O Santo Entrudo na Gândara

Desde sempre me interroguei com o atributo de santo que na minha terra era dado ao Entrudo, enquanto recordo o bater da maozota no pesado portão, ao mesmo tempo que ouvia, pelo pátio fora, o ladrar dos cães a correrem com os andrajosos pedintes e o específico pedido daqueles nesse dia: “um bocadinho de carne para o Santo Entrudo”. Na cozinha, estavam já partidos vários nacos de toucinho salgado, pois a matança acontecera pelo Natal, os pobres que vinham eram sempre muitos e havia que contentar todos. Com uma mão seguravam o saco às costas e com a outra um espeto de vime com que furavam a carne que iam mostrando pela rua fora, até chegarem a outra e outra casa onde admitiam que pudesse haver uma salgadeira. “O Entrudo era sôfrego e morreu com um pedaço de carne atravessado na goela”, eram as palavras que o Catuto pronunciava cada vez que lhe traziam a esmola, logo acrescentando que não se iria entalar com ela não, pois era a mãe que a repartia pelas bocas todas que lá havia em casa, depois de temperar o caldo. “ Padre Nosso…” Na Gândara, onde isto acontecia, não havia dia de Carnaval, havia dia de Entrudo, um dia em que os rapazes se vestiam com roupas de mulher e se enfarruscavam com a fuligem das chaminés. Era o dia em que as nossas aldeias eram visitadas pela Músicas do Inferno, onde apenas dois ou três sabiam o que tocavam e os restantes, às vezes mais de cinquenta, só assopravam nos instrumentos velhos, tendo como mestre o Manel da Pata, um autêntico malabarista, que carregava tudo quanto era latas e quinquilharias que fizessem barulho quando ele saltava e fazia piruetas à frente da sua banda. E, em cada lugar onde parasse, fazia questão de mostrar às pessoas um frasco com as bichas que os filhos haviam “largado” graças ao remédio milagroso que ele próprio inventara com a ajuda do Santo Entrudo.

Aqui nunca se enterrou o Entrudo como ainda hoje acontece na Nazaré, em Samora Correia, na Cardanha e noutras terras por aí fora. Pelo contrário, sempre se procurou mantê-lo vivo como um elo de alegria e daí andar na boca da gente pelas mais variadas razões: é aquele que se mostra mal apresentado e parecer um Entrudo, é aquele Entrudo que não tem jeito nenhum, e até aquele que é mais feio que um Entrudo. Paciência, Deus quando criou o Mundo deixou-o composto de tudo, até de Entrudos fora do tempo.

António Castelo Branco

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