O médico motoqueiro

Pedro António Masson Poiares Baptista nasceu a 27 de Maio de 1960. Natural de Coimbra, é, no entanto, na Quinta da Loureira, em Ançã – onde tem raízes –, que vive desde os 19 anos. Médico dermatologista, como o pai (o Professor António Poiares Baptista), Pedro Masson é um apaixonado pela Natureza, pela arte e por motas todo-o-terreno, um “bichinho” que já o levou a várias aventuras.

Descontraído e bem-humorado. Foi assim que Pedro António Masson Poiares Baptista nos recebeu no seu consultório, desta vez não para uma consulta de Dermatologia, como é habitual que aconteça naquele espaço, mas sim para uma conversa frontal, em que nos deu a conhecer o homem que se “esconde” por trás da bata branca.

De sorriso no rosto, mesmo depois de um longo dia de trabalho, Pedro Masson diz considerar-se uma pessoa bastante reservada mas, ainda assim, aberta a dois dedos de conversa.

Filho do prestigiado médico dermatologista António Poiares Baptista (Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e que foi Vice-Reitor desta prestigiada Universidade), e de uma professora francesa, Claude Masson (já falecida), o médico refere que teve uma “infância felicíssima” e sempre muito marcada pelo convívio e por uma mescla das culturas portuguesa e francesa.

“Embora tenha nascido em Coimbra, ainda cheguei a viver em Paris quando tinha um ou dois anos. Como a minha mãe era parisiense eu sempre tive muita influência da cultura francesa e considero-me um francófono, tanto que a primeira palavra que disse foi em francês. Julgo, pelo que me disseram, que foi ‘tomber’ (cair) ”, começou por nos contar.

De regresso a Coimbra, ainda petiz, a sua infância era passada entre a cidade, onde prosseguiu os seus estudos, e Ançã, na quinta dos avós paternos, onde agora vive e onde guarda várias recordações

“Para um ‘puto’ da cidade era maravilhoso poder ir para o campo. Era a liberdade total. Lembro-me de andar de carros de bois, de comer petingas assadas com o pessoal que trabalhava lá, de fazer a vindima, de me atirar para o ribeiro”, diz-nos.

As brincadeiras até podiam ser as mesmas que tinha na cidade, mas os cenários eram mais aliciantes: “Jogar aos cowboys no meio da palha e do campo era bem diferente de jogar aos cowboys no meio de prédios”.

Para além das frequentes visitas à quinta de Ançã, as férias grandes (que iam de Junho a Outubro), significavam também temporadas na praia. “Como o meu pai nessa altura continuava a trabalhar e ia e vinha de Coimbra todos os dias, íamos sempre para sítios próximos, como a Figueira da Foz e a Praia de Mira”, afirma, recordando esses tempos: “Era a altura em que toda a família se juntava. Vinham os primos todos de Lisboa, era uma animação!”.

Da Praia de Mira, lembra-se essencialmente das brincadeiras junto aos palheiros e à Barrinha, na altura ainda utilizada para banhos. “Na verdade, aprendi a nadar numa zona de tanques que existia nessa altura na barrinha”, relembra. Embora a infância tenha sido uma fase que Pedro Masson recorda com saudade, por ter sido feliz e pacífica, a entrada na adolescência vem marcada pela constatação de uma dura realidade.

“Por volta dos 13, 14 anos descobri que era diabético. E isso, para um miúdo, foi um choque…” – conta-nos.

Mais do que a doença em si, o médico refere que o pior foi a necessidade de alterar hábitos. “Era um jovem normal que gostava de fazer desporto, como basquetebol e natação, com os amigos e que, de repente, teve de deixar de o fazer. Foi a partir daí que comecei a dar-me com outras pessoas, arranjei novas companhias e amigos alguns anos mais velhos”, diz.

