beco do Fanado e pela Rua da Sofia.

Benito apercebeu-se da esperteza de Zé Reis quando ia às compras ao mercado e toca de aliciar o rapazola: ofereceu-lhe um salário de 300 escudos por mês. Oferta irrecusável para quem ganhava apenas 75 escudos mensais, pelo que Zé Reis lá mudou de poiso.

Entretanto, em 1961 rebentara a Guerra Colonial, com Salazar a decidir: “Para Angola, rapidamente e em força!”. Cinco anos depois, Zé Reis é um dos muitos milhares de rapazes chamados ao cumprimento do serviço militar obrigatório e em Maio de 1966 desembarca no enclave de Cabinda, como atirador numa Companhia de Infantaria.

Nos tempos de África, a servir copos

Poucos dias depois, e após uma saída em patrulha no mato, estando com fome, vai ter com o cabo cozinheiro Aníbal que lhe diz para ele “se desenrascar na cozinha”. E Zé Reis lá prepara um petisco que surpreendeu o cabo (que hoje é proprietário do restaurante “Flor dos Jerónimos”, em Lisboa, e que Zé Reis considera um irmão). Algum tempo depois um outro cozinheiro adoece, é evacuado e chamam Zé Reis para o substituir. Bacalhau à Gomes de Sá foi o pitéu confeccionado pelo estreante, com tanto êxito que ganhou o lugar, tendo até inventado uma geringonça, com uma peça de Unimog, para grelhar a carne para o comandante da companhia, tenente Veloso e Matos.

A arte de Zé Reis nos petiscos valeu-lhe vir a ser promovido a cozinheiro da messe de oficiais, conquistando o lugar do camarada Ramos (actualmente dono do restaurante Fartazana, no Ribatejo).

Mas a carreira como cozinheiro durou pouco, pois caiu doente. Evacuado de helicóptero para o Hospital de Cabinda, aí foi observado por dois médicos militares madeirenses, que pensaram que ele estivesse condenado, com tuberculose. Após exames, contudo, verificaram que era reumatismo articular agudo, pelo que lhe disseram que iam curá-lo. A verdade é que o soldado Reis já não saiu de Cabinda. Convalescente, mas farto de não fazer nada, foi pedir trabalho a um conhecido restaurante, chamado 007. Os donos (os Moreiras, de Seia) exploravam também um cinema e tanto gostaram de Zé Reis que o puseram a servir à mesa no restaurante e à noite também como porteiro no cinema. Recebia, por esse trabalho, 3 contos por mês (o equivalente hoje a 15 euros, mas que na altura era um grande ordenado).

Em Maio de 1968 regressa a Portugal com o seu Batalhão, mas com a ideia de regressar a Cabinda, pois os donos do 007 ofereciam-lhe o emprego e a passagem de avião.

A verdade é que Benito, o dono da “Cova Funda”, não quer voltar a ficar sem ele e oferece-lhe sociedade. Zé Reis aceita e compra 50% do restaurante: “Todo o dinheiro que ganhei em Angola foi assim enterrado na Cova Funda” – diz-nos, com alguma tristeza, que mais à frente se entenderá.

Entretanto nunca esquecera uma bonita rapariga de Vale de Água, sua colega da escola primária, Maria do Carmo de seu nome. E embora ela já namorasse com outro, Zé Reis vai a um baile e lá consegue convencê-la a aceitar namoro. Viriam a casar em Fevereiro de 1971 e Maria do Carmo veio trabalhar com o marido para a Cova Funda, tornando-se numa excelente cozinheira, com as iguarias confecionadas num velho fogão a lenha.

Na Galeria dos clientes já falecidos

“Vivíamos com dificuldades, morando num quarto no Pátio de São Bernardo”. Em 1973 nasce a primeira filha, Anabela. Sete anos depois nasce a segunda filha, Virgínia (assim chamada em homenagem à Avó paterna). Zé Reis quer assegurar melhores condições de habitação para a família. Com o seu espírito empreendedor, e com dinheiro que pediu emprestado ao sócio Benito, fez umas garagens junto à cave que arrendara na Rua Nicolau Chanterenne, com um logradouro que antes era uma lixeira, criando uma habitação confortável, onde ainda hoje reside.

Zé Reis sempre prezou muito a companhia da Família e dos Amigos, e fazia questão de os reunir na sua casa de Vale de Água, nomeadamente no Natal. Benito, o sócio, não participava, pois sempre passava essa quadra na Galiza.

