O mais veterano ourives de Coimbra é dono da mais antiga ourivesaria da cidade

A Ourivesaria Costa, fundada há 80 anos, é a mais antiga ourivesaria de Coimbra e uma das mais antigas do País.

Por coincidência, o seu proprietário, José da Costa, é também o mais veterano ourives de Coimbra, quer em idade (vai completar 85 anos) quer em tempo de actividade, já que se iniciou no ofício ainda criança.

Mas as coincidências não se ficam por aqui: o apelido de José da Costa nada tem a ver com o nome da sua ourivesaria.

Para esclarecer esta e outras circunstâncias curiosas, fomos entrevistar José da Costa na sua Ourivesaria Costa, localizada em plena Baixa de Coimbra (na Rua Ferreira Borges, n.º 151), quase a chegar ao Largo da Portagem.

Recebe-nos de forma muito cordial e faz questão, logo no início da conversa, de prestar uma homenagem:

“Quero, através do jornal ‘AuriNegra’, homenagear Febres e a sua importância para a ourivesaria em Portugal. Estive em Febres em 1990, na cerimónia de inauguração do Monumento ao Ourives, e na intervenção que fiz na cerimónia (presidida pelo então Ministro da Administração Interna, o saudoso Dr. Manuel Pereira), destaquei a circunstância de em todos os distritos do País existirem ourivesarias que foram fundadas por naturais de Febres ou seus descendentes. Eram os famosos ‘homens da mala verde’, que estão justamente representados na estátua então inaugurada na praça central de Febres”.

QUANDO O OURO ERA O SEGURO DOS AGRICULTORES

José da Costa recorda esses tempos pioneiros, em que os negociantes de ouro saíam de Febres, muitos deles de bicicleta, para irem vender, pelas feiras de todo o País, as peças que transportavam nas pequenas arcas metálicas pintadas de verde.

Muitos deles acabariam por se estabelecer nas cidades ou vilas onde costumavam ir negociar. E ainda hoje, destaca José da Costa, “há grande número de ourivesarias, em Portugal e em outros países, que foram fundadas por esses pioneiros e que pertencem aos seus descendentes que abraçaram o negócio”. Um negócio que, nessa época, prosperou através dessa venda ambulante nas feiras. José da Costa lembra a razão do êxito dessa actividade:

“Nesses tempos, o ouro era uma espécie de seguro, sobretudo para os agricultores, de Norte a Sul de Portugal. Nos anos em que havia boas colheitas, com as receitas da venda dos seus produtos, agrícolas ou pecuários, compravam peças de ouro. Nos anos em que a produção era má, vendiam algumas das peças de ouro para poderem sustentar a família”.

Aliás, um recurso que, de alguma forma, se manteve até aos nossos dias. Basta ver como, quando a actual crise económica se manifestou, começaram a surgir por todo o País as lojas de compra de ouro, procuradas, sobretudo, por pessoas com dificuldades que ali iam vender as jóias da família. Só que, entretanto, as famílias foram ficando sem jóias – e essas lojas têm vindo a fechar, às centenas, quase ao mesmo ritmo com que abriram.

UMA VIDA DEDICADA À OURIVESARIA…

Mas voltemos à conversa com José da Costa: “Nasci na Baixa de Coimbra em 1931 e sempre vivi em Coimbra. Sou um homem da Baixa. O meu Pai era alfaiate, na Rua das Figueirinhas. Na época, o trabalho infantil era coisa habitual para as famílias que não tinham grandes posses. Assim, com apenas 11 anos, comecei a trabalhar numa oficina de ourivesaria na Rua Corpo de Deus. Relativamente perto, na Rua Ferreira Borges, tinha sido inaugurada, em 1936, a Ourivesaria Costa, assim chamada porque um dos seus três sócios era o senhor Manuel da Costa, de quem o meu Pai era amigo – mas que, apesar da coincidência do apelido, não tinha qualquer ligação com a minha Família. O meu Pai falou-lhe em mim, e foi desta forma que comecei a trabalhar na Ourivesaria Costa, como marçano, no dia 8 de Agosto de 1943 – vão completar-se daqui a pouco 73 anos. E nunca mais daqui saí!”.

