O padre sorriso

B.I. João Baptista Marques Castelhano nasceu a 24 de Maio de 1933 na freguesia do Seixo, em Mira. Oriundo de uma família de agricultores, foi no Seminário que encontrou a melhor forma de continuar os estudos e também alimentar a sua vocação para ser padre. Durante mais de 40 anos esteve à frente da Igreja de São José, em Coimbra, onde fez da sua missão abrir a igreja à comunidade

João Castelhano recebe-nos na sua casa no Seixo de Mira, embora a sua morada oficial seja em Coimbra, onde tem vivido ao longo das últimas décadas. Ainda assim, é na aldeia gandaresa que estão as suas origens e daí fazer questão de voltar sempre, pelo menos dois dias por semana.

“São as minhas raízes e gosto de preservá-las. Uma árvore sem raízes não se aguenta e nos homens é igual. O Seixo é uma terra especial e uma paróquia muito unida, em que funciona o ‘um por todos e todos por um’”.

Oriundo de uma família de agricultores, João Castelhano era o segundo mais velho de 7 irmãos. “E por isso não poderia ter outro nome que não João. Nessa altura era sempre assim: o mais velho era Manuel e o segundo era João”, explica-nos.

Dos tempos na aldeia, as recordações já não são muitas, mas as que restam são bem vívidas. “Não havia cá estradas e o nosso entretém era jogar à macaca e com um pião, feito por um tio que era carpinteiro”. Embora não houvesse luxos, refere que, ainda assim, teve uma infância farta. Na mesa não faltava a comida que a terra dava, e em casa não faltava o amor e a cumplicidade familiar.

Como a família era católica praticante não foi grande a surpresa quando João Castelhano decidiu seguir para o seminário. Muito pelo contrário. “Na altura ir para o seminário era uma honra acessível a poucos. Por isso, quando entrei, os meus pais ficaram cheios de orgulho”.

A primeira “paragem” foi no Seminário Menor da Figueira da Foz, onde encontrou “gente muito diferente daquela que conhecia e um prefeito bem rigoroso”. Ainda assim, a integração correu bem: “Só voltávamos a casa nas férias e embora fosse próximo da família não vivi aquela amargura das saudades.”.

Da Figueira da Foz foi para o Seminário de Coimbra, “e aí dei de caras com um meio muito mais interessante. Já convivíamos com os seminaristas mais velhos. Era a descoberta do mundo, conversas novas, interesses novos,…”

Durante a adolescência assume que teve algumas hesitações, “como é normal”, mas nunca meteu em causa a sua escolha. “Apercebi-me cedo que o caminho era aquele”, realça. Aos 23 anos é ordenado padre e torna-se prior dos lugares de Abrunheira e Reveles (Montemor-o-Velho), dando início à primeira experiência como pároco, que caracteriza como inesquecível: “Foi bonito a minha chegada a esses lugares. Tive muita gente a receber-me e consegui fazer um acompanhamento próximo das pessoas”.

Por Montemor ficou 14 anos, sendo que nos últimos sete ainda juntou outra paróquia, a de Samuel (Soure). “Foram tempos enriquecedores e de muito dinamismo. Criámos um curso de catequistas, pioneiro na região, e unimos as comunidades. Foram tempos muito mas muito bons e alegres”.

Da igreja deu ainda um salto para a sala de aula, primeiro no Colégio de Santa Catarina e depois no Colégio de São José, onde deu aulas de Educação Moral Religiosa e Católica. “Ser professor foi giríssimo”, recorda em jeito saudosista, lembrando uma turma que o marcou em especial: “Um dia houve uma turma inteira que decidiu faltar à aula para ir para o café. Quando os apanhei fiz-lhes uma proposta: ou se tornavam a melhor turma do colégio ou ia dizer à directora. Adivinhe… Foram a melhor turma que tive. Todos os professores se queixavam deles, comigo eram super dedicados e participativos”.

Mais tarde, já em Verride (Montemor-o-Velho) criou uma telescola. “As aulas tinham lugar no salão da casa do prior. Eu era o responsável pela área das letras. Dava Francês, História, Português e tinha um inspector que era muito exigente e que me obrigava a estar preparado e a estudar muito para poder leccionar, o que acabava por ser desafiante”.

Pelo meio, desenvolveu ainda, juntamente com outros párocos, um Curso de Cristandade, ou seja “um 1.º encontro com Cristo, em que gente mais afastada da igreja passou a ser o braço direito do prior, o que era uma grande satisfação”. Organizou ainda, em Reveles, um campo de férias para colégios religiosos, “com jovens de famílias conceituadas. Raparigas de famílias de bem que, aqui, descobriram a vida na aldeia, em grupo e no campo. Uma experiência que vou sempre recordar…”

De todos os anos em que esteve como pároco nestes locais, o padre destaca, acima de tudo, a proximidade criada com os paroquianos. “Tornam-se família e aceitam-nos de uma forma espectacular”. Mas a vida de um padre significa, por vezes, ter que abraçar a mudança e novos desafios e foi assim que da aldeia João Castelhano foi enviado para o Seminário Maior de Coimbra, como Director Espiritual.

