Mudam-se os tempos…

Há mais de 400 anos (no séc. XVI) o nosso épico poeta maior, Luís Vaz de Camões, escreveu, para além de “Os Lusíadas”, a sua obra prima, belíssimos sonetos, onde demonstrou a sua genialidade para as rimas, mas também uma grande inteligência e apurada argúcia, fazendo que algumas das suas composições ainda hoje assumam plena actualidade.

Hoje parece-me pertinente invocar um desses sonetos, transcrevendo as duas primeiras quadras, que rezam assim:

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

 

As gerações mais recentes talvez se não apercebam das profundas mudanças a que temos assistido nos anos mais recentes, pois já nasceram com elas.

Mas os menos jovens assistiram às transformações e sabem que muita coisa mudou, com todas as consequências que daí decorrem – as positivas e as negativas.

Vou dar alguns exemplos:

Os jornais impressos já não são o único veículo privilegiado de notícias, pois foram surgindo, por essa ordem, a rádio, a televisão e a internet. E isso levou a que muitos tivessem desaparecido!

Hoje já quase não há casas de fotografia, pois primeiro surgiram as máquinas digitais e depois os smartphones que permitem que cada cidadão fotografe tudo o que lhe apetece sem precisar de filme, de revelação, de impressão em papel.

Já (quase) não se editam enciclopédias e dicionários, muito menos listas telefónicas e de páginas amarelas, pois o Google e outros motores de busca põem (quase) todo o conhecimento ao alcance de (quase) todos.

O e-mail acabou com o serviço tradicional de correios na maior parte dos países.

O Whatsap, o Skype e outros serviços do género, gratuitos, estão a substituir as redes telefónicas tradicionais, quer as fixas quer as móveis.

O multibanco levou ao encerramento de milhares de agências bancárias.

O Youtube e o Netflix acabaram com os videoclubes e ameaçam as empresas de televisão.

O Airbnb (e outras plataformas similares) já têm muito mais clientes do que as unidades hoteleiras tradicionais.

O Booking e o Trivago está a acabar com as agências de viagens.

E poderia continuar por aqui fora, citando muitos mais exemplos de sectores que sofreram sucessivas e profundas revoluções.

Muitos desses sectores têm tido a capacidade de reagir, de se adaptar, de reconhecer que têm de evoluir para acompanhar o ritmo do desenvolvimento científico, tecnológico, social.

Outros não tiveram essa capacidade, pelo que já desapareceram ou estão a caminho da destruição.

Vem tudo isto a propósito do que se passou nos últimos dias com o sector dos táxis, que assumiu uma paralisação de oito dias como forma de pressão para que não entrasse em vigor, no próximo dia 1 de Novembro, a lei que regulamenta a Uber e outras plataformas de transporte em automóvel.

Por razões profissionais, estive em Lisboa na passada quarta-feira, tendo assistido, desde manhã, à manifestação dos taxistas que obstruiu o trânsito na Praça dos Restauradores (estive em trabalho no Palácio Foz, situado naquela Praça).

Uma manifestação que acabou com muitos dos taxistas a agredir os jornalistas com ovos, alegadamente para protestar contra a forma como os órgãos de comunicação social têm noticiado o caso.

Esta condenável atitude só vem levantar ainda mais críticas a um sector que em vez de evoluir tem estagnado (há honrosas excepções!), deixando que as alternativas se tornem mais aliciantes para os utentes.

Se todos os proprietários e trabalhadores das áreas que acima citei, afectadas pelo progresso, viessem para a rua atirar ovos aos jornalistas, o Mundo seria hoje uma enorme, mas atrasada, omoleta…

Autor: Jorge Castilho (Director do AuriNegra)