Praia de Mira: terra de sol, mar e tradição

Conhecida pelo seu mar azul e areal extenso e branco, mas principalmente pelos tradicionais palheiros e pela barrinha, a Praia de Mira é, todos os Verões, o destino de eleição para milhares de portugueses – de Norte a Sul do País, mas também para, cada vez mais, estrangeiros. A partir de Junho/Julho é frequente o areal estar repleto de veraneantes que procuram nesta vila o descanso merecido após um ano de trabalho.

Na Praia de Mira mais do que sol, o calor e o mar, encontra-se a tradição, marcadamente visível nos palheiros de madeira – cada vez mais raros, e na arte xávega, ainda bem viva nesta praia gandaresa.créditos Vovoncho, 1954

Em conversa com o AuriNegra, o presidente da Junta de Freguesia da Praia de Mira, Francisco Rei- gota, explica quais as mais-valias deste pequeno paraíso da Região Centro: “A nossa praia vive muito de algumas imagens de marca que estão devidamente representadas na nossa logomarca: o barco típico da arte xávega, a barca da Barrinha, a floresta – como referência à natureza e ao ambiente, o palheiro típico, as barracas de pano do Verão, as gaivotas, o peixe e o inconfundível pôr-do-sol”. 

Os homens e mulheres que vivem do mar também não foram esquecidos e estão representados numa estátua localizada junto à capela, da autoria do escultor Alves André. “É uma obra de arte que representa a peixeira, uma mãe que sofre, cuidando dos filhos e esperando que o seu homem regresse do mar”, explica o jovem autarca que, apesar de não ser natural da Praia, se sente como tal.

 

“Sou um apaixonado pela Praia de Mira. Embora seja natural de Mira, costumo dizer que vim para aqui na barriga da minha mãe. Andei aqui na escola desde pequeno e portanto foi aqui que aprendi a ler e a escrever. Joguei futebol no Touring, fiz aqui os meus grandes amigos e foi aqui que escolhi viver assim que tive independência”, refere.

Estar à frente dos destinos da freguesia é, como nos diz, “um verdadeiro desafio”. “Esta é uma freguesia muito peculiar. No Inverno temos que lidar com as intempéries, as tempestades e a acumulação da areia. No Verão o desafio é ainda maior, uma vez que a população mais que quadruplica, com a chegada dos turistas e dos nossos emigrantes, espalhados pelo mundo fora”. Nos últimos dois anos, Francisco Reigota refere que o trabalho da Junta passou essencialmente por uma organização: “das contas e de alguns modelos de gestão. Actualmente os desafios da freguesia são diferentes daqueles que existiam antigamente e, apesar de se aprender muito com o passado, é necessário trazer um cunho novo e também alguma inovação”.Junta de Freguesia PMIra

Num futuro breve, o objectivo maior da autarquia, refere, passa por um “apetrechamento da freguesia”: “Estamos a ampliar o cemitério – que já estava praticamente lotado, vamos criar mais arrumos e armazéns e pretendemos melhorar várias infraestruturas que precisam de ser reabilitadas”.

“Somos uma freguesia grande em tamanho e valor mas pequena em número de habitantes e em orçamento. Felizmente podemo-nos orgulhar de não termos dívidas e de termos ‘a casa arrumada’”, acrescenta.

Apesar de ter mais vida durante o Verão, Francisco Reigota recorda que a Praia de Mira não pode ser esquecida durante as outras estações do ano. “É preciso mostrar à população que a freguesia também é deles e que é necessário que todos ajudem”. Nesse sentido, são várias as actividades que a Junta Freguesia desenvolve juntamente com os praiamirenses, como a limpeza das valas, o combate à praga dos jacintos-de-água, a comemoração do Dia da Árvore, entre outras.IMG_7807

“Fico orgulhoso e até vaidoso quando, principalmente os emigrantes, que só nos visitam uma ou duas vezes por ano, me dizem que a Praia está cada vez mais limpa e bonita”, refere, partilhando, no entanto uma das suas maiores angústias: “O ‘abandono’ da barrinha”.

