Praia de Mira – uma terra viva e de iniciativas

Museu Etnográfico da Praia de Mira

INTERIOR-MUSEU-037O Museu Etnográfico e Posto de Turismo da Praia de Mira, inaugurado a 5 de Outubro de 1997, é um edifício, construído de raiz, totalmente de madeira e de arquitectura palafítica (assente em estacaria), inspirado no vulgarmente chamado de Palheiro – uma construção local, tipicamente popular, que caracterizou a localidade até aos anos 60, altura em que a Praia de Mira era denominada de Palheiros de Mira.

Para além de servir de Posto de Turismo, o espaço contempla exposições permanentes e exposições temporárias. Através da sua visita é possível viajar no tempo desde as origens da Praia de Mira, do património arquitectónico, da arte xávega até à epopeia do pescador. O museu aborda ainda o modo de vida e o relacionamento da população através de mobiliário, trajes, instrumentos utilizados na pesca e alfaias agrícolas.

Horário: Terça-feira a Domingo: 09h00-13h00 / 14h00-17h00 (Encerra Segunda-Feira e Feriados)

Marcações de visita através do e-mail turismo@cm-mira.pt ou do número  924 473 751

 

Pela Arte Xávega

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José Xavier – Presidente da APX

Com sede na Praia de Mira, a Associação Portuguesa de Xávega (APX) foi criada em finais de Novembro de 2013, com o objectivo de fazer uma proposta legislativa e defender a actividade.

“Quando criámos esta associação o intuito era alterar a legislação que afectava esta pesca e que, a nosso ver, era totalmente desadequada”, começa por explicar, em entrevista ao AuriNegra, o presidente da APX, José Xavier.

O problema, como refere, era o facto de a arte xávega estar englobada nas quotas gerais, “o que nos prejudicava, porque chegava a uma altura que já não podíamos pescar”. Outro ponto de discórdia entre o legislador e os pescadores era a devolução ao mar ou a apreensão de todo o pescado da faina quando as autoridades detectavam peixes com tamanho ilegal. “No nosso mar aquilo que pescamos é essencialmente carapau pequeno que erámos obrigados a ‘deixar’”, refere, acrescentando que “depois de contactar e insistir junto do Conselho de Agricultura e Pescas consegui que nos fosse feita uma reserva”.

Ainda assim, expõe José Xavier, “a luta continua”: “Aquilo que agora queremos é alterar a legislação das artes – que não prevê qualquer tipo de apoio a este tipo de pesca e que lhe traz uma muito má conotação”.

“O momento difícil que estamos a atravessar e, especialmente a conjuntura legal europeia que se está a desenhar neste sector, apontam claramente para a necessidade de defender a Arte-Xávega, pois além de estar a ser atacada, pode muito bem ser extinta”, acrescenta.

José Xavier defende ainda que “quem faz estas leis não tem noção de que este tipo de pesca consiste numa arte secular portuguesa, totalmente à vista do público, e que levou à criação de grande parte das comunidades portuguesas do litoral”.

“Não temos nada a esconder”, frisa, lembrando que a chegada das redes até serve, muitas das vezes, de atração turística nos areais da Praia de Mira. “As pessoas gostam de ver e até vão comprando algum peixe”, refere.

Na Praia de Mira, recorda José Xavier, existem cerca de 80 pessoas a viver exclusivamente da Arte Xávega. “Não é uma vida fácil mas para aqueles que estiverem dispostos a trabalhar compensa”. Dependendo do estado do mar, o presidente da Associação Portuguesa de Xávega, refere que, em média, um pescador consegue pescar 150 dias por ano, o que se traduz em várias toneladas de carapau, cavala, sarda, lula e alguma sardinha.

O que é a arte xávega

A Arte xávega é uma técnica tradicional de pesca de arrasto para terra, que visa cercar os cardumes perto da costa e que adquiriu grande importância em vários pontos da costa portuguesa, constando que tenha sido trazida para Portugal por Espanhóis e Franceses.

Este tipo de pesca era considerado um processo trabalhoso mas também perigoso, que exigia mais de 50 pares de braços por rede – entre os que embarcavam e remavam e aqueles que ficavam em terra para ajudar a colocar a embarcação no mar e puxar as redes – com o auxílio dos “bois que lavravam o mar”, até ao surgimento dos tractores e outro tipo de maquinaria.

 

AECO contra os jacintos-de-água

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Durante a assinatura do protocolo entre a Câmara Municipal e a AECO

A sua criação é recente (Agosto de 2015) mas já é muito importante o trabalho realizado pela associação ecológica AECO, sediada na Videira do Sul (Praia de Mira).

A associação tem como objectivo a defesa do meio ambiente e, como tal, tem sido presença assídua, através de voluntários, nas várias intervenções que têm tido lugar na barrinha para a eliminação da praga dos jacintos-de-água. Em Março, a associação recebeu da Câmara Municipal de Mira duas barcas para apoio nas actividades da barrinha assim como uma roçadora para limpar as margens. Instrumentos que vieram, segundo o presidente da associação, António Veríssimo, ajudar na missão de “contribuir para que a nossa freguesia se torne mais limpa e com melhor ambiente”.

