Seixo faz reconstituição do Barreiro

 

Amanhã (sábado), dia 29 de Setembro, faz-se história na Gândara. Ao longo de todo o dia, a Associação Cultural e Recreativa do Seixo (ACR), através da secção do Rancho Folclórico e em parceria com a Universidade de Aveiro e a Junta de Freguesia local, vai fazer a reconstituição do barreiro.

O objectivo é “redescobir, reaprender e documentar para a posterioridade esta actividade (utilizada para fazer adobes para construir a típica casa gandaresa), há muito desaparecida da região, mas que, durante décadas, marcou profundamente a comunidade do Seixo.

A iniciativa conta com o apoio da Câmara Municipal de Mira e da Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património, da Associação CentroTerra, da Associação Ruralidades & Memórias, da CFAE Beira-mar e da ACCMIRA.

O programa arranca bem cedo, pelas 9h30, nas olarias do Seixo (local onde antigamente se retirava a areia e construíam os adobes), onde terá lugar a reconstituição completa e o mais fiel possível do processo de fabrico dos adobes – desde a abertura da cova para tirar a areia, à queima da cal, passando pelo “traçar” o monte, o amassar da massa, o transporte da mesma e o fabrico dos adobes, com as suas formas próprias.

Tudo isto vai acontecer pelas mãos do Rancho Folclórico do Seixo, com a colaboração de outros ranchos locais, trajados a rigor, e através da utilização dos utensílios usados na altura, como as enxadas, padiolas, carros de mão e formas. Presentes vão estar os poucos homens que ainda preservam este saber. Tudo será registado em vídeo, para ficar para a posterioridade e se eternizar esta marca patrimonial.

Neste sentido, a ACR convida toda a população a participar neste evento – que integra o Ano Europeu do Património Cultural 2018 – e onde será recordado ou dado a conhecer (no caso dos mais novos) esta forma de produzir este material de construção, “tão importante e marcante para a Gândara e hoje quase extinto, mas considerado pelos especialistas um material de elevada qualidade ambiental, térmica e sustentável”.

Durante o almoço serão as sopas e os sabores da Gândara os protagonistas, numa eira de uma casa gandaresa. Depois, o programa das actividades prossegue durante a tarde. Às 15h00 decorre um workshop prático, dinamizado pela Universidade de Aveiro, através do RISCO – Departamento de Engenharia Civil e Reabilitação do Património, e a cargo dos professores Aníbal Costa, Ana Velosa e Alice Tavares.

A actividade tem por tema “ Adobe – material de construção a redescobrir e a reaprender” e insere-se num outro tema cultural que a Associação tem vindo a dinamizar sobre a “Casa Gandaresa – Marca e Berço de um Povo e de uma Região”.

“Os especialistas e estas entidades que se associaram ao evento demonstram bem a relevância que o mesmo vai ter, em termos históricos, sociais e patrimoniais”, refere a ACR numa nota enviada ao AuriNegra.

Localização da Reconstituição do Barreiro – Olarias (Crossodromo do Carvalho)
Rua Isabel Vaz 3070- 541 Seixo

Localização do Almoço e Workshop – Casa Gandaresa do Ti Justino (junto ao Cruzeiro)
Rua Manuel Figueiras 3070- 542 Seixo

 

Da areia fez-se Casa Gandaresa

Para perceber o que é a reconstituição do Barreiro, o AuriNegra falou com o seixense Manuel Almeida, de 62 anos, e um dos conhecedores desta arte de fazer adobes.

Polícia de Segurança Pública aposentado, foi através de uma reconstituição do Grupo Folclórico do Seixo, que integra há várias décadas, que fez o seu primeiro adobe, corria o ano 2000.

“Foi o meu pai, que mourejou [trabalhou], de sol a sol, nas Olarias do Carvalho, limite do lugar de Seixo, que me transmitiu fielmente a maneira de fazer estas ‘pedras artificiais’, facto que me motivou a aprofundar conhecimentos nesta ‘arte’. Ainda hoje me delicio a ouvir ‘estórias’ de gente mais entrada na idade, abordando este e outros assuntos, tudo relacionado com o modo de vida das Gentes da Gândara”, diz-nos.

Embora a estreia a fazer adobes tenha sido já em idade adulta, a verdade é que desde pequeno que frequentava a olaria onde o pai trabalhava, “onde era possível extrair a tal areia gorda que, adicionada com cal viva (calcário cozido em fornos) depois de ‘caldeada’ dava origem a uma massa que, colocada em formas de madeira, produzia os adobes que dariam origem às nossas casas Gandaresas”.

Enquanto nos fala, as memórias vão surgindo: “Teria seis, sete anos quando meu pai me levou pela primeira vez à Olaria. Fui muito cedo (o sol ainda não tinha nascido) e regressei muito tarde, já minha mãe tinha dado várias voltas à casa! Recordo com nostalgia e enorme sentido de gratidão o esforço que meu pai fez/fazia, assim como os colegas que integravam o grupo de trabalho, para, do fundo de uma enorme cova (nunca tinha visto tamanho buraco) – quatro com enxadas, dois com pás (a uns 4/5 metros de fundo) – arrancarem a almejada areia gorda que atiravam para um patamar situado um metro acima das cabeças. Aí estavam mais dois companheiros que, por sua vez, a arremessavam mais para cima ainda, onde outros, munidos de enxadas, a amontoavam para escorrer e perder alguma água”, explica-nos.

Cada monte de areia, relembra, deveria ter “talvez mais de 40 toneladas. Depois de aberto na parte de cima, colocavam 12 ou 13 toneladas da dita cal em pedra, que molhavam com a água que recolhiam com alcatruzes na cova dos adobes, para que esta abrisse, se transformasse em pó, e depois permitisse, uns dias mais tarde, a mistura com a areia gorda, dando assim origem à massa de adobes”.

Mas afinal o que é o Barreiro? Poderá o nosso leitor estar a pensar.

“O Barreiro era uma ‘ajuntada’ de amigos, novos, menos novos, rapazes, cachopas, que uniam esforços para dar, àqueles que iam formar um novo lar, um espaço só deles. Acontecia normalmente por volta do S. Miguel [que se celebra a 29 de Setembro] e o par já tinha o casamento feito. No dia acertado pelas famílias dos noivos, tinha lugar o Barreiro. Escolhiam o local, caso fossem proprietários de terreno com as qualidades requeridas, e davam a conhecer a data e sítio onde iria ocorrer. Se por acaso as famílias não tivessem terrenos onde pudesse ser feita a extração da areia gorda, alguém mais abastado prontamente oferecia terreno seu para tirar a areia e oferecia-a para esse fim”.

A cronologia do Barreiro:

  1. Abertura da cova para extração da areia;
  2. Abertura do monte, colocação e queima da cal (ficando assim durante três dias);
  3. “Amassadouro”, no dia do Barreiro. Mistura da areia com a cal;
  4. Transporte da massa, primeiro com os carros de mão e depois em padiolas;
  5. Construção dos adobes na eira, onde permaneciam durante, pelo menos, uma semana
  6. Vira dos adobes (cerca de uma semana depois de feitos);
  7. Um mês depois do Barreiro – e se o tempo tivesse corrido de feição – juntavam-se os adobes em montes e eram transportados em carros de bois até ao terreno onde iria ser edificada a nova Casa Gandaresa.