Para Francisco Reigota, esta é um dos aspectos que distingue, indubitavelmente, a Praia de Mira de outras da região. “É o nosso ex-libris e é uma pena vê-la assim. Não há muitas praias que se possam orgulhar de ter algo tão belo e cheio de potencialidades a poucos metros do mar”, começar por dizer.

“Adoro a Praia de Mira mas de nada nos vale se não devolvermos a vida à Barrinha. É necessário fazer uma intervenção sustentada no seu leito e na IMG_7772envolvente, o que depende do Ministério do Ambiente a quem pertence a sua tutela”, afirma, recordando os anos em que esta era ponto de encontro para banhistas e não só:

“A barrinha era o ‘coração central’ da Praia e eram muitos os locais emblemáticos como os tanques de peixes, a prancha, onde os jovens se divertiam, e a ilha dos namorados – hoje ao abandono, e para onde, pela sua beleza e recato, muitos casais iam namorar”.

 

Uma praia “azul”

Um dos maiores motivos de orgulho da Praia de Mira é, sem dúvida, a Bandeira Azul, que já recebe há 30 anos consecutivos. O reconhecimento atribuído pela Associação Bandeira Azul da Europa (ABAE) é um símbolo de qualidade que não é indiferente àqueles que vivem e visitam esta praia, a única do mundo com 30 anos deste galardão.

“Os 30 anos de Bandeira Azul são para nós uma mais-valia e é uma marca que muito nos honra”, refere Francisco Reigota, acrescentando que a distinção é um sinal “da qualidade ambiental e de infraestruturas que a Praia oferece”.

Ao AuriNegra, a ABAE explicou que o galardão é entregue segundo o cumprimento de 32 critérios “de natureza ambiental, segurança, serviços, educação e gestão”.

No caso da Praia de Mira, significa que esta “mantém uma qualidade de excelência no desempenho, até porque mais importante que obter uma Bandeira Azul é sem dúvida conseguir mantê-la”.

Para tal, são necessários inves- timentos e uma eficaz manutenção da qualidade das estruturas e serviços oferecidos.“Fazemos um grande esforço em vários aspectos, desde a limpeza do areal, às infraestruturas, passando pelos sítios públicos como as casas de banho e a biblioteca de praia”, explica Francisco Reigota.IMG_7781

A ABAE acrescenta que a “Praia de Mira, por não ter perto um centro urbano denso, nem grandes indústrias ou agricultura muito intensiva, consegue manter uma qualidade de água balnear excelente, sem grandes focos de po- luição. Além disso, a aposta da autarquia nesta praia foi total, tendo conseguido envolver toda a população e comunidade na manutenção e comportamentos adequados com a sustentabilidade de um local tão sensível como é a praia. A protecção da fauna e flora locais são outras das preocupações dos gestores da praia através do conhecimento e di- vulgação das boas práticas e códigos de conduta adequados”.

A Praia de Mira conquistou a primeira Bandeira Azul em 1987, ano em que foi criado o galardão ambiental da Fundação para a Educação Ambiental. No dia 29 de Abril voltou a ser contemplada com a distinção, pelo 30.º ano consecutivo. Na ocasião, o Presidente da Câmara Municipal de Mira, Raul Almeida referiu o “orgulho de ter uma praia que é uma referência mundial”, lembrando ainda que o Poço da Cruz, a outra praia do concelho, foi contemplada pelo décimo ano consecutivo com o galardão.

Para assinalar o “momento histórico”, haverá, no dia 26 de Junho, uma cerimónia, em que a par do hasteamento da bandeira será inaugurado, junto à Capela dos Pescadores, um “pequeno monumento comemorativo”. A autarquia tem também a intenção de decorar, durante a temporada de verão, a marginal da praia com as 30 bandeiras azuis conquistadas ao longo dos anos.

Dados

  • Área: 40,28 km²
  • População: 3 147 habitantes
  • Padroeira: Nossa Senhora da Conceição
  • Património edificado: Capela da Praia de Mira / Estátua em Homenagem ao Povo da Praia de Mira / Igreja Nova da Praia de Mira / Museu Etnográfico

Autor: Carolina Leitão