Seixo recordou moliceiros

“Recordar os moliceiros”. Foi este o mote para o fim-de-semana cultural que a Associação Cultural e Recreativa do Seixo de Mira organizou nos passados dias 8, 9 e 10 de Julho em parceria com a Junta de Freguesia do Seixo e o Agrupamento de Escuteiros do Seixo.

 

De acordo com Luís Rocha, presidente da ACR Seixo, “a apanha do moliço constituiu durante décadas o sustento de muitas famílias do Seixo. Daí que, desde o início do séc. XX, tendo como auge a década 50, o Seixo tenha conhecido mais de meia centena de barcos moliceiros a trabalhar e, como tal, outras tantas famílias cuja dependência económica dependia desta actividade. Por isso, recordar, celebrar e homenagear o moliceiro é sempre um gesto de justiça para com esses grandes homens e para com a história”.

A festa começou no dia 8 com um Arraial Popular, no Largo da Igreja Velha, pautado por muita animação mas também iguarias tradicionais como a sardinha assada, regada com “um bom copo de vinho tinto”.

No sábado (9 de Julho), foi a vez de “dar o gosto à colher” na Festa das Sopas, onde cada uma das 17 ruas da Freguesia participou com um sabor. A noite terminou com a apresentação da Marcha do Seixo, que mais uma vez foi vista e aplaudida por centenas de pessoas.

Já no domingo teve lugar o sarau cultural que, segundo o Presidente da ACR, “encerrou um conjunto de actividades mais vasto que a ACRSM foi desenvolvendo ao longo do ano tendo como tema o moliceiro”.

O sarau, que aconteceu num Salão Paroquial repleto, teve como oradores vários especialistas e estudiosos da Ria, entre eles Senos da Fonseca, Gabriel da Frada e Alfredo Pinheiro Marques, e contou ainda com a transmissão de uma vídeo-reportagem, produzida pela ACR, em que dez moliceiros do Seixo na Ria de Aveiro contam a dureza, as peripécias e a luta que era a vida da apanha do moliço, que começava muito cedo (com 13 ou 14 anos) e se prolongava ao longo de décadas. A festa foi ainda enriquecida com a representação de “Fado 4 noites com 3 dias”, uma peça de teatro, poemas e canções sobre o tema dos Moliceiros.

No entanto, o ponto alto – e também o mais emotivo – deste sarau dedicado aos moliceiros foi a homenagem a Evangelista Loureiro – conhecido como “Mestre Gadelha” –, um dos últimos construtores  de barcos moliceiros e de arte xávega, e a quem foi entregue, pelas mãos do presidente da Câmara Municipal de Mira, Raul Almeida, e pelo presidente da Junta de Freguesia do Seixo, Tiago Cruz, a Carta de Artesão de Mérito na especialidade de construção de embarcações.

Esta “Carta de Artesão de Mérito” é um reconhecimento oficial do Estado Português e refere-se a uma figura/reconhecimento previsto na legislação do estatuto do artesão e unidade produtiva artesanal. A sua atribuição resultou de um processo muito documentado apresentado pela ACR a um grupo de trabalho nomeado para o efeito pelo Estado português, justificando o merecimento, a justiça e a oportunidade da atribuição do título a este construtor naval tradicional e em homenagem ao próprio e à respectiva arte, da qual ele é um dos últimos representantes em Portugal.