Ópio do povo

Portugal ainda é o país dos três éfes. Futebol, Fátima e Fado, pilares da ditadura de Salazar, distracções populares vivamente cultivadas para desviar, na altura, as atenções dos problemas de uma população à míngua e de uma nação atrasada várias décadas da senda do progresso, estão hoje tão ou mais vivos do que no tempo da velha senhora (ou do velho senhor, o que, para o caso, é o mesmo).

Talvez porque, uma vez mais, vivemos os mesmos problemas — para os quais, embora sejam já velhos e conhecidos, os nossos governantes continuam sem vislumbrar solução. Portugal tem cada vez mais gente a passar fome, sem emprego e com dúbio acesso àquelas que dizem ser as garantias da nossa democracia.

No entanto, é este povo que, ao invés de se manifestar por melhores condições de vida, de se congregar na luta pelos seus direitos, prefere encontrar escape na euforia de vitórias sem significado (conseguidas por clubes de FUTEBOL lá das grandes cidades, com os quais a esmagadora maioria não tem quaisquer ligações históricas ou geográficas), que depois encontram eco nos órgãos de comunicação, que fazem directos de horas sem fim (ou primeiras páginas) das festas de comemorações dos títulos e das taças.

Paralelamente, FÁTIMA atinge recordes de fama e visitantes, mesmo com os recorrentes acidentes com os peregrinos na tradição de lá chegar a pé (e voltar de autocarro), tendo já, a um ano da comemoração do centenário das aparições, toda a sua oferta hoteleira esgotada para o 13 de Maio do ano que vem, confirmando a fé de um povo, mas também garantindo o negócio de milhões, pormenor que, convenhamos, diminui bastante a grandeza do lugar.

Da trilogia dos ópios do povo, apenas um não é consumido em doses exageradas. E antes fosse. Tirando honrosas excepções no panorama artístico nacional, o FADO vai perdendo representantes e amantes, sendo lentamente substituído pelos hip-hops, kizombas e kuduros, os quais, sem discutir a qualidade musical (que não é possível discutir), têm muito menos identidade nacional.