“O futuro é hoje”

Carlos José Ferreira Saro Negrão nasceu a 13 de Novembro de 1958 no Hospital Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede. Durante mais de três décadas trabalhou na área dos seguros, e porque deixou a profissão entregou-se mais à política, sendo actualmente deputado da Assembleia Municipal de Cantanhede pela CDU.

Por onde passa, é com um sorriso rasgado que Carlos Negrão brinda quem com ele se vai cruzando. Natural de Cantanhede, é um apaixonado pela cidade que o viu nascer e onde agora tem um papel mais activo.

Filho de António Cardoso Saro Negrão, proprietário de uma livraria e tipografia na cidade, e de Maria Conceição Mendes Ferreira, doméstica, foi com duas irmãs mais velhas – ambas licenciadas em Filologia Germânica – que foi crescendo, entre brincadeiras, cultura e muito, muito mimo. “Era apaparicado até demais”, admite entre risos.

Dos tempos de gaiato, as recordações ainda são muitas, mas sempre centradas na relação com os outros: “Recordo, no fundo, aquilo que acabou por se transformar na minha linha condutora de vida e que assenta em dois pilares fundamentais: a família e os amigos”.

Carlos Negrão passou pelos vários escalões de futebol dos Marialvas

Amigos, com efeito, é coisa que nunca lhe faltou e desde pequenino que eram muitas as horas que passava fora de casa a jogar ao berlinde, ao pião e à bola. O gosto pelo futebol foi também alimentado desde cedo, com a passagem por todos os escalões do Clube de Futebol “Os Marialvas”, do qual o pai foi sócio n.º1.

Embora a família sempre tenha vivido em Cantanhede, a certa altura Carlos Negrão muda-se para Coimbra para frequentar a Escola Pública, neste caso o Liceu D. João III (actual Escola José Falcão), onde foi colega de Liceu, entre outros, de José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, e António Lobo Xavier, do CDS

“Em Cantanhede não havia escola pública e como a minha irmã mais velha ia entrar na Faculdade de Letras em Coimbra e eu e a minha Irmã do meio estávamos no Secundário, fomos para lá viver por uma questão de gestão financeira – três filhos a estudar era uma empreitada nada fácil”, explica-nos. Foi precisamente nessa fase que se deu a revolução dos cravos, o que, assume, veio trazer uma grande mudança na forma como Carlos Negrão passou a ver a escola: “Eu tinha 16 anos, mas já era muito atento ao que se passava à minha volta e lembro-me bem que se passou a respirar melhor. A forma de estar, mesmo dos professores, era completamente diferente”.

Neste sentido, na Sessão Solene de aniversário do 25 de Abril em Cantanhede de 2018, o discurso de Carlos Negrão foi dos mais aplaudidos. Nele ouviu-se: “Antes do 25 de Abril, o país era a preto e branco. A guerra colonial era uma espada em cima das nossas cabeças, de jovens que ainda não tinham assistido a nenhum concerto ao vivo. A guerra colonial era também muito sofrimento e muita amargura para as mães, para os pais, para as famílias que, com angústia, contavam os anos que faltavam para passar por aquela provação. Em Cantanhede, pelo menos um soldado morreu na guerra colonial – ‘Veio numa caixa de pinho, dessa vez o soldadinho nunca mais se faz ao mar.’” [canção Menina dos Olhos Tristes, de Zeca Afonso].

Através do seu discurso, é mais que notório que Carlos Negrão é um homem culto e que vê na cultura um dos eixos centrais da sociedade. “Eu adoro e valorizo a cultura em todas as suas formas. Sou um consumidor de música, desde os nomes portugueses que citei anteriormente até aos nomes da Música Popular Brasileira, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Bethânia entre outros. O fado também me toca bastante, mas não tanto o fado triste e melancólico, mas sim um fado mais interventivo/alegre com autores dos quais destaco Ary dos Santos, e cantores como Carlos do Carmo, Camané, Mariza, Carminho, Gisela João, Ana Moura…”.

Da cultura, Carlos Negrão salta para outro assunto, e continua a contar-nos o seu fado. “Aos 18 anos fui chamado para o Serviço Militar obrigatório, o que levou a que ficasse 18 meses na Figueira da Foz”. Nessa altura é obrigado a interromper os estudos, que retoma mais tarde e novamente em Coimbra. “Faltavam-me duas disciplinas do 12.º e depois a ideia seria seguir para a Universidade”, explica. Durante esse ano vai viver para a república Ninho dos Matulões, que recorda como “uma experiência fabulosa”. “Conheci amigos fantásticos e, mais importante, aprendi a viver em partilha, partilha de tarefas, partilha de comida e até partilha de roupa, às vezes”, diz divertido.

