O lutador

Licínio Cruz Ferreira nasceu a 3 de Junho de 1954 no Seixo, em Mira. Na sua família as dificuldades estiveram sempre presentes e por isso a ida para a pesca do bacalhau, onde esteve durante vinte anos, foi apenas mais um sacrifício que abraçou com coragem.

A mãe, solteira, desde bem cedo que começou a trabalhar na agricultura para tentar dar uma boa vida aos seis filhos, entre os quais Licínio, que não esquece os momentos de fome e de pobreza por que passou.

“Era uma família muito humilde… Cheguei a passar fome e a andar a pedir comida na rua”, recorda, emocionado, relembrando episódios corriqueiros para a altura como andar pela estrada a apanhar bosta de gado para usar como estrume nas terras de cultivo.

Com apenas oito anos, Licínio Ferreira já assumia um primeiro trabalho, muito importante. “Era cuidador de um menino deficiente. Estava com ele, fazia-lhe companhia, ajudava-o a fazer as suas coisinhas…”, conta-nos, acrescentando que, ao mesmo tempo, continuava a estudar.

Apesar de dedicar grande parte dos seus dias ao trabalho, Licínio ainda conseguiu concluir a 4.ª classe na escola do Seixo, mas o seu percurso escolar acabaria por ficar por aí. “Precisava era de ganhar dinheiro. Era bom aluno e recordo-me da professora dizer que era um desperdício um menino como eu sair da escola… mas teve que ser…”, refere mais taciturno.

Licínio Ferreira teve pouco tempo para ser criança. “Na verdade, só me lembro de brincar nos tempos de escola, no recreio”, diz-nos. A partir daí, o trabalho e a responsabilidade de levar algum dinheiro para a casa sempre foi uma constante, ainda para mais com a mãe a criar sozinha seis filhos.

“Tive que crescer rápido e isso notava-se em comparação com os meus amigos e colegas”, frisa. Por volta dos 12 anos, o seixense partiu para Santarém, onde, por intermédio de um amigo, foi trabalhar para terrenos vitivinícolas. “Estava longe da família e era um trabalho muito complicado, principalmente para um miúdo sem experiência”, refere.

Depois foi para Aveiro, para uma firma de armação de ferro de um padrinho. “A minha mãe comprou-me uma bicicleta e era assim que eu ia todos os dias do Seixo para Aveiro”, lembra.

Por essa altura, apesar de não ter familiares ligados à vida marítima, eram muitos os colegas da aldeia que lhe contavam as aventuras na pesca do bacalhau, dizendo que a actividade, apesar de difícil, dava bom dinheiro. “Dizia-se que uma das maneiras mais certas para deixar de ter dificuldades era embarcar e por isso decidi ir”, conta-nos.

Tratou do registo criminal, fez a prova de natação, inscreveu-se no sindicato e alguns meses depois ia rumo aos mares gelados do Norte. Da primeira campanha, que fez em 1975, recorda principalmente a namorada chorosa que deixou à beira do cais.

“Nesse ano já namorava com a minha esposa [Amélia Catarino] e foi difícil deixá-la e partir para a pesca”, refere. Porém, a decisão estava tomada e o objectivo era também lutar para lhe conseguir dar um futuro melhor.

Nessa viagem, feita a bordo do bacalhoeiro “Avé Maria”, Licínio diz que viveu alguns dos dias mais difíceis da sua (já difícil) vida. “O barco era de madeira e logo no primeiro dia enfrentamos muito mau tempo na zona dos Açores”, recorda.

Como era habitual, começou o seu percurso na faina como moço, onde lhe cabiam as tarefas de limpar o navio, tirar caras e línguas de bacalhau, entre outras.

Porém, como nos conta, houve uma função que aos poucos o começou a seduzir: a salga do bacalhau. “Mesmo quando os outros moços iam descansar, eu ficava a ajudar os salgadores”, afirma, para depois acrescentar que mais tarde essa dedicação acabou por dar frutos. Os superiores aperceberam-se do seu empenho e, na segunda viagem, foi promovido a aprendiz de salgador, sendo que na terceira subiu a salgador.

A partir daí o seu lugar nos navios foi sendo sempre de maior proeminência, fruto de alguma sorte, mas sobretudo da sua vontade de mostrar trabalho e do seu empenho.

Quando Licínio Ferreira chegou à pesca de bacalhau já os tempos eram bem diferentes daqueles vividos quando a pesca ainda era feita à linha. Talvez por isso, o seixense refira que nunca teve grandes razões de queixa.

“Já vinha de uma vida difícil. As dificuldades não eram novidade para mim”, sublinha. O frio, esse continuava a ser um dos piores factores com que lidar. Outro era o estado dos barcos mais antigos, como o “Avé Maria”, que colocava em causa a segurança dos pescadores. “Nessa altura falava-se muito das más condições do “Avé Maria” e eu fiquei assustado e decidi sair desse navio”, afirma.

Dali foi para o “Lutador”, um navio-fábrica mais moderno e preparado para a pesca e tratamento não só de bacalhau mas também de outro tipo de pescado comum nas águas da Terra Nova, Gronelândia e Noruega.

