Os vigilantes da floresta

Estão situados em plena floresta e têm um papel muito importante, embora nem todos saibam da sua existência. Os postos de vigia são uma realidade na defesa nacional da floresta contra incêndios e este ano, pela primeira vez, vão estar activos até dia 6 de Novembro – alargando a sua actividade mais cinco semanas do que em anos anteriores.

Durante 24 horas por dia, as florestas portuguesas vão andar “sob” olho de cerca de três centenas de vigilantes. No total são 72 os postos de vigia, em funcionamento desde o dia 7 de Maio, com 288 vigilantes e que integram a Rede Nacional de Postos de Vigia (rede primária). No entanto, esta rede foi reforçada desde 30 de Junho e até 15 de Outubro, com a entrada em funcionamento da rede secundária, o que perfaz um total de 230 postos de vigia e 920 vigilantes das florestas.

No concelho de Cantanhede existem dois postos de vigia que integram a rede secundária: um em Lemede e outro nos Palheiros da Tocha. Já no concelho vizinho de Mira há um posto no Areão.

O AuriNegra esteve junto ao posto da Tocha, uma das áreas mais afectadas pelos incêndios de Outubro de 2017 e onde, por razões de segurança não tivemos autorização para subir. Ainda assim, ficámos a saber em que consiste este importante trabalho dos vigilantes e que tanta diferença pode fazer numa situação de fogo.

“Este trabalho é extremamente importante, porque nos permite saber o que se passa na floresta ao longo de todo o dia. Os postos estão vigiados 24 horas diárias, com cada vigilante a fazer turnos de 8 horas”, começa por explicar o Major João Caleiras, Chefe da Secção do SEPNA (Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente) do Comando Territorial de Coimbra.

No dia e hora em que visitámos o posto era a vez de João [nome fictício] estar de serviço. Durante horas pode não ver vivalma e o que impera é o silêncio, mas as chamadas para o posto são frequentes, “para garantir que está tudo bem”. Bem lá de cima, porque não pode deixar o seu posto de trabalho, o jovem vigilante vai-nos dizendo, de binóculos em punho, que tem estado tudo calmo pela floresta. Dali, os seus olhos alcançam vistas até quase à Serra da Boa Viagem. Cá em baixo, está o seu companheiro dos últimos dias: um cão rafeirinho, que serve de companhia em troca de alguma comida.

Do cimo do posto de vigia, o trabalho destes homens e mulheres passa essencialmente por “comunicar o foco de incêndio e comunica-lo de forma que a os meios intervenham de forma mais rápida possível. Depois, também permitem acompanhar a evolução do incêndio, uma vez que estão localizados em posições estratégicas e mais elevadas e têm ainda acesso a material que ajuda na localização do incêndio”.

Embora nem todos os postos de vigia sejam iguais – têm diferentes estruturas e localizações – a sua posição é estrategicamente seleccionada. Ali, sozinhos, os vigilantes estão preparados para observar, localizar e informar. “Têm acesso a um rádio, binóculos, uma carta militar e uma mesa de ângulos – que permite tirar o azimute, através de um prato graduado acoplado a um monóculo, e identificar o foco do incêndio, comunicando-o posteriormente à Equipa de Manutenção e Exploração da Informação Florestal (EMEIF) da GNR, que está sedeada no CDOS [Comando Distrital de Operações de Socorro], que controla a actividade dos vigilantes”, descreve o Major Caleiras, ele próprio responsável pela selecção e posterior formação destes vigilantes.

Mas afinal, quem pode ser vigilante? O Major explica: “Qualquer pessoa entre os 18 e os 69 anos. Com robusteza psíquica e física, com registo criminal limpo e sem qualquer vínculo profissional”.

Embora não haja restrição de sexo, ainda são os homens que se oferecem mais para este serviço, onde cada vigilante recebe pouco mais que o Ordenado Mínimo Nacional. “Temos uma percentagem esmagadora de homens, mas curiosamente cada vez mais jovens”. As razões, refere Caleiras, prendem-se com o desemprego que afecta cada vez pessoas mais novas e

jovens estudantes que procuram o primeiro emprego mas também com a cada vez maior preocupação com a floresta, “principalmente depois dos incêndios devastadores que aconteceram recentemente”.

“Os Postos de Vigia têm vindo a provar a sua importância. Por exemplo, na altura do fogo de Outubro de 2017 foi o vigilante da Boa Viagem que alertou para a coluna de fumo que começou em Quiaios” afirma o chefe de secção do SEPNA, a entidade responsável por estas estruturas desde 2006.