Os anos foram passando, o pequeno marçano foi crescendo e. graças ao seu trabalho, mereceu a confiança dos patrões, pelo que viria a tornar-se o empregado principal.

Entretanto faleceu o sócio-gerente da Ourivesaria, Manuel da Costa, e José da Costa e os dois colegas (Armando Dias e Luís Eliseu) compraram as quotas aos herdeiros, e depois as dos outros patrões, acabando por ficar proprietários da ourivesaria. Posteriormente, José da Costa adquiriu as participações dos seus colegas.

… MAS TAMBÉM AO DESPORTO E AO ASSOCIATIVISMO

Apesar da sua entrega à Ourivesaria, José da Costa conseguiu gerir o tempo de forma a conseguir dedicar-se também ao desporto e ao associativismo. E, mais uma coincidência, começou no Sport Clube Conimbricense, que é o mais antigo clube de Coimbra e foi o primeiro campeão nacional de basquetebol: “No Sport fui tudo: atleta, treinador, Presidente da Direcção e Presidente da Assembleia Geral”.

É o sócio n.º 1 do Sport, mas também do Rancho de Coimbra. Em termos futebolísticos, é adepto do Sporting, mas também do União de Coimbra e da Académica. Contudo, onde mais visibilidade teve, em termos associativos, foi na ACIC – Associação Comercial e Industrial de Coimbra (que até Abril de 1974 se chamava União de Grémios dos Lojistas).

Logo nas primeiras eleições assumiu as funções de Presidente do Sector Comercial e, mais tarde, as de Presidente da ACIC. Foram 19 anos a integrar os corpos sociais da ACIC.

Um dos aspectos de que mais se orgulha, é o facto da ACIC ter feito parte da Comissão Executiva das Comemorações dos 700 anos da Universidade de Coimbra, a convite do então Reitor, Prof. Rui de Alarcão. Mas não se ficou por aqui:

“Amo tanto Coimbra, gosto tanto de toda esta Região, que fui um dos fundadores do Conselho Empresarial do Centro. E devo dizer que não foi nada fácil conseguir a união dos seis Distritos que integram a Região Centro”.

O ROUBO DO OURO E A DISTINÇÃO DA PRATA

De entre todos os episódios que mais marcaram a sua vida, José da Costa recorda, ainda emocionado, o
que ocorreu em Fevereiro de 2010. Ao abrir as portas da Ourivesaria Costa, numa segunda-feira, deparou com um cenário desolador: a loja toda revolvida! Entrou, verificando que todo o ouro e todas as jóias tinham desaparecido.

“Foi um prejuízo tremendo! Foi o produto de uma vida que desapareceu de um momento para o outro”.

Os assaltantes nunca foram descobertos. A polícia concluiu que se trataria de um bando vindo de países do Leste, que terá estudado bem o local.

Aproveitando o fim-de-semana, forçaram a entrada na casa ao lado da ourivesaria, e ali abriram um buraco por onde penetraram no estabelecimento. Terão estado dois dias (sábado e domingo) a examinar todas as peças, escolhendo as mais valiosas. Tal como sucedera quando entraram, terão saído calmamente, sem que ninguém desse por eles – apesar de haver já instaladas câmaras de vigilância na rua, não registaram o assalto. E certamente terão saído logo do País, sem deixar rasto.

“Apenas deixaram as pratas! E foi com essas pratas que consegui, devagarinho, ir refazendo o negócio” – diz-nos José da Costa, com um ar resignado. A verdade é que a prata tem outro lugar bem simbólico na vida deste ourives veterano e cidadão exemplar: em reconhecimento da sua actividade invulgarmente meritória, a Câmara de Coimbra distinguiu-o com a Medalha de Prata da Cidade.