O prazer de descobrir

Mulher, mãe, professora, neurofarmacologista, investigadora… Cláudia Cavadas é tudo isto e muito mais. O seu dia-a-dia divide-se entre mil e uma tarefas que desenvolve sempre com um sorriso na cara, como aquele com que nos recebeu para uma longa conversa na Casa de Chá do Jardim da Sereia, em Coimbra, a cidade onde vive actualmente e onde tem vindo a construir uma carreira de sucesso na área da investigação da farmacologia.

No entanto, apesar de viver há vários anos na cidade dos estudantes, foi em Cantanhede que a investigadora se fez menina e depois mulher.

4 anos
Com 4 anos

A mãe, Margarida Gonçalves Cavadas, é natural de Cascais e, como a investigadora nos diz, foi por mera coincidência que acabou por nascer na Costa Dourada. “Numas férias, a minha mãe acabou por me ter em Cascais mas vim logo para Cantanhede, a terra natal do meu pai [José Cavadas, natural de Labrengos, Covões] ”, começa por explicar, acrescentando que sempre que lhe perguntam diz ser, orgulhosamente, cantanhedense. “Sou de Cantanhede e é de Cantanhede que me sinto”, partilha com alegria.

Na verdade, é da cidade bairradina que guarda as principais recordações da sua infância. Tempos, como nos diz, pautados por uma grande liberdade e, acima de tudo, por uma grande felicidade. “Nessa altura aproveitávamos todo o tempo possível para andar na rua. Eu adorava andar de bicicleta … Corria vários pontos do concelho sobre duas rodas. Volta e meia andava toda arranhada e esmurrada por causa das quedas mas continuava em aventuras mesmo assim”.

Outros momentos que recorda eram as sessões de cinema no antigo salão dos Bombeiros Voluntários de Cantanhede e as apresentações de teatro da Casa do Gaiato. “Coisas simples que nessa altura nos alegravam e entretinham”, frisa.

Desde pequena muito criativa, Cláudia Cavadas chegou ainda a frequentar, durante vários anos, aulas de pintura com a artista Mimi Patrão. “Aprendi a desenhar e a pintar a carvão e a pastel”, diz-nos. Em simultâneo, e a somar ao “jeito” para as artes, também era bastante astuta com números.

14 anos
Com 14 anos

“Sempre gostei de matemática, era algo de família, parece-me”, conta-nos, acrescentando que os irmãos – um irmão e duas irmãs – também acabaram por, curiosamente, seguir carreiras ligadas às Ciências.

A relação entre irmãos, refere, era boa, porém, pela diferença de idades [tem vários anos de diferença tanto dos irmãos mais novos como dos mais velhos], passava grande parte do tempo em brincadeiras com o mesmo grupo de amigos que a acompanhou até ao Ensino Secundário.

As férias eram passadas entre Cascais e Cantanhede. “Costumávamos também ir muitas vezes para a piscina do Grande Hotel do Luso. Os pais, os irmãos, os primos … Era muito divertido. Aprendi a nadar aí”, recorda, acrescentando que o destino de férias mudou aos 12 anos, quando os pais compraram casa na Praia da Tocha.

Agarrar as oportuniddes

Estudiosa e curiosa desde cedo, quando chegou a altura de decidir que curso escolher no Ensino Superior, Cláudia Cavadas já tinha uma certeza: seria Ciências Farmacêuticas.

A opção, como nos conta, foi tomada ainda no oitavo ano. “Nessa altura nem tinha nenhuma preferência mas um dia fomos fazer uma visita com a escola à antiga fábrica da Bayer, em Coimbra, e eu fiquei encantada, principalmente porque houve uma farmacêutica que me deu muita atenção e que me mostrou aquilo que fazia”.

A cantanhedense era aplicada nos estudos. “Era muito extrovertida mas também muito estudiosa. Adorava estudar e as boas notas que tinha eram resultado de muito trabalho”, afirma.

Anos depois, quando entrou finalmente para Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra, Cláudia Cavadas mudou-se para a cidade dos estudantes. “Foi uma época muito boa, em que me senti totalmente integrada. Participava nas festas académicas mas continuava também a ser uma ‘pequena marrona’. Tinha a capacidade de me concentrar sempre que necessário”.

Chegado o estágio curricular, a neurofarmacologista escolheu a área da indústria – “ainda tendo como lembrança a excursão à Bayer”, e foi para a empresa LusoFármaco em Lisboa. No entanto, o estágio acabou por não corresponder às expectativas que a investigadora tinha criado e foi por isso que, quando surgiu uma vaga na Universidade como assistente estagiária, decidiu arriscar.

