“Só é impossível até acontecer”

B.I. Raquel Catarina Batista de Jesus Grilo nasceu a 18 de Junho de 1975 em Cordinhã, mas vive actualmente na vila de Febres, onde está envolvida em vários projectos. Professora de Matemática, é ainda catequista, seccionista do Febres Sport Clube e atleta da Gira Sol. No entanto, o projecto mais importante da sua vida é, sem dúvida, a sua família.

Numa das provas de atletismo

Professora, catequista, esposa, mãe, atleta, associativista e Mulher. Estas são apenas algumas das (muitas) facetas e papéis de Raquel Grilo, natural de Cordinhã, mas já febreense de coração. Embora o seu aspecto franzino possa indicar alguma fragilidade, Raquel Grilo é uma mulher de força, de sorriso aberto e que se recusa a baixar os braços ou a abandonar os desafios a que se propõe.

Raquel Grilo nasceu a 18 de Junho de 1975, na aldeia de Cordinhã. E foi ali, em território bairradino, que concluiu o ensino básico e que conheceu, desde cedo, o valor do trabalho mas também os valores e a importância da família.

Dos tempos de menina, as memórias mais fortes são aquelas que se relacionam com a avó paterna, “uma verdadeira matriarca. Uma grande mulher que, sem dúvida alguma me marcou, pela sua energia, coragem e força de trabalho. Embora tenha enviuvado cedo, conseguiu sustentar seis filhos e construir uma família muito unida”, acrescenta, frisando que, por isso mesmo, “é, e sempre será, um exemplo de vida e de Mulher”.

Com efeito, desde petiz, que a família é para Raquel Grilo a sua verdadeira missão. “Sempre fui uma pessoa ligada à família. Embora tenha apenas uma irmã, erámos 23 primos direitos, o que era uma animação”, conta-nos, recordando algumas brincadeiras de então como “a macaca, a bilharda (jogo com verga), o pião e as tardes a fazer bolos de lama”.

Outra das actividades habituais era a lavoura no campo. Embora os pais não vivessem da agricultura – a mãe foi técnica de Raio X e o pai foi resineiro, peixeiro e, mais tarde, auxiliar de acção educativa – “era comum ajudarmos os avós na terra, onde fazíamos um pouco de tudo”. Numa época bem diferente da de hoje, Raquel Grilo refere que as jovens eram educadas para ser donas de casa: “Erámos ensinadas pelas mães e avós a limpar, a cuidar dos animais, a trabalhar no campo e a fazer todas as tarefas inerentes à casa”.

Enquanto criança e adolescente, Raquel Grilo admite que era “reguila e muito namoradeira”, “Era muito brincalhona, brincava com tudo, até com alguns assuntos sérios, mas, ao mesmo tempo, já era muito trabalhadora”, partilha.

Sempre aplicada nas aulas, foi ainda na Escola Primária que começou a perceber que tinha jeito para os números. “Como era muito faladora e mexida, a minha professora dizia que a única forma de me acalmar era dar-me problemas de Matemática para resolver ou pedir-me para ajudar os outros alunos, o que eu adorava”, refere.

Com apenas 10 anos, Raquel Grilo decidiu que queria ser professora de Matemática “pelo gosto que tinha em ensinar e ajudar os outros mas também pela vontade de resolver desafios”, e desde então lutou para conseguir realizar esse sonho, tornando-se a primeira licenciada da família.

Aos 18 anos, começava o seu percurso na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, para finalmente se tornar professora de Matemática. Enquanto estudante universitária, Raquel refere que “nunca faltava às aulas”, mas organizava bem o seu tempo de forma a poder viver em pleno a vida académica na eterna cidade dos estudantes.

“Era uma grande adepta da Academia, tanto que usava capa e batina todos os dias da semana. Para mim, a praxe também era um momento importante de integração”, refere.

Quando terminou o curso – curiosamente no mesmo ano em que o pai terminou o bacharelato, que entretanto iniciara, em Engenharia Electrotécnica – Raquel Grilo começou logo a dar aulas, tendo passado por localidades como Alcobaça, Mangualde, Tondela, Mortágua, Febres, Mira, Cantanhede e Santa Comba Dão, onde está atualmente.

Desde então, já se passaram 20 anos a dar aulas, e o amor pela profissão mantém-se. “Não é fácil ser professora em Portugal nos dias de hoje mas eu adoro aquilo que faço”. Habituada a lidar com jovens, nos mais variados ambientes, Raquel Grilo diz ser o tipo de professora que cria uma grande proximidade com os alunos. “Como este ano dou aulas a cursos vocacionais, profissionais e a alunos de Humanidades tenho outra liberdade para estar mais próxima deles e para os tentar cativar para a Matemática”.

