Neste tempo das vindimas

Este ano, há um desconsolo generalizado perante as vindimas: o tempo foi bastante agreste, sobretudo na última fase da maturação das uvas, devido ao calor excessivo, que acabou por destruir o trabalho que foi implementado nas vinhas ao longo das várias estações. E é pesaroso ver os cachos queimados e mirrados, e olhar o sítio onde em vez dos bagos há apenas os pedúnculos, os chamados engaços, que os deviam suportar. Muitos são os anos em que a chuva excessiva por esta mesma época leva ao seu apodrecimento, e isto sem falar nas condições climatéricas adversas, que trazem pragas e doenças às videiras aquando da crescença. E a natureza não se compadece, das vezes sem conta, em que o homem com tanto amor vai até junto das suas cepas: para a poda, para a empa, para as descabas e as adubações, para as sulfatagens e curas, para as mondas, e finalmente para a vindima, quando a há, pois muitos são aqueles, como está a acontecer este ano, que nem sequer um poceiro colheram! E o lavrador, descorçoado mas penitente, continua a dizer, como sempre disse, que o homem põe e Deus dispõe! Nestes outros tempos, a vida das nossas aldeias é de facto outra, comparativamente à alegria que dantes transparecia por esta altura. É que não há vizinhos para andar à volta com cachos para apanhar, não há carros de bois pelas ruas carregados com as dornas, não há cheiro a mosto vindo das adegas, não há homens de calças arregaçadas e pernas vermelhas por andarem metidos nos lagares, não há tão pouco as adiafas quando ele era encanteirado. E também não há mães a mergulharem no tal mosto, no mosto bem vivo, as pernas dos filhos debilitados no andar, uma mesinha tão comum a que em tempos se recorria por estas terras do Senhor!

Autor: António Castelo Branco