O professor escritor

Fernando Manuel Ferreira Catarino nasceu a 21 de Janeiro de 1955, no lugar dos Cabeços, em Febres. Com uma já longa carreira na docência, deixou para trás o Conservatório Nacional sem, ainda assim, nunca deixar de alimentar a sua paixão pelas artes. Em 2016 lançou o seu primeiro livro, que tem apresentado por várias escolas do País.

Diz a sabedoria popular que só temos uma vida completa quando plantamos uma árvore, escrevemos um livro e temos um filho. Se este provérbio fosse regra, Fernando Manuel Ferreira Catarino seria um homem completo, ou não fosse o seu desejo de ir mais além e continuar a desafiar-se.

Fernando Catarino nasceu em casa, nos Cabeços (Febres), num dia frio de Janeiro de 1955, numa altura em que grande parte das pessoas vivia apenas daquilo que a terra brotava.

Oriundo de uma família “remediada”, o febreense foi um privilegiado numa aldeia onde grande parte das crianças ia descalça para a escola. “Acabei por brincar muitas vezes sozinho, porque os meus colegas saiam das aulas e iam ajudar os pais na agricultura. Eu tive uma infância mais normal, desse ponto de vista. Ia escola, brincava, lia”.

O pai – Celestino da Conceição Fernandes Catarino – era ourives ambulante e, por isso, passava muitos dias ausente. Já a mãe – Maria Pinhal Ferreira – era doméstica e a responsável pela educação dos filhos e a manutenção da casa. Os avós maternos tinham também uma presença muito importante na vida de Fernando e do seu irmão (mais velho).

“O meu avô, Manuel Gomes Ferreira, foi feitor do arcipreste e tinha alguma influência. Eu acabei por ter uma infância privilegiada porque tinha colegas que iam para a escola com broa com bolor e uma sardinha para a merenda e eu levava pão com fiambre ou ovo. Eram muitas as vezes em que trocava a marmita com eles”.

Quando tinha 9 anos, a família muda-se para a Aldeia do Bispo (em Penamacor), onde o pai já vendia como ourives ambulante, e montam negócio próprio. “E foi aí que ganhei uma verdadeira paixão pela Beira Baixa (Interior)”, partilha. Embora tivesse deixado Febres para trás, Fernando Catarino refere que não poderia ter sido mais bem recebido na pequena aldeia beirã: “As pessoas eram diferentes, porque era uma zona muito agrícola e de latifúndios, mas criei laços muito fortes e fui muito bem aceite na comunidade”.

Aos 12 anos dá-se mais uma mudança, desta vez com a ida para um colégio interno na Guarda, onde permaneceu até aos 17. “Mais uma realidade diferente, porque era um colégio com muitas regras. Eu escrevia imensas cartas aos meus pais e eles, sempre que podiam, visitavam-me e fazíamos piqueniques”; recorda nostálgico.

Na altura de seguir para o Ensino Superior a escolha recaiu inicialmente sobre o Politécnico da Covilhã, onde entrou em Contabilidade. No entanto, decide mudar para o ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão), em Lisboa, onde conclui Gestão de Empresas.

Nessa altura, frisa, o objectivo era estudar para ser capaz de criar empresas, “para arranjar emprego às pessoas. Tinha isso muito definido. Queria ser administrador e queria algo relacionado com pessoas, porque sempre gostei de lidar com elas e contribuir para a sua educação e formação. Preservo e respeito muito a humanidade e o humanismo”.

Dos tempos de faculdade, as recordações são boas, mas a vida académica, assume, não foi uma experiência muito motivante. “Não gostei muito de andar na faculdade, porque era uma meio muito politizado”, afirma, caracterizando-se como “um homem mais ligado às pessoas do que às ideias políticas”.

Decidido a ser independente financeiramente, Fernando Catarino inicia a sua carreira profissional por Lisboa, numa empresa de publicidade. Porém, nessa mesma fase, começa a conviver com pessoas do meio do teatro e da música, e como desde sempre tinha estado ligado às artes, decide despedir-se do emprego e entrar para o Conservatório Nacional. À época, já ia imensas vezes ao teatro, aos concertos no S. Carlos, e era um apaixonado pela escrita, que praticava desde petiz.

Quando contactou a mãe para lhe falar da decisão, “ela não ficou nada agradada com a ideia”. Já o pai, refere, não sabe se algum dia sequer chegou a saber dessa aventura, que acabou por durar apenas um ano, “pois o dinheiro começou a acabar e tive que voltar a trabalhar”.

Quando o convite para dar aulas apareceu, Fernando Catarino não hesitou. “A ideia de partilhar conhecimento agradava-me muito, principalmente porque sabia muito bem o género de professor que gostava de ser e que era muito diferente daqueles que tive”, começa por explicar. E foi assim que iniciou a vida na docência, em escolas públicas de Lisboa, onde leccionou Economia, Fiscalidade, Gestão e até Sociologia.

Sem nunca desistir de uma carreira mais virada para o universo empresarial e administrativo, concorreu à Segurança Social de Castelo Branco, onde ficou como Técnico Superior de Administração, a liderar uma secção responsável pelos apoios e projectos de IPSS.

