O solicitador taxista

Um solicitador que é taxista nas horas vagas. A conjugação destas profissões pode parecer insólita, mas para João Paulo Pessoa Bento é totalmente conciliável e ainda uma forma de se sentir realizado e sempre motivado.

Natural de Cantanhede, João Bento cresceu em Febres (lugar das Lagoas), terra natal dos pais Licínio de Jesus Bento, limador de profissão e sacristão da Paróquia local, e Maria Elizete Pessoa Martins, doméstica e agricultora.

Por Febres fez a escola até ao 9.º ano, tendo seguido o Ensino Secundário no Colégio IPSB, em Bustos, “porque tinha uma boa reputação e a minha irmã já lá tinha estudado”.

Nesta altura, partilha, “seria o momento de adiar o serviço militar por motivos de continuação dos estudos mas não o fiz porque queria abraçar esse desafio. Servir a Pátria, sentir e viver essa realidade e crescer com essa experiência”.

Assim, em 1999 inicia o serviço militar obrigatório no Regimento de Artilharia 4, em Leiria, seguindo depois para o Arquivo Histórico Militar, no Estado-Maior do Exército, onde permaneceu nos 7 anos seguintes como militar contratado.

No Estado-Maior do Exército trabalhou na secretaria-geral, onde desempenhou funções de secretariado, gestão de pessoal e logística, protocolo, entre outras. “No geral, funções práticas muito válidas para a minha vida actual”.

Ao mesmo tempo, e como forma de aproveitar o tempo e aprofundar conhecimentos para concorrer a eventuais concursos e oportunidades internas e externas que viessem a surgir, concorreu ao Ensino Superior, onde descobriu a Solicitadoria.

Durante 4 anos, o tempo foi passado entre o serviço militar e a faculdade. “Sem nunca prejudicar o meu serviço e a minha condição de militar, noite após noite, após cumprir as minhas funções, ia para as aulas no Instituto Superior de Ciências da Administração, em Lisboa. Depois das aulas lá regressava ao quartel onde pernoitava numa companhia com cerca de 200 camaradas, no Batalhão de Adidos, em Sacavém”.

No entanto, logo no início desta “etapa dupla”, acabou por viver um dos momentos mais dolorosos e marcantes da sua vida, com a morte da mãe. “Venho de uma família unida e, por isso, quando descobrimos que a minha mãe tinha cancro quis estar por perto e quis suspender tudo e voltar para casa, para a ajudar e estar perto da família”, começa por explicar ao AuriNegra, visivelmente emocionado.

“No entanto a minha mãe pediu-me para não parar, quis que continuasse o meu caminho porque isso era o seu gosto e era o que desejava de coração. Pediu-me para ficar em Lisboa e lutar por lá, enquanto ela lutava por cá numa batalha ainda mais dura. Embora tenha lutado com determinação até ao último momento, acabou por não vencer essa batalha. Cada vez que vinha de fim-de-semana eram muitas despedidas sem saber o dia de amanhã. No final, ela esperou por mim para se despedir, mesmo antes de falecer”.

Esse período, recorda, “foi muito duro mas também uma lição. Ainda hoje, sempre que existem momentos de solidão e de dificuldade, penso na luta da minha mãe e que existem sempre obstáculos piores e lá vou ganhando força para continuar o caminho, às vezes complicado, tentando manter a cabeça erguida”.

Cumprindo o desejo da mãe, João Bento termina o curso nos 4 anos regulamentares começando logo de seguida o estágio, com a duração de 1 ano e meio, para a então Câmara dos Solicitadores (agora Ordem dos Solicitadores e Agentes de Execução).

Ainda por Lisboa, tentou concorrer a vários concursos públicos relacionados com o serviço militar, incluindo para a Polícia Judiciária, um sonho de há muito, que não conseguiu realizar.

“Embora a vida em Lisboa fosse aliciante e um mundo de oportunidades, a minha terra é a minha terra e, por isso, escolhi voltar para perto da família – que sempre foi o mais importante, e começar do zero um escritório próprio de solicitadoria em Cantanhede”.

Durante 8 anos o negócio ficou por Cantanhede, mas desde 2016 que passou o escritório para Coimbra, “de forma a alargar o universo de clientes e o âmbito de actuação e de expansão da actividade”. Pelo meio continuou a investir na formação, através de 3 pós-graduações.

“Agora trabalho com uma rede de colaboradores e em equipa, pois só assim tudo se pode desenvolver e crescer. A verdade é que no Estado-Maior do Exército estava habituado a trabalhar em equipa, depois passei a trabalhar sozinho e nem sempre foi fácil, daí ter escolhido dar o salto”, explica.