Embora tenha imensas actividades que lhe dão prazer, Raquel não se imagina a deixar de fazer aquilo que tanto gosta: “Ia ser muito difícil deixar de dar aulas. Eu gosto de ensinar, de educar, de acompanhar os alunos”.

Na catequese ensina também, mas em vez dos números é pelo catecismo e pela palavra de Deus que se orienta.

Oriunda de uma família católica e praticante, para Raquel Grilo sempre foi normal ir à missa em família, à catequese e até ajudar o pároco da sua terra natal. O desejo de ser catequista surgiu, recorda, quando tinha 18 anos, mas na altura o padre negou-lhe essa vontade, o que até – assume – a levou a afastar-se da igreja.

A dar aulas de Matemática, uma das suas grandes paixões

No entanto, 15 anos mais tarde, quando o filho mais velho ia entrar para a catequese, foi-lhe pedido para ser catequista, um papel que aceitou com alguma relutância mas, em simultâneo, com entusiasmo.

“Nessa fase, também como forma de acompanhar o meu filho, voltei a aproximar-me da Igreja e a descobrir o que é ser catequista, à minha maneira… Gosto de levar para cada catequese um tema diferente e que crie debate”, frisa.

Para Raquel Grilo a catequese tem que ter “momentos de oração, de agradecimento, de leitura bíblica, de conversa mas também de convívio. Adoro levar os jovens para fora da igreja e fazer actividades fora de portas”, diz-nos, acrescentando, entre risos, que a mais recente consistiu em ir saltar para poças de água, “para agradecer a chuva, que também é muito necessária. Felizmente, o meu grupo abraça as actividades que proponho com muito entusiasmo, por mais estranhas que elas por vezes possam parecer, como tirar selfies com desconhecidos na rua”.

Desporto e amor de mãos dadas

Para além da igreja e da escola, há outro local onde facilmente se pode encontrar Raquel Grilo: o Complexo Desportivo de Febres.

Seccionista do Febres Sport Clube e atleta da Gira Sol – Associação de Desenvolvimento de Febres, é neste local que passa grande parte dos seus finais de dia e fins-de-semana, “por verdadeiro amor à camisola”.

A história do atletismo, conta-nos, começou há muito tempo. “Foi no 5.º ano que fiz a minha primeira prova de atletismo, um corta-mato escolar”, começa por contar. Na altura, a jovem de Cordinhã acabava de entrar na Escola Básica de Cantanhede e escolheu participar no Desporto Escolar, em que o atletismo era a única opção.

“E foi assim que comecei a fazer umas corridas, ganhando o gosto pelo atletismo, principalmente de estrada”. Na altura, só havia atletismo federado em Febres, “e por isso era complicado para os meus pais, por condicionantes económicas e porque Febres era literalmente do lado contrário do concelho de Cantanhede”.

Ainda assim, sempre que podia, participava em corta-matos, tendo chegado a participar em corta-matos regionais. Curiosamente, foi num desses corta-matos regionais que acabou por conhecer o marido e pai dos seus filhos.

“É verdade. Foi o atletismo que nos uniu”, afirma de sorriso apaixonado no rosto: “O Vitalino também andava no desporto, mas em Febres, de onde é natural. Normalmente eu ia para as provas com o meu pai mas nesse dia chateei-me e acabei por ir no autocarro, onde ele também ia. Assim que o vi aconteceu qualquer coisa, nem sei explicar, mas percebi que ele era especial”.

A abraçar o marido, Vitalino Cardadeiro

Dos 15 aos 18 anos “foram namoriscando”. Depois veio o namoro oficial e em 2006 o casamento. Seguiram-se três filhos, Francisco, de 13 anos, Laura, 9 anos e Maria, 6 anos. Ainda viveram em Cantanhede mas em 2012 mudaram-se de armas e bagagens para Febres, terra Natal de Vitalino Cardadeiro.

“Febres foi uma surpresa. Recebeu-me muito bem e é por isso que já me sinto como se fosse de cá. A minha ligação à vila já é muito forte, porque é aqui que os meus filhos estão a crescer e porque entretanto me envolvi na vida associativa daqui”, frisa.