Originários da América do Sul, os jacintos-de-água foram introduzidos em Portugal como plantas ornamentais em meados dos anos 30 do século passado e rapidamente se transformaram numa ameaça séria para o ecossistema de rios e lagoas.

Estas plantas invasoras criam uma espécie de tapete flutuante que muitas vezes cobre totalmente a superfície da água, o que faz com que a luz incidente seja reduzida, diminuindo assim a qualidade da vida aquática e levando, na maioria dos casos, à morte de animais e plantas.

No caso da Barrinha de Mira, a invasão de plantas aquáticas terá acontecido através das valas de alimentação da lagoa e, nos últimos 30 anos, praticamente acabou com os banhos dos turistas e com os desportos náuticos no ex-libris da praia que celebra este ano 30 anos de Bandeira Azul.

 

A marcha dos Amigos Terra e Mar

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A marcha dos Amigos Terra e Mar, na voz de António Gabriel, reúne cerca de 60 marchantes num ambiente de alegria e entusiasmo.

António Gabriel, o marchante mais velho num grupo que reúne entusiastas de idades compreendidas entre os 4 anos e os 66 anos, explica ao AuriNegra que, após um interregno, em 2006, em conjunto com a Associação de Pesca Desportiva da Praia de Mira, os Amigos Terra e Mar decidiram voltar aos palcos das festas populares de S. João. E, desde então, a exigência tem sido cada vez maior.

A preparação da marcha começa em Janeiro com a angariação de fundos, a produção da música e a escolha do tema. O secretismo é crucial para que o “efeito surpresa” seja conseguido. “Chegar ao tema da marcha é um trabalho árduo de imaginação”, refere António Gabriel.

As marchas da Praia de Mira, como dita a sua génese, nascem do bairrismo local, qualidade que o marchante António Gabriel defende que “deve ser saudável, sem fanatismos. Aqui existe muito esse bairrismo saudável o que nos leva a querer trabalhar sempre mais e melhor. Apesar de também requerer mais fundos para elevar a Marcha Amigos Terra e Mar a outros patamares.”

Segundo o marchante, os apoios financeiros são conseguidos através da Câmara Municipal de Mira (subsídios de apoio a actividades culturais), da angariação de fundos ao longo da época de preparação e do aluguer e venda de fatos de marchas anteriores.

Embora as dificuldades sejam algumas, “há muita alegria. Há muita cumplicidade entre os mais jovens e os mais velhos e é exactamente por esse espírito que a marcha se mantém viva”, explica António Gabriel.

 

Touring: 46 anos de história

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António Janeiro, presidente da Comissão Organizativa do Touring Clube Praia de Mira, conta que o clube nasceu no dia 18 de Abril de 1970, tendo completado 46 anos no passado mês. “A Praia de Mira já contava com um clube de futebol amador – o Clube Desportivo da Praia de Mira – no entanto, cerca de 20 locais decidiram, em 1970, fundar um clube federado capaz, segundo contam os mais velhos, de promover a terra”, explica o actual presidente do Touring.

António Janeiro, apesar de ter estado fora alguns anos, recorda que “o Touring tinha muita audiência, havia bairrismo. Hoje, muitos emigraram e outros não conseguem deslocar-se a Mira para ver os jogos, uma vez que já não treinamos nem jogamos na nossa terra, no nosso campo. Por falta de condições para a prática desportiva, foram-nos cedidas as instalações da Associação Desportiva Ala-Arriba de Mira para que pudéssemos treinar e jogar. No entanto, o facto de estarmos fora de casa fez com que os adeptos fossem desaparecendo nos dias de jogo.”

O presidente recorda, ainda, que o Touring chegou a várias finais da Taça da Associação de Futebol de Coimbra e foi campeão de série antes de a terceira divisão ter dado lugar ao Campeonato Nacional de Séniores. Sorri enquanto relembra a claque que acompanhou durante algum tempo o clube da Praia de Mira -“A força Zua” – que se fazia ouvir em alto e bom som.

“Neste momento temos que tentar criar condições para renascer o clube e isso passa pela construção de um campo na Praia de Mira”, explica António Janeiro.

 

 

Obra do Frei Gil apoia jovens

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A Casa da Criança da Obra do Frei Gil, localizada na Praia de Mira, é um Lar de Infância e Juventude vocacionado para o acolhimento de crianças e jovens em risco do sexo masculino, dos seis aos vinte e um anos, aos quais foi aplicada medida de Promoção e Protecção.

O principal objectivo da instituição é proporcionar aos jovens a satisfação das suas necessidades básicas, autoestima e equilíbrio emocional, em condições de vida próximas de uma estrutura familiar normal.

“Tentamos que eles se sintam em casa e que trabalhem para atingirem um projecto de vida autónomo”, refere ao AuriNegra Gonçalo Mendes, director técnico da Obra do Frei Gil, acrescentando que, para tal, contam com uma equipa multidisciplinar que inclui tutores, psicólogos, pedopsiquiatras, assistentes sociais, entre outros.

