O contador de histórias

B.I. Moisés de Jesus Domingues nasceu em Marco Soalheiro (Freguesia do Seixo de Mira) a 15 de Setembro de 1947. Com uma vida atribulada, saiu de Portugal aos 18 anos, com destino a França, tendo voltado várias décadas depois à Gândara, onde permanece dedicado à esposa, às suas gentes e à paixão por carros antigos.

De sorriso fácil, falador e cheio de energia. É assim que chega até nós Moisés de Jesus Domingues, natural de Marco Soalheiro, um lugar pertencente à Freguesia do Seixo, em Mira. Aos 70 anos, este seixense tem uma já longa história de vida, repleta de peripécias e episódios tanto bons como menos bons.

Mas comecemos pelo início, já por si só turbulento. “No dia que nasci, morri e ressuscitei”; começa logo por contar Moisés Domingues, antecipando uma história surpreendente que lhe chegou através de familiares e que ainda hoje o emociona.

“A minha mãe e o meu pai eram agricultores e pessoas de muito trabalho. No dia que nasci, a minha mãe estava a fazer uma mêda de palha e entrou em trabalho de parto quando estava lá no cimo, a uns seis metros de altura. Enquanto a tentavam tirar ela acabou por me ter ali e eu estive ainda uma hora ou mais ao sol”, explica. Quando chegou aos braços do pai, Moisés Domingues mal respirava, diz-nos. Mas, entre rezas, lá soltou o primeiro choro.

“Ressuscitei”, diz, acrescentando que começou assim uma vida cheia de percalços. Por volta dos três, quatro anos, a aflição voltou à família. “Contraí poliomielite e estive algum tempo hospitalizado em Ílhavo até que decidiram que deveriam amputar-me um dos pés”, inicia. Oriundo de uma família muito católica, nessa altura a mãe de Moisés fez uma promessa à Nossa Senhora de Fátima, que se o filho ficasse curado o levaria lá a pé. “Já na sala de operações, com a anestesia preparada, o cirurgião levantou o lençol e eu estava sarado. E a minha mãe cumpriu a promessa”.

Criado num ambiente pobre, o seixense refere nunca ter tido fartura mas também ter passado fome. Ainda assim, os dias eram bem diferentes dos de hoje. “Eu aos cinco anos já andava com o meu pai à frente dos bois e já cozinhava lá em casa, para toda a família”. Quando os pais e irmãos [teve oito] chegavam do campo, já Moisés tinha preparado a refeição com aquilo que havia: “Era colocar um tachito ao lume, com meia dúzia de feijões, alguma carne do porco que matávamos e que tinha que durar um ano inteiro, um bocado de farinha e pouco mais”.

Quando entrou para a escola, os trabalhos no campo não acabaram. “Antes ou no fim das aulas ia com o meu pai para a floresta apanhar lenha. Chegávamos a ir até à meia-noite, depois dormíamos debaixo do carro de bois até às cinco da manhã”, recorda.

Foi num desses dias em que ajudava o pai que aconteceu outro dos momentos dramáticos da sua vida. “Devia ter por volta dos 5 anos, quando, sem querer, fiquei com o pé preso debaixo do carro da vaca”. Desde esse dia passou a mancar, condição que o foi condicionando ao longo da vida, como nos vai dizendo, ao longo da conversa.

Assim que terminou a 4.ª classe, a mãe intercedeu junto do padre para o filho poder ir para o seminário, “mas o padre disse que como era manco não podia. Na verdade havia gente com mais influência interessada em ir para o seminário, e esses acabavam por ‘passar à frente’”.

Com a recusa da ida para o seminário e sem condições económicas para continuar a estudar, Moisés parte, com apenas 10 anos, para perto de Palmela, para trabalhar nas vinhas, onde permaneceu três safras, indo depois para o arroz, na Murta (Comporta).

Depois, decide tirar a cédula marítima e deixa o trabalho na terra para passar para o mar, a bordo da traineira Pedrito, de Aveiro, onde pescavam essencialmente sardinha e lula. Dessa vida difícil são vários os momentos que o seixense recorda, mas há um em especial que lhe ficou gravado na memória: “Era dia 11 de Novembro de 1964, e eu tinha ido para a pesca quando cai ao mar perto de Espinho, Lembro-me de ver a costa e tentei nadar até. Tive que tirar a roupa toda, fiquei em pelota, até que fui recolhido por um outro barco de pesca que me resgatou”, recorda. Nesse mesmo dia, e depois de refeito do susto, Moisés Domingues passou a noite a pescar nesse barco, “da minha traineira nem tinham dado pela minha falta”.

 À procura de uma vida melhor

A ideia de Moisés Domingues era completar 18 anos e partir a salto para França, onde poderia amealhar mais dinheiro e procurar ajuda para resolver o seu problema no pé, que o levava a mancar: “Aqui não dava para fazer vida. E além do mais, sentia-me muito diminuído, pelo meu problema de saúde. Comecei a informar-me e sabia que havia bons cirurgiões em França, por isso queria ir para lá rapidamente”.