“E embora nunca tivesse pensado ser professora, acabei por ser escolhida”, partilha, para acrescentar: “Nessa altura pensei que era uma boa forma de juntar o útil ao agradável pois apercebi-me que gostava realmente muito de estudar e essa era a melhor oportunidade para tirar o mestrado e depois o doutoramento. Não foi nada programado, foi mesmo agarrar a oportunidade”, partilha.

Depois de terminar o Mestrado em Biologia Celular e Molecular, Cláudia Cavadas decidiu abraçar outra oportunidade, mas desta vez além-fronteiras.

“Entretanto, o meu marido conseguiu uma bolsa para tirar doutoramento na Suíça e eu nessa altura, tinha a minha primeira filha apenas meia dúzia de meses, ainda pensei ficar cá mas depois decidi ver se conseguia arranjar algo e acabei por também conseguir uma bolsa”, diz-nos. De malas feitas, a família foi então para Lausanne, onde ficaram durante três anos.

Essa é uma fase que Cláudia Cavadas considera ter sido bastante enriquecedora. “Vi-me obrigada a aprender uma nova língua e a adaptar-me a um país com várias diferenças, principalmente a nível social”, refere.

Durante três anos trabalhou num grupo de investigação, curiosamente, na mesma rua em que o marido trabalhava. “Íamos a pé para o laboratório, buscar a nossa filha, ao supermercado… Tínhamos uma grande qualidade de vida e, ao mesmo tempo, foi uma experiência muito rica e enriquecedora no laboratório”.

Foto: Daniel Rocha
Foto: Daniel Rocha

Na verdade, como nos refere, o regresso a Portugal, em 2002, foi um momento que implicou um esforço de readaptação. “Nessa altura vim grávida do meu segundo filho e confesso que foi um pouco difícil voltar a adaptar-me novamente ao nosso estilo de vida”. Mais tarde, e já de regresso à Universidade de Coimbra, Cláudia Cavadas retomou a sua carreira como professora auxiliar e também como investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra (CNC).

“A docência e a investigação são duas atividades exigentes mas que se conjugam bem. É sempre muito bom ensinar aos alunos as coisas que investigamos.”

Como professora, a cantanhedense diz ser um pouco como é na sua vida pessoal: “De fácil acesso e, acima de tudo, atenta com aqueles que têm mais dificuldades em se adaptarem”.

Ao longo da sua carreira o seu nome tem figurado em vários estudos. No total, já são mais de 50 os artigos publicados e dezenas os projectos a que, de algum modo, esteve ligada.

Porém, há um que assinala como especial: o primeiro.

“Foi a primeira vez que tive um projecto aprovado e que tive a oportunidade de coordenar uma equipa e, por isso, tornou-se um marco importante para mim”, refere, explicando que este estudo foi ainda o reconhecimento do trabalho desenvolvido na Suíça, uma vez que foi de lá que obteve o financiamento necessário para o arranque.

Esse projecto focava-se no estudo do funcionamento das células da glândula suprarrenal.

Depois desse seguiram-se muito outros, alguns com mais sucesso que outros. “A Ciência é assim, uma luta constante. Por vezes pode-se tornar desanimador, é um facto”, afirma. No entanto, Cláudia Cavadas não é de baixar os braços: “Sou positiva por natureza, acredito sempre que vai correr bem e tento sempre incentivar a minha equipa. Estudar constantemente também ajuda porque pode levar a novas ideias e porque é preciso estar muito atenta ao que se passa no mundo da Ciência, uma vez que este está em constante mudança”.

No final, o esforço compensa. “A descoberta é o que me move e por isso, quando o meu grupo de trabalho descobre algo, é uma sensação espectacular e praticamente indescritível”, diz-nos com um brilho no olhar.

Actualmente, a investigadora está envolvida num estudo, já publicado na revista Nature Communications, que tem “um gosto ainda mais especial”, uma vez que está a ser desenvolvido em parceria com o marido, Luís Pereira de Almeida, também ele investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular e professor na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

O projecto, diz-nos, “está relacionado com a doença de Machado-Joseph, com a qual o meu marido trabalha há mais de uma década, e partiu de uma aluna de doutoramento que quis trabalhar com os dois”, explica. Unindo os conhecimentos e o trabalho desenvolvido por ambos, o objectivo foi investigar em ratinhos e células até que ponto é que a restrição calórica controlada pode atrasar a progressão da doença de Machado-Joseph. Esta é uma doença incurável, fatal e hereditária, de grande prevalência nos Açores, que é caracterizada pela descoordenação motora, atrofia muscular, rigidez dos membros, dificuldades na deglutição, fala e visão, associadas a um progressivo dano de zonas cerebrais específicas.

