“Sucateiros”

Ouço os responsáveis deste país. Por vezes fico de boca aberta com as soluções apresentadas para muitos dos problemas que afligem o interior, cada vez mais vasto, cada vez mais pobre e cada vez mais desertificado. Talvez sejam pessoas de boa vontade mas devem sofrer de alguma forma de ignorância que pode perturbar os interessados. Não sei bem como funcionam os seus cérebros e quais as suas vivências, mas não ponho em causa as suas capacidades, habilitações e boa vontade.

Conheço bem, digo sem qualquer pretensão, o interior do país. Ando por todos os sítios, mesmo os mais remotos, às vezes sou tão descarado que nem sei como o meu automóvel aguenta, mas isso é problema meu. O grau de desertificação é tremendo, a pobreza cresce de dia para dia e o envelhecimento é atroz. Como fazer face aos desafios que os “pensadores” dos gabinetes ministeriais querem impor, inverter ou modificar? Pouco ou quase nada. Casas velhas e algumas ruínas “construídas” de raiz estão à venda. À venda? Mas quem é que as vai comprar? Para quê? Quem quer vir para estas bandas? Fogem quase todos. Mesmos as construções mais recentes, dispendiosas, estão fechadas, até neste período, já que os seus donos devem ser emigrantes. Muitos já nem vêm, pelos vistos. Quanto às casas degradadas são aos milhares, sem solução, desde as mais humildes até muitas de um passado glorioso e mesmo faustoso. Querem reflorestar o país? Parece que sim. Também já falta pouco para queimar o que ainda falta. Apontam falhas à prevenção e à limpeza das matas e florestas. Mas quem é que as vai limpar? E quanto custa? Quem tem dinheiro? Olho para as bermas da estrada e vejo pessoas a moverem-se lentamente, uns agarrados a uma bengala ou a uma enxada ligeira, a velhota com sinais evidentes de artrose da anca a transportar meia dúzia de ramagens para o inverno, o pastor aflito para agrupar o pequeno rebanho, não fosse a agilidade do cão e lá ficaria em maus lençóis para encarreirar a cabra destravada. Paro no meio das aldeias e meto conversa com as pessoas. Pagam-me a atenção com belos sorrisos e cinco dedos de conversa. Se há algo que ainda não falta no interior são belas e delicadas conversas, como a que tive há dias com a Mabília. Uma senhora que vive dos bordados que faz. Ourivesaria da mais delicada e pura que conheço, os bordados de Tibaldinho. Enfiei o carro propositadamente na estreita rua correndo riscos, como é óbvio. Vi que estava sentada nas escadas de pedra. Parei o carro, abri a janela e meti-me com a senhora. Ficou feliz. Explicou-me o tempo que demorava fazer aquela obra. Muitas horas e muitos dias. Descreveu-nos com cuidado a forma de fazer. Sempre a sorrir. Comentou que estava tudo a morrer. – Não há gente, ninguém passa por aqui, ninguém compra nada, não há dinheiro, mas temos de fazer alguma coisa, não acha? – Acho, pois. Sabe uma coisa? Há dois anos estive aqui e comprámos-lhe um bordado. – Foi? Ficou um pouco atrapalhada. – Eu não me recordo! Desculpe, deve ser da idade. – Não faz mal. Eu lembro-me muito bem. Sorriu timidamente. – Olhe, um dia destes vamos passar novamente por aqui para comprar um novo bordado. O outro é muito lindo e está numa mesa. – Ai sim? Gostam mesmo? – Gostamos, pois. Já agora diga-me o seu nome, porque da outra vez não lhe perguntei a sua graça. – Chamo-me Mabília. – Muito bem Mabília, até um dia destes. Continue a trabalhar. Faz coisas muito lindas. – Obrigada. São tão simpáticos.

A terra era idêntica a muitas outras, velha, descuidada, pobre, cheia de “sucatas”, com meia dúzia de pessoas, alguns gatos e poucos cães. Uma imagem que consigo multiplicar pelas centenas e centenas de localidades do interior de um país chamado Portugal governado soberanamente a partir de uma cidade desconhecida, chamada Lisboa, onde vegetam intelectuais e políticos que deveriam, obrigatoriamente, viver e conhecer a realidade de um país que mais parece ser um enorme armazém de sucateiros.