Quando “santos da casa” podem fazer milagres

Ninguém podia prever que, apenas 4 meses depois de Pedrógão Grande, o fogo iria provocar nova tragédia. Ceifando
a vida a mais algumas dezenas de seres humanos e a muitos milhares de animais. Roubando, a milhares de famílias, os haveres conquistados ao longo de vidas de trabalho intenso e de muitos sacrifícios.

Ninguém podia prever a dimensão – é certo. Mas teria sido possível – e era obrigatório! – que, pelo menos depois da tragédia de Pedrógão, se esquecesse a infantilidade de estabelecer rígidos limites para a “época dos fogos”, atendendo antes aos avisos dos meteorologistas. Que em vez de desmobilizar meios, materiais e humanos, estes se mantivessem esforçassem, o mesmo tempo que se deveriam ter tomado medidas extraordinárias de prevenção e vigilância.

Sucede, porém, que Portugal não é um País, antes um conjunto de “países”, que assumem importâncias muito diversas e que raramente intercomunicam. Um desses países quase autónomos, que paira acima de tudo e de todos, é Lisboa,
a capital, onde estão quase todas as instituições que contam, quase todos os que mandam – em suma, o “país” onde
se decide quase tudo o que a Portugal diz respeito. Mesmo que grande parte de quem toma as decisões não conheça nem
as terras, nem as gentes, nem as realidades do resto do País.

Mas as divisões não se quedam por aqui. Há o país litoral, que, apesar de tudo, tem acompanhado, de forma mais ou menos lenta, o desenvolvimento. E há o país interior, aquele que tem a maior parte do território nacional e a mais pequena parcela da população portuguesa. Ora é exactamente este país interior que é desconhecido pela generalidade dos que decidem na capital. É aqui que se situam as aldeias moribundas ou já mortas e enterradas nas memórias dos que de lá foram saindo. Um êxodo estimulado por quem se deslumbrou com a chuva de dinheiros da Europa e foi pagando para que o povo abandonasse a agricultura (tal como a pesca), abandonasse o campo, os seus usos e costumes, e rumasse à capital, aos outros centros urbanos, ou continuasse a emigrar.

O centralismo ditatorial foi “domesticando” sucessivas gerações. Aos poucos, foi lançando sobre “a província” (como, com indisfarçado desdém, Lisboa chama ao resto do País…) um espesso manto, tecido de esquecimento e indiferença, que nem na demagogia das campanhas eleitorais é soerguido, pois os votos ali são escassos e não justificam a visita…

Pois bem, foi castigando a arrogância que a Natureza caprichosa decidiu voltar a lançar o terror, através de um tsunami de fogo como nunca antes se vira, que inundou de chamas montes e vales. Vários incêndios simultâneos, que tudo fora destruindo, sem que os meios de combate, à pressa mobilizados, conseguissem travar a tragédia. Mas não foi assim em todo o lado.

Conhecemos um caso em que as coisas correram de forma diferente. Aconteceu com um dos elementos da equipa da Gira Sol e do Aurinegra, Tiago Cruz. E embora ele preferisse que não falássemos do caso, julgo que é um exemplo que importa divulgar, para que seja replicado.

Foi na Freguesia de Seixo de Mira. Tiago Cruz acabara de tomar posse, nesse domingo, do lugar de Presidente da Junta de Freguesia (para que foi reeleito), quando começaram a chegar alertas de incêndio. Foi o tempo de tirar a gravata, arregaçar as mangas e, juntamente com sua Mulher (enfermeira de profissão), iniciar um trabalho notável, com resultados muito gratificantes, já que obstou a que o fogo dizimasse a sua freguesia. Com o espírito de organização, de disciplina e de solidariedade aprendido nos escuteiros (movimento que tanto ele como sua Mulher frequentaram) fizeram
os sinos tocar a rebate, promoveram a mobilização dos habitantes, usando de criatividade para que a população, em
conjunto, improvisasse meios de intervenção rápida, acudindo de imediato a
cada novo foco que era detectado.

Este caso demonstra que se tivesse havido formação prévia nas cerca de 3 mil freguesias do País, com indicações específicas do que fazer em caso de sinistro, com a distribuição de kits de intervenção rápida, com a indicação dos procedimentos a adoptar em caso de fogo e dos locais onde seria seguro o refúgio – e o balanço teria sido, seguramente, muito menos trágico.

Pois que a tragédia, pelo menos, obrigue a que, finalmente, se ponha em prática o que já deveria vir a ser feito desde há décadas, quer em termos de prevenção, quer em termos de combate. E que a classe política (toda ela, da direita à esquerda!) tenha algum decoro, não se aproveitando desta imensa desgraça para inconfessados e oportunistas fins partidários, antes se unindo no objectivo comum de criar condições para que nada disto se repita.

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)