“E assim voltei à cidade, de onde nunca mais saí”; começa por explicar, acrescentando que este seu trabalho passava essencialmente por “orientar os rapazes na sua vocação, na maneira de desenvolver a sua fé e na preparação espiritual”.

Essa fase foi “satisfatória”, como nos conta. “Consegui ser um padre aberto a novas ideias e criámos um grupo de oração e reflexão de tema livre, o que era muito bom. Mesmo no fim do seminário esse grupo continuou a reunir-se várias vezes”. No entanto, recorda um ano mais complicado, o de 1970, em que a crise académica teve graves repercussões por toda a cidade, no Seminário inclusive: “Mais do que o 25 de Abril, a crise de 79 teve efeitos graves sobre a cidade. Nesse ano nenhum jovem saiu como padre do seminário, as novas ideias fervilhavam e isso afectava toda a sociedade conimbricense”.

Para o padre seixense as mudanças não ficaram por aqui. Depois da Revolução de 25 de Abril, “mais precisamente a 6 de Outubro de 1974”, é enviado para a igreja de S. José, da qual esteve à frente durante 43 anos, até Setembro passado quando se despediu da função. “Quando fui para S. José já ia com algumas ideias. Principalmente a de fazer a construção de casas, para substituir uma zona de barracas que havia na paróquia e onde habitavam os mais necessitados”. Criou ainda um jornal, que serviu e continua a servir de porta-voz da paróquia, e fomentou a criação de um Conselho Pastoral Paroquial, de modo a envolver os leigos na organização da paróquia.

“Criámos uma verdadeira equipa de cerca de 30 pessoas, que nos ajudaram a levar a igreja fora de portas, e que veio a permitir a realização de um ‘sonho’ já antigo na paróquia: a recuperação do adro e a construção de um Salão Paroquial, inaugurado em 1978”.

Ao longo de mais de quatro décadas na igreja de S. José, João Castelhano seguiu várias gerações da mesma família. “Houve pessoas que baptizei, casei e, infelizmente, até celebrei o funeral”, recorda, destacando as muitas diferenças que foi encontrando na forma como as pessoas estão na igreja.

 “Era uma hipocrisia não assumir que as pessoas se afastaram da igreja. Mas também noto que os que estão na igreja agora, abraçam mesmo a fé e estão mais conscientes e participantes, porque querem”, partilha.  Nesse sentido, João Castelhano frisa que foi criado, para além da catequese para crianças, um grupo de catequese para adultos, “com algumas pessoas que nem tinham sido baptizadas mas que mais tarde tomaram essa decisão”.

Embora tenha estado a maior parte da sua vida numa paróquia de grandes dimensões – 25 mil habitantes e uma participação de 2 mil pessoas – também conseguiu criar ligações com os seus paroquianos. No entanto, o seu maior desafio foi chegar a quem não frequentava a igreja. “Sempre tive como objectivo aproximar as pessoas da igreja e a igreja das pessoas. Para tal, fizemos coisas simples, como distribuir o programa paroquial pelas caixas de correio de cada casa, levar para os cafés da cidade o Correio de Coimbra (jornal da igreja) ”.

Um desses momentos, e que recorda com mais carinho, foi um cortejo de oferendas, em 1977. “Precisávamos de ajuda monetária para construir o Salão Paroquial e eu lembrei-me de fazer um cortejo de oferendas. Inicialmente riram-se um pouco de mim, por achar que uma coisa dessas nunca resultaria em plena cidade de Coimbra, como funcionava na aldeia. Mas a verdade é que resultou e foi uma grande festa, com centenas de pessoas, o Rancho, a Fanfarra dos Bombeiros. Foi um momento lindo em que as pessoas sentiram mesmo que faziam parte de uma comunidade”.

Agora que deixou a igreja, o sentimento é de dever cumprido mas também de alguma nostalgia. “Foram muitos anos, é normal que custe, mas estava na altura. Já tinha pedido para sair há 4 anos, por isso, quando o bispo agora me autorizou foi uma saída feliz”.

A despedida foi em festa. Com direito a um jantar onde participaram cerca de cem pessoas, e que serviram inclusive para celebrar os 60 anos da sua ordenação como sacerdote, e até um concerto de homenagem, “que me fizeram sentir muito acarinhado”.

Como padre, caracteriza-se como um padre que sempre foi muito próximo. “E com uma visão positiva e alegre da vida. Algumas pessoas até me chamavam o ‘padre sorriso’, por andar sempre com um sorriso na cara”.

De facto, João Castelhano refere que dificilmente teria tido uma vida tão preenchida. “Sou um homem feliz”, frisa, destacando não só os anos como pároco mas também os amigos e as experiências que isso lhe trouxe, como são exemplo as comemorações dos seus 40 anos de padre em Toronto e as viagens a vários pontos do mundo, através da religião.

Embora tenha deixado a paróquia, nem por isso os dias do padre são menos ocupados. E aos 88 anos, não há folgas para o seixense. “Segunda e terça venho para o Seixo dar missa. Às quartas estou na Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, 5.ª e sextas ajudo na paróquia de Santa Cruz, onde também dou missa ao sábado. No Domingo ajudo ainda na missa de S. Martinho do Bispo. Não me imagino nada em casa, de pantufas e a ver televisão e por isso, enquanto puder, é assim que vou continuar”.