Redes sociais, ou redes marginais?

Comecemos por imaginar uma app. que, através da sincronização de um implante de retina (num cenário futurístico) com as várias aplicações sociais nos indica o nosso “score social”, bem como o score de qualquer pessoa no nosso campo visual, ou com a qual tenhamos, ou já tivemos, algum tipo de interação. Uma interação já pré-determinada por um sistema de avaliação, com uma escala de 0-5 estrelas que se baseia no alcance da popularidade em redes como o Instagram, Facebook e Twitter. No fundo, falo de uma realidade que deixou de ser realidade para se tornar, ao estilo de Baudrillard, num ‘simulacro’ – a experiência humana simulada. É este o ambiente distópico do episódio escrito por Charlie Brooker com Michael Schur: «Nosedive» da série Black Mirror (na season 3).

Pensei que poderia começar por fazer a distinção entre a nossa pegada digital ativa (ex. o upload de informação que nós próprios fazemos para certas redes sociais) e a pegada digital passiva (a recolha de dados que fazem por nós – ex. quantas vezes acedi a uma determinada rede, a que horas, em que local, com que IP). Rapidamente entendi que estaria sempre situada no contexto paralelo ao pretendido. Volto a um plano não distópico e sou obrigada a questionar (como se fosse possível responder ao longo destas palavras) se este tipo de sistemas de classificação tem um impacto real e significativo na marginalização social?

Não falo apenas da cultura do like, ou da própria diferenciação de tratamento, mas sim do facto da dignidade da pessoa humana (e recorro ao conceito do universo kantiano propositadamente) ficar dependente de uma reputação que adquire (ou não) a posteriori da validação social de terceiros. Ora, um exemplo concreto deste cenário não distópico é o Social Credit System proposto pelo Governo Chinês (ainda na modalidade de participação voluntária até 2020) – “Planning Outline for the Construction of a Social Credit System (2014-2020)”, em vista à construção de um sistema de reputação nacional através da análise de big data. Para lá das redes sociais assumirem um papel marginalizante, está em causa, mais uma vez, o controlo social pela implementação de ferramentas tecnológicas que, num primeiro momento, parecem seguras. Mas, quem vai avaliar a credibilidade da avaliação de um órgão governativo que define, a priori, a credibilidade de cada pessoa, ou o seu direito a ter direitos?

Parece que a tecnologia nos conduz a uma regressão histórica e assistimos, acriticamente, ao projetar de um novo modelo de estratificação social estabelecido por um score baseado numa noção de credibilidade assente na análise de esferas como, que tipo compras faz online, quais as contas que paga dentro do prazo contratual, ou qual o tipo interação social que estabelece. No fundo, uma análise comportamental feita através de dados armazenados passa a estabelecer o seu “grau de credibilidade” social que, no caso do Social Credit System, será recompensado e aumentado sob várias modalidades (p. ex. ter acesso a um empréstimo)…

Perante tudo isto, resta perguntar: onde ficam o princípio da dignidade da pessoa humana e os seus direitos fundamentais?

Ver: https://www.youtube.com/watch?v=_yKga54tx6U