Mais alto, mais longe

Se Febres é conhecida como a terra dos ourives e do ouro, também é cada vez mais conhecida como a terra do atletismo. Na verdade, há cerca de 30 anos que o atletismo surgiu na vila gandaresa, continuando, ainda hoje, a levar o nome da freguesia, mas também da região, cada vez mais longe.

À semelhança do que acontece por todo o país, em que o futebol continua a ser visto como o desporto-rei, em Febres é a “bola” que ainda move mais multidões. No entanto, o atletismo foi ganhando terreno e aquilo que começou com uma brincadeira de dois amigos tornou-se num dos maiores motivos de orgulho das gentes de Febres.

A tradição de atletismo na vila gandaresa remonta à década de 80 do século passado e tem a ela associado um nome: Fernando Rocha.

“Tudo começou quando dois amigos, o Gil Oliveira e o Vítor Costa, me vieram pedir se lhes comprava umas camisolas para eles irem correr numa provas de rua”, começa por explicar Fernando Rocha, que acrescenta que depois das camisolas vieram as boleias: “Como eles andavam de motorizada começaram a pedir-me transporte para as provas e eu lá comecei a ir”.

Apesar de nessa altura não ter praticamente nenhum interesse por atletismo, Fernando Rocha começou a acompanhar a modalidade e, aos poucos, “tomou-lhe o gosto”, decidindo criar uma equipa com jovens atletas maioritariamente de Febres.

“Na altura era tudo muito amador e percebi que tínhamos que estar ligados a qualquer coisa”, refere, acrescentando que foi assim que o atletismo passou a funcionar a partir do Febres Sport Clube, competindo inicialmente apenas em provas populares e, mais tarde, no campeonato do Inatel.

“Era uma secção que trabalhava completamente independente do FSC. A única coisa que usávamos do clube era o nome e o número de contribuinte. De resto eramos nós que tínhamos que arranjar verbas para as deslocações e para as despesas que tínhamos”, lembra o ex-dirigente.

Com o tempo, o febreense decidiu alterar a estrutura da equipa e começou a federar alguns dos atletas, que assim passaram a competir pela Associação Distrital de Coimbra.

Mais tarde, em 2002, foi pela sua mão que a modalidade foi transferida do Febres Sport Clube para a então recém-nascida Gira Sol – Associação de Desenvolvimento de Febres. Uma mudança que decorreu “de forma bastante fácil”, recorda o primeiro director da secção de Atletismo da Associação de Desenvolvimento de Febres, que, nessa altura, trouxe consigo, do FSC, cerca de 60 atletas. “Passou-se o atletismo para a Gira Sol por se pensar que assim teria melhores pernas para ‘correr. Foi aí que a modalidade ganhou mais força e mais apoios”, afirma Fernando Rocha.

Entretanto, desde 2002, muito mudou, com os sucessos a surgirem em catadupa, fruto do trabalho dedicado dos vários responsáveis e desportistas. Um dos pontos de viragem para o atletismo febreense aconteceu na época de 2006/2007, quando, com Luís Pataias ao comando da secção, a equipa da Gira Sol foi pela primeira vez à I Divisão do Campeonato de Clubes.

“O campeonato em Leiria, de 2007, em que fomos apurados para disputar a final do campeonato nacional da 1.ª Divisão foi, sem dúvida, um dos melhores momentos vivenciados pela equipa. Era inédito para nós e foi uma recompensa enorme pelo trabalho de todos”, recorda.

Director da secção de atletismo durante 8 anos (de 2005 a 2013), Luís Pataias, que actualmente reside no Luxemburgo, explica-nos como tudo começou: “Na altura, quando fui convidado para a função de director da secção de atletismo – algo de que me recordo como se fosse hoje, o facto teve tanto de hilariante como de interessante. Primeiro foi uma surpresa. Depois, eu não percebia nada de atletismo, nem nunca tinha praticado sequer”.

Apesar da falta de experiência e de não conhecer os meandros da modalidade, Luís Pataias conta ao AuriNegra que encarou o desafio de corpo e alma.

“Absorvi e vivi o atletismo de uma forma genuína. Apesar das adversidades e dificuldades, que não foram poucas, e de todo o tempo despendido de forma voluntária, o saldo final foi muito enriquecedor”, afirma.

