Os quatro elementos

Há dois milénios e meio, alguns filósofos da Grécia antiga, na tentativa de justificar a natureza das coisas, defendiam que tudo aquilo que compunha o Universo se resumia a quatro elementos: água, fogo, terra e ar.

Apesar do avanço da ciência nos demonstrar que a matéria é composta por átomos, a verdade é que uma observação empírica continua a evidenciar que os tais quatro elementos são essenciais para a vida de todos nós, para a existência de cada um de nós.

Vejamos o que se passa com eles e connosco. Comecemos pelo fogo, por ter sido o que teve maior protagonismo neste trágico ano que se aproxima do fim. Segundo números que acabam de ser divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os fogos que este ano (até ao momento) deflagraram em Portugal, afectaram mais de 500 mil hectares de terrenos. E não foram apenas as florestas dizimadas.

Destruídas foram também as culturas agrícolas. Entre elas, 8,8 mil hectares de olival, 2,8 mil hectares de vinha e 2,4 mil hectares de culturas frutícolas – para citar apenas as mais expressivas, já que destruídas foram também muitos milhares de hortas que contribuíam, de forma decisiva, para a subsistência das populações do interior do País. O fogo matou também muitos milhares de animais domésticos – ovinos, bovinos, caprinos, galinhas, coelhos – e incontáveis animais selvagens.
Passemos à água. Estamos a viver a mais prolongada seca dos últimos tempos. A escassa chuva que caiu nas últimas horas em quase nada altera esta realidade. Nos campos, os animais domésticos definham e muitos morrem, apesar das tentativas
de lhes atenuar a fome e a sede.

Para os animais selvagens, ainda bem mais difícil é a sobrevivência, pelo que há espécies a ser dizimadas em proporções ainda difíceis de contabilizar. Vejamos o que se passa com os outros dois elementos: terra e ar. Quando as chuvas chegarem, vão cair nas zonas queimadas e arrastar os solos, provocando grande erosão e contaminando as linhas de água.

No que respeita ao ar, a poluição também se manifesta de forma de cada vez mais intensa, apesar dos alertas que as organizações de defesa do ambiente vão lançando. Tudo isto se conjuga para provocar um terrível desequilíbrio ecológico,
cujas consequências imediatas são graves, mas cujos efeitos no futuro serão ainda bem mais dramáticos.

Perante esta catástrofe anunciada, as entidades oficiais, em vez de tomarem medidas drásticas, limitam-se a ensaiar tímidas campanhas de sensibilização – nomeadamente no que toca a evitar as queimadas e a reduzir o consumo da água. As televisões (que gastaram milhares de horas a mostrar fogos até à exaustão!), já voltaram outra vez para as gigantescas doses de futebóis, em vez de gastarem algum tempo (como era sua obrigação enquanto serviço público) em campanhas
de sensibilização e de pedagogia cívica.

Talvez porque em Lisboa e nas principais cidades do País, a água continua a jorrar das torneiras, não falta fruta e legumes nos supermercados (mesmo que venham de outros países), não há desoladoras florestas de cinzas com corpos de animais em decomposição, nem planícies de erva seca com rebanhos a definhar.

Em Lisboa não se vê o interior do País a morrer aos poucos, talvez porque na capital do antigo império os quatro elementos vitais (salvaguardando honrosas excepções) não são os da filosofia grega, antes os da comédia lusitana: poder, dinheiro, influência, promiscuidade…

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)