Para além disso, a instituição procura tornar efectiva a valorização pessoal, social e profissional dos jovens que por lá passam, priorizando o acompanhamento familiar das crianças e dinamizando um trabalho interinstitucional, com vista a uma sustentada e rápida reintegração familiar.

O lar acolhe actualmente 33 rapazes, oriundos na sua totalidade do Distrito de Coimbra e Distritos limítrofes (Leiria e Aveiro), cujos pedidos de internamento foram efetuados por entidades com competência na matéria de protecção à infância e juventude (Tribunais, CPCJ’s, Instituto da Segurança Social).

“São jovens que estão integrados na comunidade. Frequentam as escolas locais, andam nas marchas da vila, jogam nos clubes da terra”, acrescenta o director técnico, que destaca ainda a ligação estabelecida entre todos: “Somos uma família grande. E cada criança que chega é sempre muito bem acolhida pelos mais velhos. É com muito orgulho que vemos que aqueles que aqui se conhecerem se tornaram ‘irmãos’ para a vida”.

Quanto ao financiamento, Gonçalo Mendes é peremptório: “O apoio que a Segurança Social nos dá, não permite dar resposta total às nossas necessidades. Por isso contamos sempre com o apoio e a generosidade da população que podem ajudar através da doação de material escolar, roupa, bens de higiene pessoal, etc”.

Unidade Paroquial de Apoio Social da Praia de Mira

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Fundada em 2001, a Unidade Paroquial de Apoio Social (UPAS) nasceu pelas mãos de um grupo sócio caritativo, constituído por mulheres, naturais e residentes na Freguesia da Praia de Mira.

Actualmente sediada na Praia de Mira, em instalações cedidas gratuitamente pela empresa Maçaricos, a UPAS é presidida pelo pároco da praia, o polaco Stanislaw Kazimierz Pac, estando a Direcção Técnica a cargo de Joanna Balugas.

O trabalho desenvolvido pela IPSS é no âmbito do apoio a idosos e crianças.

“Temos centro de dia, com 14 utentes, serviço de apoio domiciliário, com 20 utentes, e ATL com 20 crianças”, refere ao AuriNegra Joanna Balugas, que é também Assistente Social na instituição.

A UPAS está também à frente da Cantina Social do Concelho de Mira, apoiando cerca de 70 agregados familiares, com refeições durante os 365 dias do ano. Para além das valências actuais, a UPAS quer ir mais longe e construir um novo edifício.

“No início de 2016, o executivo camarário presenteou-nos com a atribuição de um lote de terreno, situado na Videira Norte, na Praia de Mira, destinado à construção de um novo equipamento social. Neste sentido, encontramo-nos a desenvolver esforços para projectar e concretizar este projecto, que representará uma mais-valia para a Instituição e para toda a Freguesia da Praia de Mira”.

Marcha Vila Maria

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Criada em 1997, a Marcha Vila Maria surgiu, de acordo com Paula Vieira, mentora do grupo, “numa daquelas conversas de ocasião, em que algumas pessoas, evocando o S. João de outras épocas, com bailes, fogueiras e o tradicional banho santo, lamentavam o facto de tudo ter caído no esquecimento e de não haver sequer umas simples fogueira para assinalar a data”.

Entre conversas, o repto foi lançado às associações da Praia que aceitaram o desafio. Assim, nesse ano, participaram nos festejos de S. João a Marcha do Bairro Norte, a Marcha da Vila Maria, a Marcha da Videira Sul e a de Portomar.

Desde então a Marcha Vila Maria tem continuado em actividade, participando todos os anos no desfile organizado na Praia e, mais recentemente, também em Mira.

Para a escolha do tema, refere Paula Vieira, os marchantes inspiram-se “em usos e costumes de outros tempos, girando sempre à volta do mar, da barrinha, de profissões antigas e de outros motivos que dignificam o nome da nossa terra”.

Para fazer face às inúmeras despesas envolvidas na organização de uma marcha, a Vila Maria recorre, para além do subsídio entregue pela Câmara Municipal, a peditórios, à venda de rifas, à organização de jantares, entre outras iniciativas.

Para este ano, a marcha conta com um total de 75 participantes, sendo o mais novo de 2 anos e o mais velho de 69. Porém, e apesar da diferença de idades, Paula Vieira frisa que “a relação entre os membros da marcha é bastante boa. Claro que a partir de uma certa altura, e com todo o stress que as pessoas já trazem do trabalho, há situações de conflito, mas no dia em que a marcha sai à rua tudo é esquecido e há apenas um objectivo comum: o de brilhar o mais possível”.

Quanto ao bairrismo tão característico das marchas, a mentora do grupo diz que este se vive essencialmente “numa salutar e tradicional rivalidade e disputa entre todas as marchas participantes”, porém, “como não podia deixar de ser, considero que a nossa marcha é a melhor. Quer pelos figurinos, que primam sempre pela diferença, passando pela coreografia e pelos arcos”.

Para Paula Vieira, o mais importante é que “à semelhança do que tem vindo a acontecer nos anos anteriores, cada marcha dê o seu melhor. Faço votos para que todos interiorizemos o mote ‘muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa’ que é, afinal de contas, inerente ao próprio espírito das Marchas Populares”.