O dom da música

Francisco Saldanha nasceu a 2 de Fevereiro de 1979 no lugar de Antes, na Mealhada, mas as várias décadas de paixão pela música acabaram por traze-lo até Cantanhede, onde actualmente dá aulas a dezenas de alunos. Com uma carreira dedicada em exclusivo às artes, o músico e compositor acaba de lançar o seu primeiro álbum, um projecto de música esotérica com uma forte ligação à natureza.

Dó Ré Mi Fa Sol La Si. Todos conhecemos as sete notas musicais mas para o nosso entrevistado, Francisco Saldanha, estas são mais que meras notas que trauteamos aqui e ali, mas sim a base pela qual se tem guiado praticamente durante toda a sua vida. Apaixonado pelas artes desde pequeno, é da música e através da música que vive.

Francisco, de 38 anos, descobriu bem cedo a música, afinal, esta já lhe corria nas veias. “O meu avô já era músico numa minibanda filarmónica e o meu pai costumava cantar e tocar cavaquinho”.

Assim, foi ainda em criança que ingressou no rancho local e começou a aprender o seu primeiro instrumento. “O meu avô sempre disse que o primeiro neto a aprender música receberia o instrumento que quisesse. Na altura fiquei encantado com o Jean Michel Jarre, que via sempre na televisão, e então optei pelo piano”, começa por contar.

Aos 11 anos, começa com aulas de piano numa escola privada de música mas só aos 13 acaba por receber o seu primeiro órgão, oferecido pelo padrinho emigrado.

“Nessa altura, e embora fosse reguila, já levava a música muito a sério, tanto que fui o primeiro aluno a concluir o curso”, recorda, frisando que as melodias acabavam por o transformar: “Acalmavam-me, e ajudavam a domar esta personalidade mais agitada. Tornavam-me mais concentrado e sossegado”.

Quando decidiu seguir para o conservatório, Francisco Saldanha fez os testes de aptidão já fora do prazo de inscrição, o que o obrigou a esperar mais um ano. Entrou depois, com mérito, e entre as 8 vagas disponíveis para 80 candidaturas.

As experiências com bandas de música começaram também ainda em jovem. “Meti na cabeça que queria formar uma banda e então juntei-me a uns primos e comecei a dar uns toques de bateria”. Com o tempo, “e devido à desmotivação dos meus companheiros, vi-me obrigado a experimentar outros instrumentos e até a cantar”, porque, afinal, “o querer tem muita força”.

Com a entrada no conservatório, iniciou também uma participação na banda de baile TOP SOM. Mais tarde, recebeu ainda o convite para integrar a banda Nefelibatas, com quem chegou a gravar um CD e a participar no festival da Canção. Pelo meio fez parte ainda da banda de folk Rock Ginga, do coro da ESEC Aeminium. Acompanhou o acordeonista João Gentil, um grupo de fados e ainda cantou na escola de samba dos Sócios da Mangueira.

“Sempre a mil”, Francisco Saldanha envolve-se normalmente em vários projectos em simultâneo, dos quais retira como principal vantagem “conhecer pessoas diferentes, de vários meios”. No entanto, a envolvência em vários projectos exige, explica-nos, uma grande dedicação. “É preciso conciliar bem, mas as coisas vão sempre surgindo e acabo por nunca dizer que não. E olhando para trás acho que nada foi por acaso. Não tenho vergonha de ter passado por uma banda de baile, nem nada disso. Assumo o meu percurso e foi ele que me trouxe onde estou. É aquela teoria de semear hoje, para se colher amanhã”.

Embora os trabalhos sejam uma constante, Francisco Saldanha reserva sempre tempo para estudar. “Adoro ler sobre música e por isso faço questão de continuar a estudar. Desde os primeiros tempos nas escolas de música continuei a estudar e a tentar aprender, desde jazz, a novos instrumentos como a guitarra eléctrica. Gosto de adquirir mais conhecimento a nível musical”.

Com o conhecimento adquirido, o autodidatismo, e os vastos anos de experiência, foi com facilidade que passou de aluno a professor. Primeiro na Harpa que hoje tem o nome CEM e depois, em 2005, numa escola própria que abriu em Cantanhede, de nome Sons do Mundo, com aulas de piano, canto, acordeão, bateria, guitarra (eléctrica e acústica), cavaquinho e flauta. Para além disso, dá aulas ainda no Conservatório de Oliveira do Bairro, no Luso, em Ancas, no colégio de Famalicão, em Anadia, e acompanha ainda o artista Saul Ricardo.

Sem medo de aceitar desafios, Francisco Saldanha recorda ao AuriNegra um episódio que teve um sabor especial: “Em 2017, fui convidado para tocar um instrumento, o Handpan, para o primeiro-ministro. Praticamente não conhecia o instrumento e para mim foi um desafio cheio de responsabilidade e que correu muito bem”.

Ultimamente uma das ocupações de Francisco tem sido “estudar música sozinho, Aperfeiçoar e continuar a tentar ir mais longe”. E foi nessa busca de descobrir mais sobre a música que surgiu a ideia para o seu novo álbum, lançado a 8 de Março, e intitulado “Espiral phi”: “Passo imensas horas a ler livros, na internet e a pesquisar e um dia, em 2012, fiquei a conhecer o fibonacci number, um número que cria uma sequência que está presente por todo o universo”.

Desde esse momento, começou a trabalhar numa música instrumental que partilhou nas redes sociais e que teve logo grande aceitação. “Depois, seguiu-se o contacto de uma clínica terapêutica da Mealhada que queria ter lá o meu produto musical e assim nasceu o projecto”, explica.

Com o novo álbum, Francisco Saldanha pretende mergulhar num mundo de esoterismo – um tema que também o fascina. “É um álbum de estilo new-age, que se divide em dois lados, um mais comercial e outro mais terapêutico, praticamente todo instrumental”. Para este trabalho, o músico inspirou-se na natureza. “Muitos dos sons foram recolhidos directamente da natureza, como por exemplo na Mata do Buçaco, fonte do Luso, no lago do Sume de Antes e na Praia de Mira”. Os instrumentos que utiliza são vários e vão desde a flauta de cana até à gaita-de-foles passando por outros instrumentos artesanais. “Criei ainda vários sons de raiz, o que me deu um gosto gigante”, acrescenta.

No “Espiral Phi” ouve-se também a voz e risos do sobrinho Francisco Bártolo, de 18 meses, a voz de Nawal Mahfoud, com origem em Marrocos e que canta em árabe, e o som de gaita-de-foles, tocada pelo João Silva. “O álbum contou também com a participação de Fernando Bicho e Raúl Cabrita. Muitas das sonoridades também foram feitas com base em sintetizadores. Todo o álbum tem um enredo e é um desafio à descoberta, desde o título até à última faixa”.

Para Francisco Saldanha, este CD “é como um filho. Um projecto muito acarinhado e que fiz à minha medida. Por exemplo, o álbum traz uma mandala feita por mim, para que cada pessoa possa ouvir o CD e relaxar enquanto pinta. Ou seja, são duas terapias numa só”, explica ao AuriNegra.

Por enquanto, Francisco consegue viver da música, com as aulas, o álbum, e ainda a banda Tempo, que integra há vários anos. “O truque é estar aberto a vários projectos. É ter sacrifício, abdicar de fins-de-semana. Eu mesmo que quisesse, por exemplo, não teria tempo para aceitar mais nada e isso dá muito trabalho mas também me enche de orgulho”.