“O estudo sugere que uma ligeira redução de calorias, extremamente controlada, sem incorrer no risco de malnutrição e com a presença de todos os nutrientes essenciais ao organismo, ou a administração de resveratrol, contribuem para a melhoria da coordenação motora, marcha, equilíbrio, neuropatologia e activam o processo de reciclagem dos elementos envelhecidos e danificados das células (autofagia)”, explica resumidamente.

Foto_equipa
Cláudia Cavadas (à direita) com o marido e uma investigadora

Trabalhar com o marido não tem sido uma dificuldade, muito pelo contrário. “Somos os dois bastante dedicados ao nosso trabalho e temos os mesmos interesses, ainda que ele se tenha direccionado mais para a doença de Machado Joseph. Eu por vezes disperso-me em temas mais diversos  porque gosto de muitas áreas”, diz, entre risos, acrescentando, no entanto, que, como investigadora gostava de “encontrar um medicamento que impedisse as pessoas de envelhecer e conseguir assim que todas as doenças, que têm a idade como factor de risco, aparecessem mais tarde… ou que nem aparecessem”.

Ainda assim, garante, que apesar de o trabalho de investigação ser compensatório também é “quase obsessivo”, o que se traduz em muitas horas de pesquisa, em laboratório e a coordenar equipas.

“Felizmente, a resiliência é uma das minhas características principais. Sou resistente e consigo aguentar muitas horas a trabalhar, mesmo dormindo poucas”, diz com um sorriso rasgado.

A equipa maravilha

A juntar aos papéis de professora e investigadora, Cláudia Cavadas tem ainda o de esposa e de mãe, que faz questão de nunca descurar. “Felizmente, a minha família percebe perfeitamente o meu trabalho e o esforço que deposito nele. O meu marido, como é do mesmo ‘mundo’, entende totalmente, e os meus filhos [Ana Cláudia, de 20 anos e Alexandre, de 15] também já estão habituados”.

“Aproveito as horas mais tardias para trabalhar, muitas das vezes”, refere. O trabalho, como assume, acaba por vir inevitavelmente para dentro de casa: “É comum falarmos de trabalho… Tanto eu como o meu marido gostamos de partilhar o que vamos fazendo e descobrindo. Até chega a haver uma competiçãozinha saudável”, refere divertida.

Durante a conversa com o AuriNegra, é bem visível o orgulho com que Cláudia Cavadas fala não só da sua profissão mas também da sua família, que caracteriza como “equipa maravilha”. “Há muita união e compreensão e isso torna tudo mais fácil”, partilha.

Mais que um trabalho, Cláudia Cavadas encara aquilo que faz como um prazer. “Quando aquilo a que nos dedicamos nos dá tanto gosto nem consideramos trabalho”, comenta, acrescentando que, enquanto puder, “e houver dinheiro em Portugal para tal”, é na investigação que quer continuar: “Adoro novos projectos e novas ideias e agrada-me, sobretudo, conseguir entusiasmar as pessoas à minha volta e levá-las mais longe. É isso que me faz feliz”.

Investigadora de sucesso

Ao longo da sua carreira, têm sido várias as distinções e cargos de relevo que Cláudia Cavadas ocupou. Com efeito, a investigadora cantanhedense foi, durante dois anos, Directora do Instituto de Investigação Interdisciplinar de Coimbra (2010 a 2012), que junta investigadores de áreas diversificadas. De 2010 a 2013 foi ainda subdirectora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

Actualmente é Presidente da Sociedade Portuguesa de Farmacologia e Coordenadora do Gabinete de Comunicação de Ciência do CNC. “A parte de comunicar ciência é algo que me agrada e que me tem enriquecido muito. Já fui por várias vezes a escolas apresentar os meus projectos e saio de lá sempre muito satisfeita”, diz-nos.

Este ano, a investigadora foi homenageada pela Ciência Viva como uma das 100 Mulheres que se destacam na Ciência que se faz em Portugal.

É ainda  Coordenadora do Grupo de Investigação de Neuroendocrinologia e Envelhecimento do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e que é constituído por 8 investigadores doutorados, 5 estudantes de doutoramento e 5 de mestrado.