Que alívio! Qual alívio???

No próximo dia nove de Março tomará posse o novo Presidente da República, homem que, do ponto de vista cultural, no seu cotejo com os governantes estrangeiros, dignificará seguramente o país e nunca nos deixará envergonhados.

Esta razão parece-me suficiente para que todos os portugueses minimamente pensantes sintam a data com a alegria com que se vê chegar, segundo uma opinião pública e publicada, o fim de um pesadelo.

Porque pesadelo é, na verdade, também o único termo que me ocorre para descrever o sentimento deprimente de ter visto o meu país tanto tempo representado, a nível internacional, pelo Presidente da República cessante.

Poderá argumentar-se que Cavaco foi uma escolha livre dos portugueses. Mas é justamente esse facto que deve fazer-nos meditar na perversidade de os interesses partidários proporem candidatos sem “perfil” adequado à função, levando a população a legitimar, pelo voto, escolhas que são rotundos equívocos.

Cavaco foi a perfeita demonstração de como, por esta via, os partidos podem dar a imagem da democracia como um mau regime! E o arguto Marcelo, percebendo isto na perfeição, repeliu de si as obscuridades nas quais as mesmas interesseiras abantesmas partidárias se dissimularam para o tentarem também amarrar.

Na verdade, olhando para os dois mandatos de Cavaco, não posso deixar de presumir que, quem quisesse fazer mal à democracia; quem quisesse “diminuir” a República; quem quisesse enfuscar os nobres ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, não teria encontrado melhor forma de o fazer do que colocar na cúpula da representação dignitária do país este cidadão perfeitamente banal, de um nível intelectual corriqueiro, de um domínio apenas básico do discurso em Língua Portuguesa e de uma desonrosa insipiência de fundamentos da nossa cultura cujo desconhecimento envergonharia qualquer estudante de 15 anos, do velho 5.º ano do meu tempo.

Haverá desta burlesca ignorância melhor representação do que o célebre episódio em que Cavaco não soube responder ao jornalista que lhe perguntou quantos Cantos comportam Os Lusíadas, obra canónica de nove séculos de epopeia e erudição lusitanista?

Presumo, sem grande margem de erro, que o homem de vasta cultura que dá pelo nome de Marcelo, por certo se terá sentido muitas vezes tão envergonhado quanto eu… Tal como se terá sentido envergonhado quando Cavaco inventou um complot de falsas escutas para liquidar um primeiro-ministro, num comportamento ao nível de uma qualquer execrável ditadura africana. Tal como se terá sentido envergonhado com a multiplicação de discursos medíocres em momentos e circunstâncias inadequados, de afirmações erráticas, de fraseados de cobertura a corruptos banqueiros amigos… Milhares de portugueses reduzidos à miséria, espoliados das economias de vidas inteiras pelas galras de Cavaco, aconselhando-os a depositarem as suas economias no BES, por certo nunca mais o esquecerão.

Por certo, também não será esquecido pelas próximas duas gerações de trabalhadores e cinco gerações de reformados que terão de suportar, durante quase 50 anos, a redução de salários e pensões para pagamento dos desmandos desses banqueiros seus amigos, bem como a sua ligação a negócios de ações do BPN que todos nós estamos agora a pagar.

Também não o esquecerão pelo fartar vilanagem dos milhões gastos em despesas da Presidência por ajuste direto, sem qualquer contrato ou divulgação em portal público.

E que dizer do Cavaco que duas vezes se candidatou à Presidência da República, que foi o político que mais tempo viveu nos palácios da República, e que, sob os pretextos mais imbecis, repetidamente se recusou a comemorar a República? Como é que um indivíduo que se candidata e recandidata, se pode sentir confortável como Presidente de um regime que recusa celebrar? Compreenda quem for capaz… O florilégio é tal que mal vai de nós se algum dia Cavaco deixar de ser considerado, de longe, como o pior Presidente jamais eleito pelo povo.

Por isso, bem-vindo, 9 de Março! Bem-vindo, Marcelo! Será bem caso para exclamar: que alívio!!!

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Com a saída de Cavaco e a entrada de Marcelo, os portugueses passarão a ser o único povo do mundo a sustentar cinco Presidentes da República e três primeiras damas! Apre!!! É obra!!! Gabinetes em palácios e respetivos gastos sumptuários, secretárias, carros, combustíveis, portagens, assistência, motoristas, despesas de representação, enfim, um nunca mais acabar de milhões, dos quais o povo é esbulhado, para, vitaliciamente, pagar a estes senhores o “enorme sacrifício” de terem vivido nos palácios da República… E mais as pensões acumuladas (que continuam a ser proibidas aos cidadãos “normais”).

E mais uma vez Cavaco, que se lamenta de os seus futuros quase 15.000€ por mês não lhe chegarem para pagar as despesas que não fará, porque nós pagamos tudo! Impagável Cavaco!!! E pobre República que nos faz invejar as Monarquias, onde os contribuintes só têm de sustentar uma família reinante!Será bem caso para perguntar: qual alívio???