Festa era algo que nunca falta também na vida deste cantanhedense. Carlos Negrão é um “bom-vivant” assumido e acabava por dormir de dia e sair mais à noite, na sua juventude, onde vivia momentos que garante terem sido essenciais para partilhar ideias com colegas e conviver. No entanto, a vida que levava foi sendo “descoberta” e o recadinho rapidamente chegou aos ouvidos do seu pai, em Cantanhede. “Ele liga-me e diz que há uma oportunidade de emprego numa agência de seguros e se eu queria mesmo estudar e atinar ou se ia trabalhar, e eu optei pela segunda opção”.

Durante o serviço militar

Candidatou-se à vaga na agência de seguros Império e, em simultâneo, a uma vaga na Caixa Geral de Depósitos, ambas em Cantanhede. Foi aceite nas duas mas acabou por aceitar a primeira, porque lhe dava mais “asas”: “Era profissional liberal e até podia criar a minha própria carteira de clientes. Tinha mais que ver comigo”.

Embora a agência, ao longo dos anos, tenha mudado de dono e de nomes – primeiro para Império Bonança e depois para Fidelidade – Carlos Negrão manteve-se no mesmo trabalho, onde foi subindo a pulso. Para além de Cantanhede passou ainda pela Mealhada (2002 a 2009) e, já no final da carreira, por Coimbra, onde esteve à frente da formação da rede interna e da rede de mediação. “Foi uma experiência diferente dar formação. Corri muitos locais da zona centro: Aveiro, Castelo Branco, Covilhã, Lousã, Leiria, entre outros”.

Precisamente no dia do trabalhador, 1 de Maio de 2016, e ao fim de 36 anos de carreira, decide deixar o trabalho. “Foram muitos anos ligados à mesma actividade e já acusava um grande desgaste, porque acaba por ser um trabalho complicado e cada vez com mais concorrência. Então fizemos um acordo (rescisão de contrato por mútuo acordo) e saí”. Com esta decisão ficou com mais tempo para cuidar da mãe. “Está em casa comigo e faço de tudo para que ela tenha uma vida feliz. Enquanto conseguir irei cuidar dela, na nossa casa, no meio das suas coisas”. Do pai, falecido há mais de 30 anos, Carlos Negrão diz, com saudades, ter muito em comum, mas o mais flagrante é a paixão por Cantanhede. “O meu pai amava Cantanhede e eu também. Parece que está no ADN ser apaixonado por esta cidade e por estas gentes”, garante.

Foi também ao pai que foi buscar o gosto pelo associativismo e pelo convívio. “Cresci com o meu pai nos ensaios do rancho Os Esticadinhos ou quando ele se juntava a um grupo de cantanhedenses para ir amentar as almas. Era um ambiente de entreajuda e diálogo que sempre me agradou e serviu de exemplo”.

Carlos Negrão revê-se numa sociedade assim, unida. “Tenho um conjunto de gente de quem gosto e que gosta de mim. É nisso que gosto de investir: no criar relações, quer em âmbito de trabalho quer a título pessoal”, frisa. Talvez por isso, desde cedo se viu envolvido em actividades de grupo: “Cheguei a ser director do Marialvas durante alguns anos, joguei ainda durante mais anos, tendo sido inclusive Campeão Distrital de Juvenis do CF Marialvas enquanto treinador”. Como extremo e médio direito passou ainda pelos Sombras Negras, de Lemede, os Águias de Arazede e o Sporting Clube da Poutena.

No âmbito musical, Carlos Negrão integrou o GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra. Durante cinco anos, foi neste grupo que encontrou uma segunda família. “O meu papel era cantar (estava na Cantata) e era muito giro. O ambiente era maravilhoso e corríamos o país de lés a lés”, partilha, recordando um momento especial: “Quando a 25 de Abril de 94 fomos participar nas comemorações da revolução dos cravos na Bélgica e no Luxemburgo, juntamente com António Pinho Brojo, Carlos Portugal, entre outros”.

No entanto, se a música é, evidentemente, uma das suas paixões, há outra que o move de igual modo: o Futebol Clube do Porto. Actualmente vice-presidente da Casa do Futebol Clube do Porto de Cantanhede, Carlos considera-se um verdadeiro “dragão de ouro”.

“Gosto de acompanhar o trabalho desenvolvido na casa e sempre que não vou ao estádio é ali que vejo os jogos com os meus amigos. Acho que quando gostamos das coisas temos que dar sinais disso mesmo. Ser-se associado a tempo inteiro e com todas as competências, só assim temos uma verdadeira participação activa”, diz-nos, reforçando que é um espectador de futebol “até bem calmo. Gosto de cantar e apoiar a equipa e puxar pela malta”.

Intervenção política

Para Carlos Negrão debater política ou estar a par deste tipo de assuntos nunca foi algo estranho. Embora tenha crescido num período em que nem sempre era possível falar e opinar abertamente, desde cedo que teve uma noção daquilo que acreditava ser a melhor forma de governar um país.