Como muitos outros dos seus camaradas da altura, a hipótese era ir a salto e tentar a sua sorte. Trataram tudo com um intermediário, a troco de dinheiro que foram poupando e que, infelizmente, nunca mais viram. “Dessa primeira vez que tentei ir fui burlado. Prometeram-nos transporte e, realmente, fartámo-nos de viajar, mas quando demos por nós, tínhamos voltado ao mesmo sítio, e o dinheiro já tinha sido recolhido junto do meu pai, que ficou de pagar”, conta.

Revoltado com a situação, “e até envergonhado”, Moisés Domingues decidiu ficar por Lisboa, durante um mês, a trabalhar na construção civil. Depois, desta vez com a ajuda de um dos seus irmãos, arriscou novamente, e lá foi rumo a França. “Fui de carro até Santander, em Espanha, e depois segui a pé para entrar em França. Foram momentos duros, numa fase íamos todos num reboque à pinha. Havia gente a desmaiar de cansaço e tudo”, refere, acrescentando que foram momentos problemáticos, que nem gosta de recordar.

Ao deixar Portugal, Moisés Domingues deixou também a namorada, que conhecia desde os sete anos, e que hoje é a sua mulher. “Não podia empatá-la, então terminei o namoro e afastei-me. Ela merecia melhor que um manco. Claro que ela ficou sentida mas acatou o meu pedido e afastámo-nos”, conta, para explicar que esta história de amor teve um revés quando o pai da esposa morreu e retomaram contacto.

Ainda por França, o seixense começou nos trabalhos públicos (estradas, pavimentos e saneamento). Depois, seguiram-se muitos outros trabalhos, sempre diferentes mas onde o português demonstrava capacidade e espírito de sacrifício.

Mas um dos momentos mais importantes da sua vida acaba por acontecer, curiosamente, devido a um acidente. “Já estava em França há algum tempo e ainda não tinha conseguido arranjar quem me ajudasse com o pé, porque não tinha dinheiro suficiente. Então, quando tive um acidente de trabalho e magoei esse pé percebi que era a minha oportunidade para ser operado”, começa por contar, com um sorriso maroto.

“Finalmente podia realizar o sonho de deixar de mancar. Então, todos os dias, em vez de descansar o pé, puxava o dedo para aquilo não sarar. E o que doía!… Mas o meu objectivo era chegar à radiografia e aquilo estar ainda pior, e estava mesmo [risos] e por isso tiveram que levar o caso a um cirurgião”. Ao médico francês, e prestes a reformar-se, Moisés Domingues abriu o coração e explicou que o seu grande objectivo era deixar de mancar, “e ele ficou sensibilizado e aceitou ajudar-me”. Fez quatro operações, esteve 11 meses de baixa mas finalmente conseguiu realizar aquilo que desejava.

Depois desse período, regressou a Portugal, para se apresentar, já com um atraso de alguns meses, à inspeção para a tropa. “E embora tenha apresentado relatórios médicos, estava difícil para me dispensarem mas lá consegui”. Aproveitando a estadia em terras lusas foi a Fátima a pé e um mês depois casou.

Para França já não regressou sozinho. Na vespa vermelha, levou também a recém-esposa Maria Evangelina. “Foi uma aventura. Fomos na Vespa até à fronteira, aí pedimos a alguém que levasse a mota e passámos a pé. Na altura, a mota não tinha apoio para os pés para a minha esposa, e aquilo foi complicado. Ela chegou em muito mau estado”.

Entretanto, o casal compra uma caravana e muda-se para Versailles, onde Moisés vai trabalhar na construção de lotes. Pelo meio, torna-se ainda uma estrela de futebol, jogando como guarda-redes na equipa local.

“Desde miúdo que jogava à bola, primeiro no meio do pinhal, depois no Alentejo e no Seixo e mais tarde em França. Sou um fã de futebol”, diz-nos, prometendo-nos uma visita guiada ao seu “museu” do Benfica, o clube do coração e “uma verdadeira paixão”.

Voltando aos anos por França, Moisés refere que acaba por conseguir juntar muito dinheiro e por isso decide comprar um carro e voltar ao Seixo, onde abre uma churrascaria de nome Ala – Arriba. Mas o destino prega-lhe uma nova partida. Ainda que inicialmente o negócio tenha corrido bem, em Fevereiro de 1970 Moisés acaba por ser detido.

“Fui levar uns conhecidos à fronteira, para irem a salto, mas alguém tinha feito queixa e então fui detido, pelo crime de passar emigrantes ilegais. Fiquei detido ainda oito dias na Guarda ”, diz-nos, mostrando alguma revolta, principalmente porque no dia que saiu da prisão foi directo para a maternidade buscar a esposa que tinha acabado de ter a minha filha, “e lá regressámos os três de mota, a casa”.

Para se escapar a uma pena teve que pagar uma caução de uns milhares de escudos, dinheiro emprestado por um familiar e que o levou de novo a França, onde regressou aos campos de futebol, dessa vez no Saint-Étienne e ao trabalho, como condutor de camiões de transporte de mexilhão. Algum tempo depois passou para Bordéus, novamente para trabalhar mas também jogar.