Aos 20 anos

Nessa altura, Fernando Catarino já tinha casado com a primeira mulher e era pai de três filhos. A família estava por Cantanhede e ele vinha todos os fins-de-semana. Mudou novamente de vida para acompanhar a família de mais perto. E voltou ao ensino. Mais tarde, “e por engano”, como refere entre risos, acabou por concorrer à escola de Cantanhede e foi aceite. “E lá vim eu de volta. Cheguei a montar uma empresa de consultadoria que não resultou e embora me tenha divorciado pouco tempo depois, acabei por ficar para acompanhar os meus filhos”.

Ao longo dos últimos anos, deu aulas em Penacova, na Mealhada, em Coimbra (na Escola Secundária D. Duarte), na Tocha e em Cantanhede, onde se mantém como efectivo há 15 anos.

Embora goste de ser professor, Fernando Catarino confessa-se “um pouco desiludido” com o rumo que o ensino tem vindo a tomar em Portugal. “Tornou-se bem diferente daquilo que eu queria e esperava. Sou um professor exigente, que gosta de respeito na sala de aula e de promover as questões e o sentido crítico nos alunos e isso é cada vez mais difícil”.

Com uma vasta experiência não só na docência mas também no que diz respeito a administração, o febreense concorreu à gestão da escola. “Tinha ideias muito boas para desenvolver, mas infelizmente a bagagem que tenho adquirido, nas mais variadas áreas, não foi suficiente para me atribuírem esse papel”, revela, acrescentando ter “alguma tristeza e pena”.

Fernando Catarino, que entretanto tirou uma especialização em Administração Escolar na Bissaya Barreto, não poupa

críticas à forma como as escolas estão a ser geridas. “O estado demitiu-se da função de educar os cidadãos em função do País e isso terá consequências graves para a própria sociedade”.

Actualmente, e embora esteja efectivo no agrupamento Lima-de-Faria de Cantanhede, Fernando Catarino ficou com horário zero e dá aulas no âmbito do programa Qualifica, um projecto do Governo que tem como finalidade melhorar os níveis de educação e formação dos adultos.

“É um novo desafio que tem vindo a surpreender-me. São pessoas que estão inscritos porque querem e, só por isso, já vão com outra disposição e motivação”, frisa.

O dom da escrita

Com o regresso a Cantanhede, Fernando Catarino deixou de lado a ideia de voltar para Penamacor – onde ainda tem a mãe, amigos e muitas, muitas memórias –, mas ganhou a companhia dos filhos e também um novo amor: Manuela Grazina, investigadora da Universidade de Coimbra.

“Conhecemo-nos numa formação para alunos e formadores em Oliveira do Hospital. Um amigo meu convidou-me para ir e insistiu tanto que eu acabei por ir. Assim que comecei a assistir à palestra fiquei encantado com o à-vontade e a forma simples como a Manuela falava de coisas complicadas e complexas de forma tão simples”, explica. Primeiro surgiu o convite para fazer uma palestra na Escola Secundária de Cantanhede, depois um café e depois uma história que junta infâncias semelhantes, muitos gostos em comum e uma grande cumplicidade.

Com efeito, foi numa conversa sobre a infância da investigadora que Fernando Catarino teve a inspiração para um livro que ganhou vida há cerca de um ano: “A Mimi e a Fada Flora”. “A ideia é ser uma trilogia. Já estou a escrever o segundo e o primeiro tenho vindo a apresentar em várias escolas primárias do País, o que me tem dado imenso gozo”.

A obra, com ilustrações de Inês Prazeres, “é inspirada no sorriso e na infância da Manuela e personifica o desejo de os adultos desenvolverem e preservarem os dons da bondade e da alegria das crianças, e a importância do conhecimento e do saber na vida com humanidade. É um projeto pessoal, singelo, mas que enche a alma de sorrisos, numa doce partilha de afetos”.

Embora o livro seja um projecto recente, o gosto pela escrita já vem de há muito. “Talvez porque passava muito tempo

sozinho, em miúdo eu lia muito. Por exemplo, aos 7/8 anos já conhecia a obra de Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha, entre outros clássicos. Quando a biblioteca itinerante vinha a Febres eu ia sempre buscar imensos livros e continuei a fazê-lo em Penamacor”, explica, para acrescentar que o gosto pela escrita começou um pouco mais tarde: “Comecei por escrever um livro de ficção científica, tinha uns 13 anos. Era sobre uma invasão extraterrestre, histórias que criava na minha cabeça. Depois disso, passei a escrever também letras de músicas, poesia, memórias, crónicas…Um pouco de tudo”.

Outro dos gostos que Fernando Catarino tem, e que partilha com a companheira, é o restauro de móveis antigos. “Adoro coisas antigas e dar-lhes uma nova vida. É algo que costumamos fazer juntos”, afirma. A agricultura é outro prazer e, como tal, sempre que conseguem, metem “mãos à obra e plantamos umas coisitas”. “Embora viva na cidade há muito tempo, continuo a ser muito ligado ao mundo rural, e o meu objectivo é restaurarmos a casa do meu avô, em Febres, e fazermos lá uma hortinha”.

Por enquanto, o casal vive em Coimbra e prepara-se para um Natal especial, um dos filhos vai ser pai e a família Catarino vai aumentar.