Já em tempos passados, era na gráfica do seu pai que era impresso o jornal Gazeta de Cantanhede, “um jornal do reviralho, como se costumava dizer, porque era contra o regime”. No entanto, é mais a partir do 25 de Abril que o cantanhedense ganha uma maior consciência política, “acima de tudo pelo gosto pela causa pública, que foi crescendo e ganhando força após a revolução”.

Enquanto repúblico em Coimbra, Carlos Negrão foi ainda militante da União dos Estudantes Comunistas (UEC) e teve participação activa no primeiro comício do PCP que se realizou no Salão dos Bombeiros de Cantanhede. “Desse período recordo-me muito bem dos discursos de Vasco Gonçalves, um homem que me apaixonou à época”, refere. Quem não gostou nada desta forte inclinação comunista foi o pai: “Foi um desgosto para o meu pai ter logo três filhos com a mesma orientação política”.

Nas últimas eleições, Carlos Negrão decidiu tomar uma atitude mais interventiva e candidatou-se à Assembleia Municipal. “Já o tinha tentado antes, mas desta vez, talvez por já não estar a trabalhar, o empenho foi maior. Colei cartazes e dei a conhecer as nossas propostas, encontrei-me com muito mais gente e isso trouxe resultados”. Com efeito, ao fim de 30 anos, a CDU voltou a ter representação na AM de Cantanhede, “o que já não acontecia desde que o Arnaldo Carvalho foi eleito”.

Os resultados não foram assim tão surpreendentes, “uma vez que nas últimas eleições tinha ficado a muitos poucos votos (5) de ir para a AM”. Desta vez foram 965 as pessoas que depositaram confiança no político, para quem a experiência tem sido “muito gratificante”.

Não sendo o “tradicional político”, assume que “principalmente quando não se tem experiência, a aprendizagem faz-se caminhando” e, por isso, ainda há muito por aprender mas também por fazer.

Na Assembleia, a sua intervenção, diz-nos, tem sido “q.b. Registo, com agrado, algumas moções sugeridas por mim e que foram aprovadas”. A cultura é o campo no qual mais tem a dizer e com o qual se identifica mais e é nesse sentido que não poupa críticas: “Há um esforço no concelho para promover a cultura, mas infelizmente acaba por ser mais do mesmo. Não se aposta naquilo que é diferente ou que pode ser considerado para minorias – e isso, na minha opinião, é um erro”.

Já no discurso feito na Sessão Solene do 25 de Abril recordava: “O Município de Cantanhede, ao longo destes 44 anos, ainda não pôs na sua agenda a urgência de construção de um equipamento cultural digno, na sede do município, à semelhança do que acontece em quase todos os municípios da Região Centro; uma Casa das Artes onde possa receber a criação artística que se produz em todo o país, aproximando, assim, Cantanhede de outras cidades do país, através da Música, do Teatro, da Dança e outros. Não há sequer uma sala de cinema!”.

O Futebol Clube do Porto é uma das grandes paixões de Carlos Negrão

Para Carlos Negrão, “os cerca de 37 mil habitantes do município parecem-nos ser um argumento mais do que significativo para justificar esse desiderato. Não será difícil perceber que uma esmagadora maioria destes cidadãos e cidadãs nunca assistiram a espectáculos de qualquer espécie e as artes têm essa força extraordinária de nos dar a ver coisas esteticamente bonitas e de nos abrir o pensamento. Também é para isso que vivemos. A cultura facilita a união das pessoas. Convoca-as a participar. Junta velhos e novos. Põe-nos a dialogar. Talvez as ruas de Cantanhede não fossem tão desertas. Talvez as pessoas encontrassem razões para por aqui ficar ao fim-de-semana. Talvez Cantanhede fosse uma cidade mais dinâmica, mais viva”.

Embora com críticas e problemas a apontar, a relação na Assembleia é pacífica. “Conheço a maioria do executivo, mas temos noção que somos adversários, não inimigos, e que é necessário levar questões e que é normal discordar. Em Cantanhede acho que as coisas não se confundem: à política o que é da política, à relação pessoal o que é da relação pessoal”.

Agora que já não está no activo, é na Casa do Porto e na Assembleia que ocupa o seu tempo. O restante serve para estar em família – é o braço direito da mãe, com quem vive – e entre amigos. “Leio os jornais, porque gosto de estar informado, almoço geralmente com amigos (exceptuando ao fim de semana) – porque não gosto de almoçar sozinho”. Como hobbies mantém a música mas também as leituras, “principalmente bons policiais”.

Olhando em retrospectiva, diz-nos, é um homem feliz. “Tenho saúde, paz, amigos, família e ética – por isso, sim, posso dizer que sou feliz”. Questionado sobre projectos futuros, a resposta surge rápida e peremptória: “O futuro… bem, o futuro é hoje”, afirma, encerrando a conversa com um sorriso.

 

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