Passados alguns anos ainda regressou a Portugal, com o intuito de ficar, mas um acidente que levou ao falecimento de um dos seus filhos, levou-o de volta para França, onde passou a trabalhar como camionista mas por conta própria. “Mudei-me para Charron, continuando no transporte do mexilhão, mas em simultâneo montei um negócio que tinha café e parque de campismo”, e onde contava com a ajuda dos filhos.

O depois

Só quando se aposentou em 2005, Moisés Domingues e a esposa regressaram finalmente à Gândara. “Apesar de muita gente desta terra me ter feito mal, que eu não merecia, eu ando de cabeça erguida. Esta é a minha terra também, fiz muito por ela e por isso escolhi voltar”.

As saudades de França, admite, são muitas, “porque fui lá muito bem tratado, tanto no trabalho como no futebol, onde todos me conhecem ainda”. No entanto, várias vezes ao ano, regressa para visitar os filhos – quatro acabaram por ficar por lá e uma está emigrada no Canadá – mas também os muitos amigos. “Felizmente consegui dar aos meus filhos a oportunidade que nunca tive. Todos eles estão bem, já me deram 21 netos e têm vidas estáveis e felizes”, assegura, visivelmente orgulhoso.

Embora ausente do país durante décadas, Moisés considera-se o típico gandarês, ou seja, “uma pessoa que não desiste”, e deixa até um conselho: “Mesmo que falem mal de nós e nos tentem meter abaixo, não se deve dar ouvidos. Não se pode desistir e deve-se dar provas daquilo que somos”:

Enérgico e dono de uma grande motivação, o regresso a Portugal não tem significado descanso ainda assim. Quando não está a ajudar vizinhos ou conhecidos, trata do jardim com a esposa ou está na garagem, onde tem 25 carros de colecção, que tem vindo a restaurar.

A paixão por carros antigos, conta-nos, começou quando era camionista em França. “Passava muitas vezes por carros ali largados à beira da estrada e alguns eram lindos. Um dia decidi comprar um desses carros…”. Desde então, sempre que via um carro que lhe agradasse, e que pudesse ser restaurado, Moisés comprava. Chegou a ter 40 na sua garagem, agora são 25, sendo que a maioria veio de França, “e a andar”.

 

Com os dias ocupados, a restauração dos carros vai sendo feita aos poucos, “vai sendo devagarinho”, refere, enquanto nos apresenta, uma a uma, as suas máquinas, que vão desde Peugeot, Mercedes e até um Jaguar.

Outros dos prazeres do seixense é passear. “Tudo o que é passeio lá está o Moisés”, diz divertido, contando-se que agora está inscrito no INATEL, o que o tem levado a conhecer “os mais belos locais do país”. Aquilo que mais deseja, é viver os seus dias em paz, “viver o dia-a-dia com fé em Deus e dar-me bem com toda a gente”.

 

23 de Dezembro: um dia de azar

Católico e dono de uma grande fé, há um dia do ano em que Moisés Domingues prefere não confiar nem nos santos, e por isso evita sair de casa.

No dia 23 de Dezembro dificilmente o seixense pega no carro ou vai trabalhar, isto porque, a experiência de anos anteriores, lhe mostrou que nesse dia o melhor é a precaução.

Tudo começou em 1961, explica-nos, quando caiu de um pinheiro. “Andava a apanhar lenha com o meu irmão quando caí de costas, do alto de um pinheiro com uns seis ou sete metros. Pumba, atolei na areia, que até fez um buraco”, começa a contar. Depois disso, ficou sem reação, e ainda que conseguisse sentir tudo à sua volta, não falava nem abria os olhos. “Na altura, o meu irmão viu-me assim e pensou que estava morto. Então meteu-me num carrinho de mão e levou-me até casa, dizendo pelo caminho às pessoas da aldeia que eu tinha morrido. Entretanto foram à feira de Portomar avisar o meu pai, que veio aflito, chegou, mandou-me um balde de água para cima e fez-me voltar à vida”, refere rindo-se, mas recordando que o momento, na altura, foi muito aflitivo.

Já refeito do susto, um anos depois, novamente a 23 de Dezembro, e novamente no pinhal, estava Moisés Domingues a apanhar algumas pinhas quando deixou cair a vara que o auxiliava na tarefa sobre a testa, abrindo-lha. “Foi mais uma aventura. Sangue por todo o lado”; diz-nos, enquanto nos mostra a cicatriz, mais uma num corpo que viveu sempre do trabalho e de muito esforço. Da testa para a mão, mais uma cicatriz, feita um ano depois, mais uma vez a 23 de Dezembro. “Dessa vez estava a cortar lenha todo entretido. Alguém entendeu comigo e eu respondi, sem querer lá me distraí e zás, mesmo em cheio no meio dos dedos. E ganhei mais uma cicatriz e o meu pai mais um grande susto”.

Desde então, refere, “não conduzo nesse dia e até evito sair de casa. Mesmo nos tempos em França tirava esse dia de férias”, conta.