Os favoritos também perdem…

Um pouco por todo o Planeta, milhões de pessoas acompanham, de forma mais ou menos entusiástica, o Campeonato do Mundo de Futebol que está a decorrer na Rússia.

Mesmo os que não são grandes adeptos do pontapé na bola, seguem o desenrolar dos resultados – quanto mais não seja por uma questão de patriotismo.

(Portugal lá conseguiu passar à fase seguinte, indo disputar a continuidade amanhã, sábado, contra o Uruguai).

Pena é que estes incontáveis milhões de espectadores não se detenham em alguns aspectos marginais da competição, que bem merecem reflexão.

Um deles tem a ver com o exemplo dado por muitos adeptos de dois países, um da Ásia e outro de África (Japão e Senegal), que, após os jogos disputados contra outras equipas, ficaram a limpar as bancadas dos estádios, para espanto dos outros espectadores – e também dos organizadores.

A verdade é que os bons exemplos são pedagógicos, como se conclui do facto de muitas pessoas de outras nacionalidades terem sido influenciadas, não só ajudando na limpeza, mas sobretudo reconhecendo a necessidade de fazerem menos lixo e, sobretudo, de não lançarem os resíduos para o chão, antes os depositando nos receptáculos adequados.

Em flagrante contraste, as imagens das “fan zones” criadas em várias cidades portuguesa, quando os adeptos retiravam, após os jogos, ostentavam um espesso manto de lixo abandonado…

É tudo uma questão de educação e de civismo – ou da sua ausência…

Ora, infelizmente, não é só em relação ao lixo que Portugal tem um défice de boa educação.

Os debates na Assembleia da República, onde alegadamente estão “os representantes do povo”, não raro dão um condenável exemplo de falta de civismo, substituindo o salutar debate de ideias por intervenções agressivas, às vezes mal educadas, transformando o Parlamento num “campo de jogos”. Esta “clubite” partidária nada traz de positivo para a defesa dos direitos do povo que elegeu os senhores deputados – e que é quem lhes paga!…

Ainda anteontem (quarta-feira), uma questão que deveria merecer alargado consenso entre os partidos com representação parlamentar, por ser uma das mais graves que o nosso País enfrenta, foi pretexto para ataques e contra-ataques de cariz partidário, perdendo-se tempo com o acessório, quando importava pôr o foco no essencial.

Estou a referir-me ao debate sobre a natalidade e à necessidade de se estabelecer um consenso de forma a tomar medidas eficazes para combater o declínio demográfico de Portugal – somos de cada vez menos, estamos de cada vez mais velhos, aumentam as ameaças para a sustentabilidade da segurança social.

Ora a verdade é que, em lugar do tal consenso, se assistiu a uma acalorada troca de acusações entre os partidos da dita “esquerda” e da chamada “direita”.

Não importa dissecar, aqui e agora, o que cada um dos deputados argumentou – e se os respectivos argumentos eram pertinentes.

Importante é sublinhar que o tal consenso não só não se conseguiu, como tudo aponta para que ele se revele inexequível.

Aliás, eloquente demonstração da importância que alguns dos senhores deputados concedem a esta questão, até está mais nas ausências do que nas presenças. Segundo números divulgados pela agência LUSA, cerca das 16 horas de quarta-feira, quando decorria o debate cujo tema fora proposto pelo PSD, nas bancadas deste partido estavam apenas 35 dos seus 89 deputados!…

É justo que se diga que as mais sólidas propostas já vindas a público sobre esta questão, foram exactamente as de Rui Rio, o novo líder social-democrata. Mas nem assim muitos dos seus deputados se dispuseram a defendê-las…

Voltando ao futebol, costumava dizer-se que “este jogo é de 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha!”. Ora, desde anteontem, já não é assim. A Alemanha (campeã mundial em título) perdeu com a Coreia do Sul e foi eliminada.

É bom que os políticos, que tanto gostam de futebol, atentem nesta realidade e façam um exercício de analogia. Na política, como no futebol, não há vitórias garantidas. E quem não desempenha bem o seu papel, corre sério risco de, mais cedo ou mais tarde, ser penalizado com a derrota…

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)