Apesar de por ano realizarem várias campanhas, no regresso a casa o seixense mantinha-se ocupado. “Costumava ajudar um amigo em trabalhos com ferro e mais tarde na construção, que era uma coisa que há muito queria aprender”, afirma. Porém, passados dois anos no “Lutador”, Licínio Ferreira decidiu deixar a vida no mar.

“Já tinha o que queria. A minha casinha estava feita, já tinha juntado algum dinheiro”, afirma.

No entanto, o destino trocou-lhe as voltas e, depois de algum tempo, o sindicato volta a chamá-lo, desta vez para ir em serviço no navio “António Cação”. “Nesse navio conheci um capitão, o Jaime, que foi quase como um pai. Fiz logo a primeira viagem como mestre de salga, mas já tinha outra posição em vista: a de empregado de câmara”.

Inicialmente foi-lhe rejeitado o cargo, pois faria falta na parte do peixe. Mas Licínio insistiu, mostrando-se disponível para desempenhar outras tarefas sempre que necessário. E assim foi.

Durante algumas campanhas o seu trabalho era, “todo aprumadinho”, servir os oficiais. Porém, quando o pescado era muito, despia a farda sem qualquer problema e lá ia “meter mãos à obra”.

No entanto, passado algum tempo decide novamente sair da vida da pesca do bacalhau. “Aí estava mesmo decidido. Já não dava mais, queria ir para junto da minha mulher e dos meus dois filhos [Tiago e Rui] ”, garante, para logo depois acrescentar que, ainda assim, não foi aí a sua despedida do mar.

“Já tinha voltado a casa e estava um dia a ajudar uma irmã num terreno quando vejo aparecer o capitão Jaime. Vi logo o que ele queria”, refere. Como previa, o oficial vinha pedir-lhe para regressar à pesca num novo navio que ia ser lançado à água brevemente, o “Hemisfério Norte”.

Apesar de estar decidido a deixar a vida da faina maior, Licínio acedeu ao pedido do capitão, que tanto o ajudara, e regressou aos mares, primeiro como mestre de salga (ou seja, já integrava a comitiva de oficiais) e depois como contra-mestre. Como nos conta, foi essa a fase de que mais gostou. Pois apesar do cansaço, do trabalho e da responsabilidade, era o mais compensatório economicamente e também a nível de realização pessoal.

Das duas décadas passadas no mar, Licínio Ferreira recorda bons e maus momentos. Os melhores, como nos diz, eram os dias de chegada. “Eram os melhores dias, uma grande felicidade”, recorda com uma grande emoção no olhar. Os piores eram aqueles em que se tinha que despedir da família por mais uns tempos.

“Custava-me estar longe dos meus filhos. Um dia recebo uma carta com um desenho do meu filho Rui, tinha ele três anos. Fechei-me na casa de banho e aquilo é que foi chorar”, recorda Licínio Ferreira, que não tem acanhamento em afirmar: “Sabe, um homem também chora e nesses momentos eu chorava muito”.

Apesar de nunca se ter sentido verdadeiramente em perigo, o seixense passou por um momento que ninguém deseja passar. “Perdi um dos meus melhores amigos no mar, na Gronelândia. O mar estava muito bravo e uma vaga invadiu o navio e arrastou-o borda fora. Como o mar estava gelado ele ficou em cima do gelo mas a camada era fina e acabou por ceder… ”, lembra.

O corpo foi encontrado um mês depois e só foi identificado porque o pescador era redeiro e cada um dos redeiros tinha uma capa de oleado onde traziam um conjunto de navalhas com o nome gravado.

O adeus

Depois de algumas tentativas, Licínio Ferreira acabou por deixar a sua carreira nos navios de pesca de bacalhau em 1995, precisamente 20 anos depois de ter começado.

“Arrependo-me um pouco de ter saído. Se tivesse continuado talvez hoje estivesse com uma vida melhor e já não tivesse que trabalhar”, afirma, acrescentando, no entanto, que teve que tomar a decisão pelo bem da sua família.

Em terra, tentou encontrar um novo rumo para a sua vida e tentou a emigração. “Ainda estive na Alemanha durante dois anos. Mas como era uma vida de casa/trabalho e continuava longe da família decidi regressar ao Seixo”, conta-nos.

De volta à Gândara, mas por pouco tempo, foi trabalhar para uma empresa de construção civil, com sede na Batalha, onde ainda permanece. “É um trabalho que até agora tem sido certinho, mas custa. Trabalho principalmente no Alentejo e por isso só venho aos fins-de-semana a casa. Chego na sexta à noite e saio na segunda-feira de madruga”, explica.

Licínio Ferreira não se assusta com o trabalho nem nunca se assustou, no entanto, aos 61 anos, assume que já gostaria de estar por casa, a acompanhar o crescimento dos netos. “Uma vez que perdi alguns momentos importantes do crescimento dos meus filhos, gostava de estar mais presente para os netos”, diz-nos.

A família foi e continua a ser a sua fonte de força e é por ela que nunca baixou os braços e que passou 20 anos no mar: “Fui à procura de algo melhor e acabei por conseguir. O meu maior sonho era levar os meus filhos até ao último degrau (terminarem o Ensino Superior) e consegui. Foi por isso que escolhi a vida no mar, para que eles nunca tivessem que passar pelas dificuldades pelas quais eu passei”. “Foi um dos passos mais certos que dei na vida”, conclui.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)