Além dos serviços prestados no escritório, ajudar os clientes é, para João Bento, “uma função diária”. Embora o mundo dos documentos seja um pouco ingrato, porque nem tudo depende de nós, dar o máximo é sempre o meu lema, tentando resolver o maior número de problemas que surgem. Apesar de todos os desafios e de as coisas nem sempre correrem como o esperado, fico orgulhoso por, no final 99% dos clientes ficarem meus amigos, sendo que os restantes 1% nem sempre vêem as coisas de forma realista, mas a vida é assim”.

Ao longo dos dez anos de carreira como solicitador, o mais enriquecedor, refere-nos, tem sido conhecer muitas pessoas. “Sou uma pessoa que anda sempre a mil! Com o tempo e as pessoas que conhecemos, surgem oportunidades que geram oportunidades e negócios que atraem negócios”, e foi assim que surgiu a sua mais recente aventura como taxista em Febres.

“Isto era um negócio de um amigo, a quem um dia eu sugeri, em conversa, que, se quisesse deixar o lugar, que me falasse. Entretanto, e infelizmente, ele faleceu e eu tive a oportunidade de ficar com o lugar na praça. Após ponderar muito decidi arriscar e, com o apoio do meu pai, da minha esposa e de toda a família, lá se iniciou mais um desafio”. No início foi necessário um grande investimento, criar empresa própria, efectuar a formação necessário, comprar o carro, etc. Agora, um ano depois do início desta aventura, a escolha não podia ter sido mais certeira e o solicitador-taxista lá vai evoluindo.

“Conduzir sempre foi uma paixão e acabava sempre por ser um escape ao stress do dia-a-dia e das idas ao escritório. Se como solicitador conheço muitas pessoas, como taxista acabo por conhecer ainda mais e isso é muito positivo e a melhor parte é que assim regressei a Febres”.

Conciliar as duas profissões só é possível, no entanto, porque é taxista num meio pequeno. “Aqui o táxi é um serviço para resolver uma necessidade e trabalho essencialmente por marcação prévia, sendo o período de mais movimento, de madrugada até às 15h00. Os meus clientes são essencialmente séniores que precisam de ir para as suas consultas, e não têm carro ou experiência a conduzir em cidade. Também faço muitos transportes para os aeroportos, assistência em viagem e algum público mais jovem solicita-me quando vão sair e preferem não conduzir”.

Por regra, nos períodos mortos, vai ao escritório ou aproveita intervalos entre viagens para fazer o serviço externo do escritório e para reuniões com os clientes. “Há dias calmos outros agitados, uns mais curtos, uns mais longos. Mas tem-se conseguido conjugar o trabalho”.

Pela experiência de João Bento, “o táxi é, para além de um serviço, um ponto de encontro, um local de confidências, de criação de laços, de desabafos, de partilha de tristezas e angústias, de partidas e chegadas de viagem marcadas pela saudade, um abrigo para muitas pessoas que não têm ninguém que as apoie”.

Mas também, acrescenta, “de momentos felizes, de reencontro, de partilha de sentimentos, de experiências, de dar ‘conselhos’ que aliviam e que dão esperança na resolução de alguns problemas”.

Ao longo dos últimos anos, João Bento diz que tem vindo, cada vez mais, a acreditar que “somos aquilo que damos aos outros a cada momento, fruto das nossas vivências, das experiências vividas e pelo caminho percorrido. Muito para além da profissão, do título académico, da posição e influência que se possui, da viatura que utiliza, o fundamental é sermos simples, humildes e verdadeiros, realmente pessoas com bom coração, isso faz toda a diferença. Nem todos os solicitadores são iguais, nem todos os taxistas são iguais: a diferença está na pessoa que se é e como se dá, em cada momento, aos outros. Somos o que damos e não o que temos”.

 

“Sempre fui assim, ao longo dos últimos anos, tanto no associativismo, como em projectos religiosos, culturais e desportivos em que participei, principalmente na Póvoa da Lomba, onde vivo por ser a terra da minha esposa Bruna Ascensão, com quem tenho a princesa Maria Eduarda, de 5 anos. Na política, sempre tentei dar o máximo, sobretudo dar um pouco de mim aos outros, alcançar objectivos, realizar projectos. No final de contas, em cada actividade, em cada passo, sentir que apesar de nem sempre ser fácil, vale sempre a pena construir algo e que um dia tudo fará sentido”.