Menos mas melhores vinhos

Na região da Bairrada, Setembro e Outubro são meses de vindima. Durante esse período, a paisagem torna-se semelhante nas várias localidades da região e também no concelho de Cantanhede, onde as vinhas passam a receber agricultores de tesouras em riste mas também muitas famílias e grupos de amigos, que se juntam para a apanha da uva, num ambiente de trabalho e entreajuda mas também de confraternização. Agora, com os últimos cachos já vindimados, a azáfama e os afazeres passaram das vinhas para as adegas, onde se produzem os néctares que daqui a uns meses, ou, em alguns casos, anos, estarão prontos a serem bebidos e apreciados.

Em 2016, embora os dias da vindima tenham sido de sol, S. Pedro não facilitou na Primavera, o que resultou no aparecimento de doenças e pragas nas vinhas da região. Na Adega Cooperativa de Cantanhede a vindima teve início a 16 de Setembro, com as uvas brancas, e terminou a 5 de Outubro, com as tintas. E embora a quantidade de uva entregue tenha sido menor que em anos anteriores, a qualidade continua assegurada.

“A campanha de 2016 iniciou-se com uma nascença inferior ao normal. Para além disso, o aparecimento de condições climatéricas adversas a uma boa maturação provocou alguma preocupação aos nossos Associados, tendo-se registado uma menor quantidade de uva recepcionada”, começa por explicar ao AuriNegra Victor Damião, Presidente da Direcção da Adega Cooperativa de Cantanhede.

De acordo com Victor Damião, dos cerca de mil hectares de uvas dos 700 associados da adega, foi registado um decréscimo de entrega a rondar os 15%, sendo que a quebra foi maior nos brancos que nos tintos.

Já em relação à qualidade, o dirigente garante que esta não foi afectada, antes pelo contrário. “Na qualidade, aí sim, estamos seguramente na presença de uma colheita que nos vai trazer boas memórias. Tudo indicia que esta colheita vai rivalizar com 2011 e 2015”, refere orgulhoso.

“Colheita de Memória para o Futuro”

Este ano a Adega Cooperativa de Cantanhede decidiu surpreender os seus associados. “Sempre com o intuito de valorizar as uvas dos nossos associados, pela primeira vez, e fruto de um trabalho conjunto entre a Direcção da Adega, os seus viticólogos e os seus enólogos, está a ser elaborado um vinho que certamente vai fazer história, não só nesta adega mas também na região da Bairrada” afirma Victor Damião, para logo depois explicar: “Para este vinho, que é uma colheita de Memória para o Futuro, foram seleccionadas as melhores vinhas velhas dos nossos melhores produtores. Os critérios foram os seguintes: as vinhas tinham que ter mais de 40 anos e a casta predominante tinha que ser a Baga”.

O resultado, frisa, “espera-se muito animador, sendo que as uvas ainda estão adormecidas sob as películas-Cuvaison [maceração pós-fermentativa] ”. O entusiasmo por este néctar especial também é partilhado pelo Enólogo da Adega de Cantanhede. Nas palavras de Osvaldo Amado, “o potencial deste vinho é enorme e dentro de anos iremos ter um vinho positivamente diferente e digno de representar a Bairrada, satisfazendo os mais exigentes consumidores”. Aos fãs dos vinhos bairradinos e da casta Baga resta agora esperar pelo momento em que este néctar estiver pronto para aos mercados e aos copos.