Religiosidade popular

Não resisto a trazer até aqui a estória que me foi contada por uma devota anciã do Santo Amaro do Picoto, vetusta aldeia da freguesia de Covões, que nesta altura se apronta para honrar o seu Padroeiro a 15 de Janeiro, que é o seu dia, calhe ao domingo ou à semana, chova ou faça sol! Fala-se que a sua fama vem de longe, desde o tempo em que o S. Romão quis roubar a Senhora da Guia do Montoiro ao Santo André da Espinheira, que então a namorava.

“Aquilo é que foi uma garreia! Malharam um no outro sem dó nem piedade, acabando este por partir uma perna ao outro, que vivia por ali numa capelita das almas à entrada do lugar, pois era ele quem o protegia dos cães danados. ”, contou a tia Maria Mércatudo.

“Com os ossos partidos e sem poder andar, pediu ao primo, ao Santo Amarinho, que o curasse e lhos pusesse no sítio. E aquele atendeu-o, depois de lhe ralhar por via de tal acção. Foi esse o seu primeiro milagre de que todos falam e foi a partir daí, nas aflições, que as pessoas se começaram a apegar a ele”. Aliás, os romeiros, quando pelos caminhos que os conduzem à ermida, sempre dizem que vão pedir pernas a Santo Amaro. E levam consigo, na procissão, os mais variados ex-votos em cera: pés e pernas, cabeças, braços, mãos e rostos, mas também imagens do gadinho que foi preciso recomendar nas devoções, por via do mal rubro, de uma capação mal acertada, do corno do boi partido… Sim, porque, “acredite-se ou não, cada um sabe de si, e se as coisas a que se recorre não fizerem bem, mal também não fazem”, costuma arrematar a tia Josefas lá com as suas crenças.

Outrora o Picoto era um pequeno povoado encimado pela pequena capela que dava refúgio ao seu Santo Amaro e que à entrada tinha as tais alminhas que abrigavam o S. Romão. Também este ali teve durante muito tempo e sempre no inverno a sua festinha, porque isso de cães danados não era brincadeira, dizia o seu vizinho Manuel Gaitas, que todas as manhãs, quando ia verter águas, lhe tirava o chapéu. Mas parece que era bruxedo, porque é que o santo volta e meia andava de candeias às avessas com o pessoal e,  pela festa, mandava sempre chuva? E num ano o tio Gaitas danou-se, danou-se mesmo a sério, foi à capelita, meteu-o às costas dentro de um saco e atirou-o prá vala do Ribeiro que então ia de enxurrada: “Fraco é o Santo que não guarda o seu dia”, vociferava. O episódio valeu-lhe reprimendas sérias por parte do padre, onde couberam novenas aos santos todos ali à volta, acrescidas da penitência de ir nas procissões amortalhado como as mulheres, atrás dos andores. “Antes o inferno do que de ir desse jeito no meio do mulherio”, mordia-se o Sanamabicha. Quanto à imagem, ela viria a ser recuperada mais tarde, amputada de pés, mãos e cabeça, depois da cheia ter passado. O que é certo, é que a partir daí, nunca mais o S. Romão teve direito a festa. Porém, agora que foi concertado por um canteiro de Outil, lá se passeia aos ombros das raparigas, mas no dia do primo!

Autor: António Castelo Branco