Reabilitar a política

Nesta primeira edição de 2019, é pertinente lembrar que este será um ano de importantes eleições em Portugal.

Assim, em 26 de Maio, decorrem as eleições para o Parlamento Europeu. A 22 de Setembro serão as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. E a 6 de Outubro as eleições para a Assembleia da República.

Todos estes actos eleitorais são relevantes. Mas, objectivamente, são as eleições dos deputados à Assembleia da República que maior importância assumem em Portugal, já que são elas que definirão quem vai ter maioria no Parlamento – e, consequentemente, a capacidade para formar Governo.

Infelizmente, muitos dos que andam na política activa não contribuem, por palavras e obras, para a sua dignificação – o que que faz com que uma crescente percentagem de cidadãos sinta desencanto e desinteresse por essa que deveria ser uma nobre actividade.

Refira-se, a este propósito, o que há dias se passou à margem do Conselho Nacional do PSD, com destacados militantes a virem fazer publicamente, para as televisões, violentas críticas (algumas mesmo insultuosas) a dirigentes do seu Partido, por causa do sistema de votação.

Infelizmente não se trata de situação inédita, nem exclusiva do PSD. É atribuída a Winston Churchill (o célebre estadista britânico que tanto contribuiu para a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial), a afirmação de que, quando se fala de política, é no seio do nosso partido que estão os inimigos, pois nos outros são apenas adversários.

A verdade é que atitudes como estas só contribuem para o desprestígio da política, que tem vindo a acentuar-se de uma forma generalizada, sobretudo pelos sucessivos casos de corrupção, de nepotismo, de atropelos ao que é legítimo por parte de muitos, nos diversos partidos, que não olham a meios para atingir os seus inconfessáveis fins.

Recordo que em Portugal, durante quase meio século de Ditadura, houve milhares e milhares de homens e mulheres que, apenas por defenderem uma sociedade mais justa, foram perseguidos, expulsos dos seus empregos, muitos foram mesmo presos e torturados, enfiados em prisões ou enviados para campos de concentração. E muitos mais fugiram de Portugal, num exílio forçado, ou passaram à clandestinidade, num desgastante exercício de fuga à implacável polícia política. Tudo isto, repito, não porque pretendessem benesses para si próprios, mas apenas porque desejavam que no seu País surgisse um regime democrático, que respeitasse os direitos, liberdade e garantias de todos e de cada um dos seus cidadãos.

Quando se deu a Revolução que instaurou a Democracia em Portugal, a 25 de Abril de 1974, surgiram os partidos e uma classe política dirigida, maioritariamente, desde a Esquerda à Direita, por pessoas que não precisavam da política para nada. Os mais velhos recordar-se-ão dos debates, na Assembleia da República e fora dela, entre figuras que defendiam ideias muito diferentes, por vezes até opostas, mas fazendo-o, na maior parte dos casos, com elevação, com respeito recíproco – para já não falar na qualidade oratória e na manifestação de cultura que caracterizava a generalidade das intervenções.

Infelizmente, com a passagem das décadas, o sistema político-partidário tem vindo a ser “futebolizado” por muitos dos que militam nas diversas forças, e mais do que defenderem ideais, lutam pela vitória das cores do seu “clube” e, dentro deste, pela vitória da sua facção. Muitos não o fazem por razões ideológicas, mas apenas numa luta pela conquista de lugares ou de privilégios.

Claro que se não pode generalizar. E quero crer que a maioria dos que militam nos partidos estejam na política partidária pelas boas razões.

A ser assim, é imperioso que essa maioria – e os respectivos dirigentes – recorra a critérios de competência e de representatividade quando tratar da composição das listas, e não siga o critério circular de pagamento de favores.

Só assim se poderá consolidar a confiança dos cidadãos na política e nos políticos. Só assim se dignificará a Democracia e se honrará a memória dos que sacrificaram as suas vidas para a tornar uma realidade.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)