Contudo, ao saber de um desses encontros na Gândara, comentou com um amigo: “Então o Zé Reis deve-me dinheiro e põe-se a fazer festas!”. O infeliz comentário chegou aos ouvidos de Zé Reis, que nesse momento decidiu: “Basta!”.

“Fiquei muito triste com isto, pois achei que era ingratidão para mim e para a minha Mulher, que havíamos dedicado a nossa vida à Cova Funda. O sr. Serra, gerente do Banco Fonsecas & Burnay, vendo-me assim, quis saber o que se passava, logo se disponibilizando para me fazer o empréstimo dos 3 mil contos que eu devia ao Benito. Paguei-lhe e vim-me embora”.

Ali mesmo ao lado, num canto do Terreiro da Erva, havia um armazém de bananas, cujo proprietário, Augusto Marques Fernandes (já falecido), disse a Zé Reis que o arrendasse: “Encontrou-me na Feira dos 23, tirou do bolso umas notas, e disse-me: ‘Tens aqui o dinheiro para me pagares três meses de renda, que é para a minha Mulher não me aborrecer’”.

Zé Reis arrendou o espaço (posteriormente viria a comprá-lo) e transformou-o num restaurante à sua maneira: “Não esqueço nunca que contei com o apoio de dois bons Amigos, ambos já falecidos: o sr. Martins, da Marguil, e o Dr. Figueiredo, da Farmácia Figueiredo, que foram meus fiadores. E também não esqueço as palavras de apoio que então recebi do Presidente da Câmara, dr. Manuel Machado. Foi assim que, aos 50 anos, em 1994, parti para uma nova aventura, abrindo O Cantinho dos Reis!”.

Uma aventura que, como ele próprio faz questão de sublinhar, tem sido um êxito porque conta com o apoio da Família, sobretudo da D. Maria do Carmo, do genro Sérgio (que com ele trabalha há quase 30 anos), da filha Gina e, mais recentemente, do genro Márcio. Mas também, como Zé Reis afirma, dos Colaboradores que o têm acompanhado ao longo destes anos.

“O Cantinho dos Reis” é o mais famoso restaurante de Coimbra, por ele tendo passado, ao longo destes 25 anos, as mais destacadas figuras públicas nacionais, desde os políticos (Presidentes da República, Primeiros Ministros, líderes dos partidos, da esquerda à direita), até artistas, escritores e desportistas, mas também anónimos e gente modesta, que ali é acolhida com a mesma atenção.

Os clientes são amigos e a maios parte não pede a lista, limita-se a perguntar o que é que lhe vão servir. Zé Reis aposta na qualidade e tem 3 bons cozinheiros ao seu serviço: Jorge (o chefe), Lino e João, bem como uma competente equipa de sala.

A caminho dos 75 anos de idade, Zé Reis continua com espírito empreendedor. Ainda há pouco recusou a oferta de um milhão e meio de euros por quele espaço. Em vez disso, adquiriu uma antiga taberna (Mija Gato) que fica ao lado, na Rua do Carmo, para onde tem um projecto aprovado para albergar mais 200 pessoas, esperando apoios para o concretizar.

Zé Reis ao fogão

Qual é o segredo do seu êxito, sr. Zé Reis?

“Trabalho e humildade! Boa relação com as pessoas! Bons colaboradores”.

Uma receita muito saborosa, elaborada dia a dia, há mais de 60 anos, por quem tem paixão pelo que faz!

 

Do Sporting por gratidão

Zé Reis era um dos 13 miúdos que frequentavam a Escola Primária de Vale de Água e adoravam jogar futebol. Resolveram escrever cartas para o Benfica, o Sporting e o Porto a pedir equipamentos. Dois dos “3 grandes” não deram resposta. Mas o Sporting respondey, com o dirigente Abraão Sorin a comunicar que o seu clube enviara, por via férrea, três sacos com equipamento para a miudagem. Claro que no dia marcado para a chegada do comboio, os pequenos craques de Vale de Água foram em romagem até à Estação esperar a encomenda vinda de Alvalade. E que extraordinária alegria ao verem os equipamentos de cor verde e branca a sair dos sacos! Pela vida fora, e até hoje, Zé Reis e os seus colegas (quase todos emigrados por esse Mundo fora) continuam a ser gratos “leões”!

Autor: Jorge Castilho