Na altura, a mãe ofereceu-lhe a sua primeira mota: “Nem carta tinha. Era uma daquelas motoretas a pedais. Usava-a para ir para o meio do campo, dar umas voltas. Depois deu-me a curiosidade para mudar tudo e artilhá-la”. Como os novos amigos também gostavam de motas, aquilo que começou como uma brincadeira tornou-se num “gosto afincado” e, mais tarde, como nos contará, numa paixão.

Entretanto, Pedro Masson continuou os seus estudos em Coimbra (passou pelo Jardim-Escola João de Deus, o Externato Menino Jesus, a Escola Básica Martim de Freitas e pelo Liceu D. João III/actual Escola Secundária José Falcão) até chegar à Universidade, onde decidiu cursar Medicina. “Não tive nenhuma pressão familiar. Simplesmente sempre gostei de Medicina. Estava habituado a ver o meu pai com a bata e o meu avô também já tinha sido médico e ambos eram para mim uma referência. Foi uma escolha muito simples e natural”, partilha.

A preferência pela dermatologia também foi pacífica. “Agradava-me a ideia do tipo de medicina que se faz nesta especialidade. Em dermatologia os problemas / doenças são visíveis e é possível fazer um trabalho mais directo, no dia-a-dia”.

O “GRITO DO IPIRANGA”

Um ano depois de ingressar na Faculdade de Medicina da Univer- sidade de Coimbra, Pedro Masson decidiu, como diz em jeito de brincadeira, “dar o grito do Ipiranga”, sair de casa dos pais e mudar-se para a quinta dos avós (entretanto falecidos), em Ançã.Gente de Ouro

“Queria o meu espaço e, para além disso, sempre gostei mais do campo, pois permite uma liberdade total, física e intelectual” – conta- nos, acrescentando, entre risos, que “só faltava a liberdade monetária”. O carro, a mesada, assim como o apoio dos pais mantiveram-se, mas o jovem estudante de Medicina passou a estar por conta própria.

Com efeito, a quinta onde tinha passado vários momentos da sua infância, tornou-se no seu lar, mas também num espaço de convívio, onde recebia os amigos. “Ia à mesma a Coimbra todos os dias, para as aulas, mas também passava muito tempo na ‘moina’” – diz-nos, sem qualquer tipo de embaraço.

“Nessa fase queria mesmo era ‘curtir’ a vida e não tinha muitos cuidados com a minha saúde”, diz- nos, acrescentando ainda que não ligava muito às tradições académicas. Quando terminou o curso, um ano depois do previsto, foi para os Hospitais da Universidade de Coimbra, onde tirou a especialidade de Dermatologia. Depois disso, passou ainda pelo Hospital de Leiria – onde esteve durante dez anos – e para o qual ia diariamente, “fizesse chuva ou sol”, de mota. Actualmente está no Hospital de Cantanhede e numa clínica privada em Coimbra. “Prefiro trabalhar em hospitais e locais mais pequenos, em que há um ambiente muito mais familiar”, assegura.

Tanto na profissão como na vida, Pedro Masson assume-se um homem prático e “pouco dado a fretes”: “Gosto de fazer aquilo que me dá prazer… Admito que não tenho muita paciência para coisas maçadoras. Quando não estou bem, mudo-me!”. Considerando-se um “médico freelancer”, que escolhe onde trabalha, é com entusiasmo, no entanto, que abraça a sua carreira de dermatologista, onde dá destaque à proximidade que estabelece com o doente: “Acho que é cada vez mais fundamental conhecer os doentes e também as pessoas com quem trabalhamos”.

Porém, o seu sonho – conta-nos já a meio da conversa –, sempre foi outro: “Na verdade, aquilo que realmente queria era ter sido médico do mato, em África, como o meu avô [Calisto Baptista], mas a diabetes não me permitiu escolher esse caminho”. Ainda assim, África nunca ficou esquecida. E é nesta parte que retomamos a paixão de Pedro Masson pelas motas.