Em Febres serão poucos aqueles que não conhecem Raquel Grilo, ora de andar pela rua com o seu grupo de catequese, ora de estar na bancada a apoiar os jogos dos “seus meninos” do Febres SC, ou a correr pela pista e pelas ruas da vila, sempre de sorriso no rosto.

Desde 2014 a cordinhanense tornou-se seccionista dos auri-negros, no escalão dos infantis e agora acompanha os iniciados e os juniores. “O objectivo é ir sempre acompanhando os meus filhos nas actividades que se envolvem, por isso, quando o Francisco quis ir para a bola eu comecei a envolver-me. O FSC foi algo que surgiu de muito bom na minha vida. É uma família muito particular e onde todos – dos mais pequenos aos seniores – me tratam com muito carinho e consideração”, partilha. O trabalho exige disponibilidade e, acima de tudo, dedicação, “pois significa várias horas no campo, viagens por todo o distrito, os sábados e os domingos quase todos ocupados, etc,…”.

Num dos treinos do Febres Sport Clube

No ano passado, aos 40 anos, e de forma a motivar a filha Laura a ir aos treinos de atletismo, Raquel Grilo resolveu voltar às corridas. “Quis que ela percebesse que eu também estava disposta a ir treinar, mesmo quando está frio e a chover”, explica. Embora o objectivo inicial de entrar para o atletismo fosse, mais uma vez, para acompanhar a família nos seus hobbies, entretanto tornou-se um escape ao stress do trabalho e do dia-a-dia.

“Quando corro é uma libertação total e no final de uma corrida fica uma sensação muito boa”, explica. Pela Gira Sol, a atleta sénior já competiu em duas provas: São Silvestre de Tábua e  corta mato de Cantanhede, tendo subido ao pódio em ambas. “Prefiro correr em exterior e sinto-me com vontade de melhorar e continuar a trabalhar. O ambiente da equipa de atletismo da Gira Sol é muito bom e tanto os treinadores como os miúdos dão-me muita motivação”.

O projecto de vida

Embora esteja envolvida em vários projectos, Raquel Grilo não hesita em afirmar que a família “é, e sempre será, o principal projecto da minha vida”.

“É por ela que faço o que faço, todos os dias”, refere a professora, que afirma reger-se por três valores, que considera essenciais e imprescindíveis para todos os dias meter a cabeça na almofada feliz e sem qualquer peso na consciência: “disponibilidade, honestidade e gratidão”.

Com os dias tão ocupados, a organização é outro dos aspectos fulcrais na vida de Raquel Grilo. “É algo que vem de família e que me permite conseguir conciliar as várias coisas em que me envolvo. Tem que estar tudo no seu sítio, para me orientar”, refere.

O maior projecto de vida de Raquel Grilo é a sua família

Com três filhos e o marido ausente durante a semana, por motivos profissionais, a professora conta ainda com a ajuda dos pais, “sem os quais seria muito difícil. Ajudam-me muito nas tarefas do dia-a-dia”.

Com o marido, o entendimento passa essencialmente pelo respeito um pelo outro e pelo amor e dedicação, incondicionais, e que Raquel Grilo não se coíbe de mostrar, sempre com um brilho no olhar.

“O mais importante é respeitar os timings de cada um e aproveitar o tempo para fazer coisas em família. Por exemplo, ao sábado vamos à missa juntos, fazemos as refeições em família e, quando conseguimos, passeamos”, partilha.

A vida conjugal também não é esquecida, e embora seja mais complicado com três filhos, Raquel e Vitalino são um casal que, sempre que pode, aproveita para namorar: “Tentamos sempre ter os nossos momentos, muito importantes para manter a chama acesa. Somos diferentes, mas acabamos por nos complementar, o que é muito bom”, refere apaixonada.

Por onde quer que passe, é no sorriso aberto e sincero e na personalidade extrovertida que Raquel Grilo tem a sua imagem de marca. Desafios atrás de desafios, a professora pretende continuar, apesar de todas as adversidades, a encarar a vida com alegria e a dedicar-se não só aos seus, mas também aos outros, tentando sempre ir mais alto e mais longe. “Costumo dizer que ‘só é impossível até acontecer’ e é nisso mesmo que acredito. Todos os dias agradeço o que tenho de bom, e, felizmente, tenho muito para agradecer. Para mim é gratificante andar na rua e receber o sorriso das pessoas, é isso que me faz acreditar que estar disponível para a sociedade só traz benefícios para os outros e para nós mesmos. Não conseguiria ser de outra maneira”.