O sal e as nossas estórias

Dantes, por este tempo, ouvia-se por estas terras fora o toque do búzio. Era o tio Luziáiro da Camarneira com o carro dos bois cheio de sal, que antes o tinha ido buscar a Aveiro. E as pessoas mandavam-no parar às portas e compravam-lhe um, dois alqueires, consoante o tamanho do porco da ceva que estava no curral e que por essa altura era morto, tendo sempre em atenção as luas. Por isso, havia que fazê-lo no minguante se fosse uma fêmea, pois podia andar ”tola” e a carne ficar mal “paladosa”, o que não acontecia com os machos que eram capados em pequenos!

O frio que se fazia sentir era também ele necessário, pois o animal tinha que ficar pendurado, a escorrer de um dia para o outro e não podia haver mosca varejeira! Só então era desmanchado, envolvido em sal e metido na salgadeira, para assim ser consumido pelo ano fora. É que a carne ensanguentada não se comia, à excepção das miudezas com que o matador pacientemente sempre fazia o “sarrabulho” para o almoço, um dos pratos mais deliciosos e carismáticos da nossa Gândara.

De facto, sem sal não podia haver matança, e esta sempre foi por aqui uma festa que reunia a família e os amigos. E o que acontecia com a carne acontecia com o peixe. Com efeito, a sardinha, o carapau, a cavala e o chicharro que não fossem comidos no dia em que eram pescados, só salgados podiam ser conservados. E quantos deliciosos manjares não apareceram nas nossas cozinhas a partir deles? E é nesta altura que nos vem à memória a imagem da tia Seixeira do Covão do Lobo, quando não conseguindo vender todo o peixe fresco que o seu burro carregava nas canastras, mal chegava a casa amanhava-o, metia-lhe sal e no dia seguinte, lá voltava prá rua com o pregão: ”Sardinha fresca de Mira”. E para descargo da sua consciência, concluía em surdina: Já o foi!!!.Isto diz do nosso património espiritual.

Penso que caberá agora, sem exaustão evidentemente, falar um pouco mais acerca do sal, ele que por aqui tanto foi utilizado ao longo dos tempos sem que se ouvisse falar da sua história e das suas estórias. Vai daí: as suas origens remontam às mais antigas civilizações, com indícios da sua extracção na China, no Egipto e na Índia desde há mais de 6000, 3000 e 7000 mil anos a. C. respectivamente, através da sua extracção por evaporação da água do mar. No território que é hoje Portugal ela recua ao tempo dos romanos, havendo igualmente notícia desse procedimento nas margens da foz do Mondego, desde o tempo de D. Afonso Henriques e depois ao longo de outros  reinados a partir da construção de salinas e da consequente exportação, dada a qualidade do sal português. Consideravam os romanos que o sal era o símbolo da sabedoria, vendo nele uma substância vital à sobrevivência do homem, falando-se da cerca de 14 mil usos e aplicações simbólicas. Longe de imaginarmos esse tão grande número e depois de deixarmos em evidência a sua aplicação por alturas das matanças e da salga do peixe aqui pelas nossas terras, há dois episódios na nossa história que atestam a sua utilização aquando da aplicação da justiça. Um deles remonta ao tempo de D. Pedro I, quando Inês de Castro foi executada por sentença de D. Afonso IV que teve de entre os três conselheiros responsáveis por tal acto Pêro Coelho, que era natural do Jarmelo na Guarda, povoação que D. Pedro mandou cobrir com sal, depois de com raiva lhe ter arrancado o coração pelas costas.

O outro episódio aconteceu no decurso da execução dos Távoras, em Belém, onde o cadafalso foi erigido. Para que ali nem sequer despontasse a sua memória o espaço onde eles sucumbiram foi todo ele salgado. E é por isso que ainda hoje ali está o Beco do Chão Salgado! Estes são dois exemplos acontecidos entre nós. Mas a História contém inúmeras cenas onde a presença do sal acompanhou momentos menos dignos das sociedades. E deles são exemplo as informações de arrasamento e devastação após uma batalha, após uma rendição após uma execução de condenados. Terras ou lugares onde aquelas aconteciam, eram no final cobertos com sal, para que nunca mais ali crescesse nada.

Autor: António Castelo Branco