TODO-O-TERRENO

Quando a mãe lhe ofereceu a primeira mota, Pedro Masson estava longe de imaginar que um dia estaria ligado ao Rali Dakar, a maior e mais dura prova de todo-terreno do Mundo.

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No entanto, à medida que a paixão pelas motas foi aumentando, também a distância percorrida pelo médico foi ganhando outras proporções. “Na altura em que comecei a levar as motas mais a sério, estávamos perante um ‘boom’ de tudo o que tinha a ver com o todo-o- terreno”, começa por nos explicar.

Aproveitando essa oportunidade, Pedro Masson, juntamente com um grupo de amigos, começou a participar em algumas provas nacionais de motocross, como o Campeonato Nacional de Enduro, na Figueira da Foz.

Daí em diante, seguiram-se várias provas em território português, mas também passeios, onde o dermatologista juntava o seu gosto pelos veículos todo-o-terreno [também tem um “jipe”] ao gosto pela Natureza. No fim da Universidade, através do Clube Aventura, fundado por um amigo seu – José Megre (já falecido) –, começou a participar em provas além-fronteiras, até que chegou à mais conhecida prova de todo-o-terreno: o Paris-Dakar.

“Nessa altura eu já integrava a Comissão Médica da Federação de Motociclismo de Portugal e fui chamado pela Federação Internacional para integrar o júri das motas no Dakar. Participei em quatro. Foi uma boa forma de unir a minha profissão ao meu gosto por motas e ‘jipes’ e ao meu interesse por África”, conta-nos.

Ao mesmo tempo, permitiu- lhe conhecer alguns dos locais de que apenas ouvira falar nas histórias contadas pelo avô, que recorda com orgulho e saudade: “Através do Dakar, e também em passeios à aventura, conheci a Argélia, a Mauritânia, a Líbia, o Senegal, a Guiné Bissau, entre outros…No entanto, aquilo que gostaria mesmo de ter feito era um roteiro pelos hospitais que o meu avô montou por lá”.

Embora, como afirme, a diabetes lhe tenha “agulhado em algumas escolhas”, Pedro Masson viveu grandes aventuras sobre duas rodas. “Fui a muitos locais, vivi peripécias engraçadas e também sofri muitas quedas”, afirma. Agora já não participa, como concorrente, em provas e afirma ter ganho “bom senso”, principalmente na forma como lidar com a doença.

Sem filhos, com uma profissão estável e “com menos disponibilidade para moinas”, o médico dermatologista continua um aficionado por motas e mantém-se membro da Federação de Motoclismo de Portugal. No entanto, “à medida que o tempo tem passado”, refere que a sua vida se foi tornando mais calma e mais regrada, ainda que se recuse a privar daquilo que lhe dá prazer, como o tabaco.

Com efeito, às motas, Pedro Masson acrescentou outros prazeres e passatempos, como cuidar e brincar com os seus três cães, fazer os Caminhos de Santiago de bicicleta, fazer canoagem e até, curiosamente, assistir à televisão francesa (instalou uma antena parabólica em casa para captar as emis sões de França via satélite).

“Sou um bocado ‘agarrado’ aos programas da televisão francesa. Têm muita qualidade e dizem-me muito, pois sinto-me bastante francês. Identifico-me muito com os valores da Liberté, Égalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade, Fraternida- de) ”, refere.

Viajar continua a ser outro dos seus grande prazeres, com os Açores como destino de eleição. “Adoro os Açores e a forma como a Natureza acontece lá. Se pudesse, dividia a minha vida por Ançã, Paris, Açores e África”. Enquanto isso não é possível, Pedro Masson permanece dedica- do à Medicina e à sua quinta em Ançã, rodeado do campo que escolheu, dos seus cães, das suas motas, e sempre fiel a este lema: “Para mim tudo na vida é para dar gozo. Se for uma ‘seca’ não vale a pena”. “Acima de tudo não gosto de prever o futuro. Gosto de viver um dia de cada vez”, conclui, com ar descontraído.

Autor: Carolina Leitão