Tempos novos

Por mais que haja quem tente, por motivações diversas, negar que vivemos tempos novos, nomeadamente no campo da política, a sequência de acontecimentos recentes aí está a demonstrar, de forma inequívoca, que essa é uma realidade.

Sobre as eleições legislativas, já aqui se falou na anterior edição, sublinhando o facto inédito de termos, em quase 42 anos de Democracia, um Governo constituído pelo segundo partido mais votado (o PS), graças ao apoio parlamentar dos partidos de esquerda (Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes).

Pois ainda se não tinham dissipado os clamores suscitados por esta novidade, e eis que logo surgem vários outros acontecimentos inéditos, no âmbito das eleições para a Presidência da República, a justificar atenção.

Desde logo a esmagadora vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma vitória pré-anunciada por todas as sondagens, mas que assumiu, logo à primeira volta, uma invulgar expressão numérica (52%) – o segundo mais votado, Sampaio da Nóvoa, quedou-se por menos de metade (cerca de 23%).

Um resultado tanto mais significativo, quanto é certo que a campanha de Marcelo Rebelo de Sousa foi absolutamente inédita, minimalista, sem o apoio de máquinas partidárias. Aliás, foi o próprio Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que não surgissem a seu lado figuras destacadas dos partidos que o apoiavam, nomeadamente PSD e CDS.

Estas foram as eleições presidenciais com mais candidatos (uma dezena) e com maior número de debates e entrevistas. Acresce que todos os debates dos candidatos foram objecto de muitos outros debates entre variadíssimos comentadores nos diversos canais de televisão – o que se saldou por muitas dezenas (quiçá centenas!…) de opiniões nos “media”. Tantas que choviam os desabafos de quem já não aguentava aquele continuado “dilúvio opinativo”!…

Num balanço superficial, será de registar: a folgada e tranquila vitória de Marcelo; o humilhante desaire de Maria de Belém (4,4%), a rivalizar com o do candidato do PCP, Edgar Silva (3,95%); o expressivo resultado que Maria Matias conquistou (em terceiro lugar, 10,13%); e o surpreendente sexto lugar alcançado por Vitorino Silva (3,28%).

Mais conhecido como “Tino de Rans”, o calceteiro de profissão conseguiu cativar o voto de 152 mil portugueses, seguramente pela sua genuína simplicidade e espontaneidade na campanha, alegre mas austera, e, sobretudo, na sua participação nos debates.

Uma referência também para os outros candidatos menos conhecidos que ousaram concorrer, embora soubessem, à partida, que não tinham qualquer hipótese de vitória. Deles me permito destacar Cândido Ferreira, por ser um homem de Febres. Meu condiscípulo no Liceu D. João III, em Coimbra, viria a tornar-se num médico muito reputado na sua especialidade, para além de um extraordinário colecionador, com destaque para obras de arte muito valiosas que vai doar ao Município de Cantanhede para a criação de um Museu. Muitos comentaram que bem podia limitar-se a bem gozar a vida com os rendimentos proporcionados pelo seu êxito profissional (sublinho que, de acordo com as declarações de rendimentos obrigatoriamente apresentadas por todos os candidatos, ele é o que assume mais valioso património). Mas com o inconformismo que o caracteriza, Cândido Ferreira decidiu ir à luta, manifestando as suas opiniões com a liberdade que sempre defendeu – e de que é exemplo o abandono do primeiro debate televisivo.

Outra nota importa aqui registar: o discurso de vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Um discurso nada triunfalista, antes muito conciliador, invocando que “o povo é quem mais ordena” e sublinhando que não havia vencidos.

A contrastar com o discurso de vitória feito por Cavaco Silva há 5 anos, e a demonstrar que, efectivamente, se vivem tempos novos!

 

******

UMA NOTA TRISTE:

A morte do Dr. António Almeida Santos provocou natural consternação em todo o País. Devo aqui registar que, para além de tudo quanto já foi dito, dos muitos e justos elogios que lhe foram feitos por personalidades de todos os quadrantes, o Dr. Almeida Santos era também um Amigo de Febres, terra que visitava regularmente, a convite do Eng.º Vítor Catarino, nos últimos anos para um convívio onde se evocava a memória de um outro Amigo de Febres, o Dr. Fausto Correia. Curvamo-nos perante a memória daquele que foi, unanimemente, um dos mais prestigiados e mais influentes vultos da nossa Democracia, que a todos lega um extraordinário exemplo de humanismo, de solidariedade, de coragem, de dignidade.