Desses tempos, o ex-dirigente da Gira Sol tem acima de tudo boas recordações. “Houve momentos fantásticos. Desempenhos extraordinários em termos individuais e colectivos dos atletas. Momentos de emoções ao rubro partilhadas por todos, principalmente nos apuramentos e nas finais dos campeonatos de clubes em que todos (directores, treinadores e atletas) estávamos concentrados no objectivo colectivo de obter a melhor classificação possível”, refere.

Orgulhoso do trabalho que fez à frente da secção de atletismo da Gira Sol, Luís Pataias não esquece, no entanto, o trabalho dos seus antecessores: “Fiz parte de um percurso que continua a ser percorrido. O atletismo de Febres contava já com cerca de 20 anos de história quando integrou a associação Gira Sol, ou seja, havia já um historial construído com muito esforço que foi a base de partida para a criação de um grupo forte com ambições mais elevadas e de projecção no atletismo nacional. Actualmente, é um orgulho para nós de Febres ver a nossa camisola a correr ao lado, taco a taco, com as grandes equipas nacionais”.

Com efeito, nas últimas épocas desportivas, o emblema febreense tem batido vários recordes Distritais, de todos os escalões, e ganho várias medalhas, continuando a levar mais longe o nome de Febres, do concelho de Cantanhede e até mesmo do distrito de Coimbra.

Em termos de resultados colectivos, a Associação de Desenvolvimento de Febres tem mantido em permanência a sua presença junto dos clubes mais importantes do panorama Nacional e obtido classificações cujo registo é digno de realce.

Há nove anos consecutivos que a equipa de atletismo da Gira Sol marca presença na I Divisão do Campeonato Nacional de Clubes, o mais alto escalão competitivo da modalidade em Portugal. A equipa masculina é, de resto, uma das cinco referências do sector, a par de “gigantes” como Sporting e Benfica.

No seu palmarés, a Gira Sol conta ainda com vários títulos e medalhas em provas nacionais, mas também além-fronteiras. Entre os melhores resultados obtidos pelos atletas da Gira Sol destacam-se os quarto e quinto lugares, obtidos pelas equipas masculina e feminina, respectivamente, na I Divisão do Campeonato Nacional de Clubes em Pista Coberta de 2012, que decorreu em Pombal.

Actualmente, e mesmo com os constrangimentos financeiros pelos quais as associações têm vindo a passar, o atletismo continua a ser aposta forte para o emblema de Febres. A Gira Sol tem uma escola de atletismo que já demonstrou a sua qualidade e que conta com quatro treinadores experientes, ao dispor dos jovens da freguesia, do concelho e não só. Para além disso, tem a mais-valia de ter ao seu dispor um complexo desportivo com pista completa e, num futuro próximo, um pavilhão desportivo, que criará ainda melhores condições para a formação e para a prática do atletismo em Febres, e que permitirá à equipa voar ainda mais alto e mais longe.

A correr para o futuro

Apesar de a equipa da Gira Sol estar aberta a atletas de todas as idades, a aposta tem vindo a ser feita essencialmente na captação de novos atletas, que, assim, têm a oportunidade de “descobrir” o atletismo, pelas mãos da Gira Sol, e investir neste desporto.

Um desses exemplos é Laura Cardadeiro. A atleta de 8 anos, natural de Febres, integra a equipa de atletismo da associação há cerca de um ano e tem planos de continuar a praticar a modalidade por muitos mais.

A escolha do atletismo surgiu naturalmente, como nos refere. “Eu só tinha uma actividade, que era o rancho, e queria outra. Como o meu pai costuma assistir a provas, eu aprendi a gostar de atletismo e por isso decidi experimentar”, afirma.

Para Laura o atletismo é um desporto que “é bom para a saúde, e, ao mesmo tempo, é uma forma divertida de ocupar os tempos livres”. A competição é outra das partes preferidas da jovem atleta, que prefere participar em corta-matos.

“Mas também já participei em provas em Coimbra e Pombal. Aquilo para que tenho mais jeito é o salto em comprimento”, refere, acrescentando que o atletismo “para além de um hobby, já é também um sonho, em que gostava de ter futuro”.

Autor: Redacção (Carolina Leitão)