Os noventa anos da tia Maria do Finfas

Nasceu em 1928 na Caniceira, paredes meias com a Tocha, e fez ali a 3ª classe, pois para as mulheres chegava bem, disse o pai quando a tirou da escola. E logo foi semear a floresta, entregue à guarda das mais velhas, por via dos adiantamentos dos rapazes, saindo os ranchos das aldeias todas as madrugadas.

E fala do receio que tinha quando ainda lusco – fusco passava junto às manadas das vacas bravas que por ali andavam a pastar, e a admiração que lhe fazia ver as pessoas pelo meio delas, sem medo, a “ajuntarem” os excrementos, que depois traziam nas carroças para semear os mimos.

Tinha então doze anos e ganhava vinte e cinco tostões por dia, contra os cinco escudos daquelas outras, importância que só igualou quando o capataz se apercebeu que ela desempenhava o mesmo trabalho. Ia fazer vinte anos quando casou com o tio Manuel do Finfas, que também era lá da terra e ainda lhe tocava na família, e lembra o seu jantar de casamento que constou de bacalhau com batatas e carneiro guisado. Com perfeita lucidez, conta as várias fases porque passava a dita sementeira e como o trabalho era distribuído aos grupos.

“Era tudo areias branquinhas e por elas se abriam os regos com os arados puxados por bois ou à enxada. Neles era metido o pinhão, que depois era coberto com mato e ramadas por via do vento não o levar. Os caminhos que se deixavam entre os talhões eram marcados pelos apontadores, e tudo era vigiado pelos guardas florestais, muitas vezes a cavalo”.

E diz também que se recorda da construção da estrada florestal e das vagonetas que eram montadas ao longo dos traçados, que faziam a remoção e o transporte das dunas de um lado para o outro.

O seu Manuel já partiu, e ela deixou, por isso, de o ir esperar pela beira-mar fora, fosse a que horas fosse – “pois as ondas são traiçoeiras” -, até que o avistava, com a cana de pesca às costas e o peixe no sarrico.

A tia Maria do Finfas, que faz hoje noventa anos, é um ícone desta Praia dos Palheiros como era conhecida, palheiros de que ela bem se lembra espalhados pelo areal. Ali vive há mais de sessenta anos e ali gostaria que os seus olhos um dia se fechassem. Quantas estórias a sua memória não guarda, e quantos testemunhos não pode ainda partilhar com quem se interesse por levar por diante a sua recolha e queira saber como foram as vidas das gentes que ergueram a Gândara! E é nestas alturas que não me canso de evocar Leopold Sangor quando dizia que um velho que morre é uma biblioteca que arde.

Autor: António Castelo Branco