Mário Pereira expõe na Casa Carlos de Oliveira

A Casa Carlos de Oliveira, em Febres, foi o local escolhido para acolher a exposição de quadros do febreense Mário Pereira. A residir em Lisboa, foi já na capital que o homem de 96 anos descobriu o gosto pela pintura a pastel, entre outras artes e um grande rol de actividades.

Agora, é a vez de a sua terra natal o homenagear numa exposição que inclui cerca de 50 quadros oferecidos à Junta de Freguesia local e que pode ser visitada até dia 12 de Setembro.

A inauguração da mostra de arte aconteceu este sábado, dia 8 de Setembro, num ambiente de confraternização, onde não faltaram amigos e familiares do pintor amador.

Na ocasião, o Presidente da Junta de Freguesia de Febres, Carlos Alves, assinalou o momento “como uma homenagem a um senhor que, embora não viva em Febres desde os seus 30 anos, não esquece nem despreza as suas raízes”.

Enaltecendo o “sorriso rasgado” de Mário Pereira, sempre que caminha pelas ruas da freguesia, Carlos Alves elogiou ainda a sua perseverança “em não saber parar” e a generosidade “que o levou a, durante todos estes anos, oferecer vários quadros à Junta de Freguesia e que agora podem ser vistos por todos num local mais indicado”.

“Quadros como estes são essenciais para preservar a memória e muitas tradições passadas, que vão caindo no esquecimento. Para nós é um verdadeiro orgulho ter aqui esta exposição e ter o Sr. Mário Pereiro na nossa freguesia”, partilhou Carlos Alves.

Também presente, Pedro Cardoso, vice-presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, teceu vários elogios a Mário Pereira, realçando o seu autodidatismo e o talento, “patente em cada uma destas obras”.

Para o também vereador da Cultura, estes quadros “enaltecem e engradecem o concelho, porque são verdadeiros retratos vivos de outros tempos e que muitos dos mais jovens já nem reconhecem”. O autarca destacou ainda o significado especial da exposição estar patente na Casa Carlos de Oliveira, “um dos nomes mais importantes da cultura gandaresa, aqui tão bem representada também pelo Senhor Mário Pereira”.

Visivelmente emocionado, o nonagenário agradeceu a homenagem e a oportunidade de mostrar os seus trabalhos nesta exposição. “Para mim é uma felicidade estar aqui hoje”, referiu, acrescentando o prazer que tem pela pintura. No final, foi rodeado de amigos e familiares que foi explicando a história de cada um dos quadros expostos.

Sobre Mário Pereira

Mário Dinis Pereira é natural de Febres (quando esta ainda se chamava Febres do Boeiro), onde nasceu a 29 de Junho de 1922. Embora resida há várias décadas em Lisboa é pela vila gandaresa que passa grande parte do Verão, passeando lentamente pelas ruas, onde vai parando junto de amigos e conhecidos que o interpelam para dois ou mais dedos de conversa.

Foi por volta dos 30 anos que Mário Pereira se decidiu mudar, com a esposa, para Lisboa onde ainda hoje vive. “Arranjei trabalho nos CTT e como gostaram muito de mim fui subindo na carreira, até chegar a chefe dos armazéns dos correios”. Pelo meio tirou ainda um curso de comercial por correspondência e outro de rádio, focado na parte técnica. “Sempre tive este bichinho por aprender mais e mais”, refere.

Há mais de 60 anos a viver na capital, Mário Pereira refere, ainda assim, não se sentir lisboeta. “Sou e serei sempre febreense, embora tenha vivido bem mais tempo em Lisboa do que em Febres”.

Mesmo depois de se aposentar foi por Lisboa que ficou. Afinal é lá que vivem os dois filhos, os quatro netos e os seis bisnetos. “A minha família está toda lá e lá tenho sempre com que me entreter”, partilha.

Algum tempo depois de a esposa falecer, Mário Pereira, na altura com 76 anos, inscreveu-se na Academia de Cultura e Cooperação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, de modo a ocupar os tempos livres e em simultâneo combater a solidão. “Estou lá desde 1998. Na altura fazia caricaturas de colegas na brincadeira e algumas pinturas, de modo autodidata, e decidi que queria saber mais”, explica.

Embora se tenha inscrito, de início, para aprender a pintar, entretanto já foram várias as actividades que experimentou. “Quanto mais se aprende menos se sabe, por isso não gosto de estar parado. Tenho aulas de astronomia, de hidroginástica, de pintura a óleo, pastel e aguarela. Também gosto muito de escrever e de ler, embora leia pouco devido às cataratas. Na minha casa tenho uma biblioteca e um corredor repleto de milhares de livros, essencialmente de escritores portugueses e de história”, diz-nos. Porém, entre as várias actividades que desenvolve, é a pintura aquela que lhe dá maior prazer. Prova disso são os mais de 200 quadros aos quais deu forma nos últimos anos e que faz questão de oferecer a amigos.

Os temas da sua pintura vão ao encontro das suas raízes. Com efeito, Mário Pereira é mestre em pintar a Gândara da sua “meninice”: desde a mulher de lenço à cabeça à puxada das redes de arte xávega, passando pelos agricultores a trabalharem a terra árida. “Gosto de pintar paisagens vivas e imagens que retratem costumes antigos, para reactivar memórias e reviver momentos do passado”, frisa, acrescentando, ainda assim, que não se considera pintor: “Um pintor pega num pincel e faz. Eu não. Tenho que pensar, fazer os desenhos…é assim”.