Os heróis

“As armas e os Barões assinalados / Que da Ocidental praia Lusitana / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana. / Em perigos e guerras esforçados, / Mais do que prometia a força humana (…)”.

Assim começa Camões, em “Os Lusíadas”, o genial relato poético da epopeia dos portugueses. Deste povo extraordinário que é o nosso, que começou por assegurar, há quase nove séculos (mais concretamente a 5 de Outubro de 1143, pelo Tratado de Zamora), a independência nacional, depois de conquistar território aos Castelhanos e de o ampliar com as terras de que foi desapossando os Mouros, empurrando-os de volta a África.

Um povo que se sentiu espartilhado neste pequeno e pobre rectângulo do extremo ocidental da Europa e decidiu partir em busca de melhores dias, enfrentando os “Velhos do Restelo” internos e os “Adamastores” externos.

Em “cascas de noz”, que eram as caravelas, dizimados por tempestades e pelo escorbuto, rumando ao desconhecido, nessa saga que ficou conhecida como “Os Descobrimentos” e em que “deram novos mundos ao Mundo”.

Esses foram, inequivocamente, heróis, já que arriscaram a vida com uma coragem extraordinária, conseguiram feitos inimagináveis, tornando-se pioneiros daquilo a que hoje se chama “globalização”.

“Heróis do mar, nobre povo, Nação valente” – exalta o Hino Nacional (“A Portuguesa”, composta em 1890 com música de Alfredo Keil e letra de Henrique Lopes de Mendonça).

E heróis foram também os que rechaçaram, no início do séc. XIX, as três Invasões pelas forças francesas de Napoleão; e os portugueses que combateram na Flandres na I Guerra Mundial (1914-1918), dando mostras de uma extraordinária coragem face à sua impreparação, ao fardamento inadequado e ao obsoleto armamento.

Tal como heróis foram muitos dos que combateram nos 13 longos anos de uma dura Guerra Colonial em três frentes (Angola, Moçambique e Guiné), que causou cerca de uma dezena de milhar de mortes às nossa tropas, para além de ter destruído o futuro a muitas dezenas de milhares dos jovens que regressaram afectados para toda a vida (e sem que, até hoje, tenham tido o reconhecimento que lhes é devido, ao contrário do que acontece na generalidade dos países, onde os veteranos de guerra têm um tratamento que procura compensá-los do que tiveram de sacrificar).

Mas há muitos mais portugueses heróis. Por exemplo, os bombeiros que arriscam a vida no combate aos fogos florestais (cuja “época alta” aí está a chegar, trazida pelo calor, e a exigir redobradas cautelas de cada um de nós, para evitar tragédias).

Assim como os elementos das Polícias e das Forças Armadas que zelam pela segurança de pessoas e bens e pela ordem pública.

Ou como os pescadores, que diariamente se sujeitam aos perigos do mar para garantir a sobrevivência da família.

Ou os camponeses, que trabalham de sol a sol, enfrentando os caprichos da Natureza, mesmo quando são já muitos idosos e enquanto as forças lho permitem – agora ainda com maior sacrifício, pois a crise faz com que em boa parte dos casos tenham de ajudar os filhos e os netos.

Ou os “homens do lixo” que diariamente tratam da recolha de toneladas de detritos, num trabalho violento, pela noite dentro, que assegura as condições de higiene e salubridade dos cidadãos.

Ou aqueles profissionais de saúde dedicados, que não raro abdicam do descanso a que têm direito e da companhia da família para salvar vidas e atenuar sofrimentos.

Enfim, são muitos aqueles que fazem jus a serem considerados heróis. Coisa diferente é a histeria colectiva que por aí grassa, qual falta de senso epidémica, que dá para classificar como heróis (e tratar como se o fossem!) uns rapazes que têm jeito para dar uns pontapés na bola e que, por se dedicarem a essa actividade lúdica, ganham fortunas, maiores ou menores (algumas absolutamente escandalosas!) consoante o jeito e a sorte.

Parece que nos últimos dias (até nas últimas semanas) a Vida parou, que nada se passa no Mundo, pois a maior parte dos órgãos de comunicação social (com particular destaque para as televisões) só fala de futebol e de “importantes” assuntos conexos.

Enquanto isso, há verdadeiros atletas, amadores, em diversas modalidades desportivas, que, graças a intenso trabalho e muitos sacrifícios, vão conquistando bons resultados e medalhas, mas quase não aparecem nas notícias.

Neste surto de “futebolite aguda” que está a assolar o País, já só falta mesmo mudar a letra do Hino (pode ser que assim os jogadores da Selecção Nacional a aprendam…) e decidam alterar o final de “Contra os canhões, marchar, marchar”, passando a terminá-lo cantando: “Contra as balizas, chutar, chutar”!…

Autor: Jorge Castilho