Social-democrata sempre?

“Apesar das aparências democráticas, o povo não controla os seus governos; um pequeno grupo tomou conta da administração das grandes sociedades financeiras; estes indivíduos têm nas mãos (…) todo o controlo económico do país, (…). Eles dominam o Parlamento e têm ao seu serviço toda a imprensa. A miséria e a guerra não lhes metem medo – pelo contrário, eles fomentam-na, pois é graças a elas que fazem as grandes fortunas.” – Contrariamente ao que se possa pensar, estas palavras não são de hoje, mas de um economista francês… em 1911(!)… e o recente congresso do PSD mais não fez do que dar-lhes toda a atualidade.

Durante ele, os portugueses ouviram uma plêiade de comentadores a questionarem-se sobre que mosca teria mordido Passos Coelho para se reclamar da “social-democracia sempre”, ele que governou em obediência aos mais radicais princípios liberais. E, nas bases do partido como no país em geral, pouca gente parecia perceber o debate por não dominar o sentido destas definições.

Contudo, ele é simples: a social-democracia (representada pelos partidos sociais-democratas e socialistas) assenta em políticas de justiça social e económica; pelo contrário, os partidos liberais defendem os interesses dos capitalistas, não se preocupando com a justiça social – e apenas se disfarçam de partidos social-democratas para terem mais hipóteses de chegarem ao governo.

A origem desta diferença é assaz curiosa. Em 1791, o povo francês, esfomeado, exigia que o governo fixasse o preço máximo do pão – ideia que foi rejeitada com os mesmos argumentos que os liberais nos repetem ainda hoje: o Estado não deve intervir na economia mas deixá-la funcionar sozinha; os privados podem gerar os lucros que entenderem; o que eles não querem é que o Estado se meta nos seus assuntos. Contudo, os mesmos privados que não querem que o Estado lhes controle o que quer que seja, estão sempre a reclamar benesses do Estado, solicitando subsídios, concessões e outras formas de ajuda e regalias… Consequência: os governos que dizem estar de mãos atadas para tomar medidas em favor do povo, todos eles são mãos-largas para dar dinheiro aos homens do dinheiro…

Lamartine, famoso poeta e político, teorizava a liberdade económica liberal como “a liberdade de os ricos enriquecerem sem limites e a liberdade de os pobres morrerem de fome”. Por seu lado, o Duque de Breuil, um dos principais dirigentes liberais, dizia que só acreditava em governos constituídos por ricos e por defensores de ricos, que estivessem ao serviço das “pessoas honestas”, ou seja deles próprios, pois, como é sabido, os pobres não podem ser “pessoas honestas”.

No seu mundo de contradições, com receio de que a Revolução Francesa desse ao povo algum poder, os liberais eram simultaneamente contra a “Revolução” e contra a “reação”. Ou seja: pretendiam manter tudo como estava, para que os muito ricos não perdessem regalias.

Thiers, então presidente da República, afirmava que todos aqueles que não defendiam os ricos eram “facciosos”. E considerava que a mania que o povo tinha de pedir aos ricos um salário em paga do trabalho era uma “epidemia moral” com a qual era preciso acabar. Os pobres deveriam saber alimentar-se só da honra de os ricos lhes permitirem que trabalhassem para eles… à borla.

A situação presente mostra-nos como, em duzentos e trinta anos, nada mudou. As falências de bancos, as PPP, as Swaps, as rendas de energia e outros retortos estratagemas mostram que os ricos, à sombra dos governantes de ideologia liberal, embolsam biliões em lucros, contratos fraudulentos e roubos, certos de que nunca irão para a cadeia. Estes rombos nas contas do país, sacando biliões aos contribuintes, são sempre manhosamente disfarçados na afirmação que a dívida do Estado é culpa dos funcionários públicos e dos reformados, que são muitos e demasiadamente bem pagos. E eis assim que os pobres devem sentir-se culpados das consequências da desonestidade dos ricos!

Social-democratas – que lutam pela justiça social – ou liberais – que retiram o dinheiro ao povo para o dar aos grandes capitalistas – essas “pessoas honestas” que vivem principescamente à custa de negociatas, trapaças, fulharias e outros embustes que todos nós pagamos?

Quando o povo entender estes debates e não aceitar mais disfarces…

One thought on “Social-democrata sempre?

  • 18 Maio, 2016 at 2:47
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    Mas quem será este senhor que escreve tão bem quanto fala?
    Eu conheço. Pois é, amigo prof. Cidalino, se assim era há duzentos e trinta anos, é bem a prova que a politica e os politicos, ou alguns, nada evoluiram. Porque não sabem ou porque não querem? Está tudo na mesma. Gostei do que li.
    Abraço

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